Música

Elton John paga dívida ao Brasil em show grandioso no Rock in Rio

Sem ter passado pelo país com a turnê de despedida, a Farewell yellow brick road, estrela do rock foi a grande atração do primeiro fim de semana do festival, com show na segunda-feira (7)

TEXTO Marcelo Abreu

09 de Setembro de 2026

Elton John e Gilberto Gil nos bastidores do Rock in Rio 2026

Elton John e Gilberto Gil nos bastidores do Rock in Rio 2026

Foto Instagram/Reprodução

Depois de quatro noites de música de qualidade muito duvidosa, Elton John encerrou, na madrugada da terça-feira (8), o primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026 com uma apresentação para lembrar que o pop-rock de qualidade ainda existe, e resiste. O pianista e cantor inglês, que não é muito afeito a demagogias e afagos aos países que visita, derramou-se em elogios ao Brasil. Explicou que devia esse show ao país, frustrado que ficou por não passar por aqui na sua turnê de despedida, a Farewell yellow brick road, devido às restrições provocadas pela pandemia.

Dessa forma, interrompeu agora a recente aposentadoria dos palcos para vir ao Rock in Rio e fazer seu 21º show no Brasil, o terceiro no festival, onde esteve também em 2011 e 2015. Foi um show com quase tudo de bom que Elton tem apresentado ao vivo em anos recentes. Desde o início, com a grandiosa e pesada “Love lies bleeding”. O paletó amarelo sobre camisa azul, no seu estilo extravagante-chique, parecia uma discreta homenagem às cores brasileiras (o baterista Nigel Olsson, que o acompanha desde 1970, estava com as cores inversas, paletó azul com detalhes em amarelo).

O show contou também com a especialíssima participação do percussionista Ray Cooper, uma figura mitológica na carreira de Elton, e do sempre presente guitarrista Davey Johnstone. Olsson, Cooper e Johnstone representaram um selo de qualidade: esta é uma verdadeira apresentação com o que Elton tem de melhor.

No repertório estiveram presentes clássicos do disco Goodbye yellow brick road (1973) como a própria faixa-título além de “Bennie and the Jets”, “Saturday night’s alright (for fighting)” e “Candle in the wind”, com Elton lembrando os 100 anos de nascimento de Marilyn Monroe, tema da canção. De outros discos estavam no show músicas como “Crocodile rock”, “Honky cat” e “Rocket man”, esta com um criativo improviso ao piano, no final. Aos 79 anos, se Elton está longe dos melhores momentos em termos de voz, compensa tudo com a desenvoltura ao piano, que parece tocar melhor a cada show. Afinal, convive com as teclas brancas e pretas desde os cinco anos de idade.

O gigantismo do festival e o tamanho da multidão impressionam pelos números, mas infelizmente não favorecem a fruição dos shows presencialmente. Apesar de toda a estrutura do palco principal ser coberta por um telão que permitia ver de longe e passar imagens ilustrativas de cada música, a visão real dos músicos ficou prejudicada por eles terem sido colocados muito ao fundo do palco. Elton, sentado ao piano, ficou muito distante da plateia. Devido aos problemas de locomoção, não se aproximou do público em nenhum momento, no máximo se levantando para agradecer aos aplausos. O formato de festival gigante, com gente se espalhando por seis palcos diferentes e inúmeros stands de patrocinadores (alguns com seus próprios pequenos shows particulares) não ajudou à atenção que o show principal merecia. A sensação era a de estar perdido em um gramado lotado de um estádio três ou quatro vezes maior do que um Maracanã.

Musicalmente falando, o ponto baixo foi a execução de “Sacrifice”, com aquela sonoridade de churrascaria, e “Cold heart”, um remix recente de algumas músicas com a participação virtual da cantora Dua Lipa. Elton cantou sentado ao piano, sem tocar, sobre um playback e imagens de Dua no telão. Talvez tenha agradado à geração da dance music.

Um momento especial na apresentação do Rio, e raro na carreira do cantor, foi “Skyline pigeon”. Elton fez questão de dizer ser essa a primeira boa canção de sua parceria com o letrista Bernie Taupin (gravada pela primeira vez em 1969) e que fez sucesso somente no Brasil, referindo-se à inserção na trilha da novela Carinhoso, em 1973.

O final do show foi com um dos primeiros sucessos de Elton John, a carinhosa e sempre presente “Your song”. Ao todo, 24 músicas tocadas ao longo de duas horas e dez minutos que, apesar do frio e dos chuviscos, passaram muito rápidamente.

MARCELO ABREU, jornalista e autor de livros de viagem

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