Cine Audiovisão anuncia 4ª temporada na Casa Lontra
Cinema de vanguarda e música experimental se encontram em cine-concerto neste sábado (4/7), às 19h, com entrada gratuita.
01 de Julho de 2026
Arte sonora e cinema de vanguarda na Casa Lontra
Foto Beatriz Baggio
Enquanto são exibidos filmes silenciosos, experimentais e de difícil circulação - em alta resolução -, músicos convidados criam e executam trilhas sonoras ao vivo. Não se trata simplesmente de acompanhar a imagem. Os artistas sonoros usam o filme como uma espécie de partitura aberta, estabelecendo diálogos entre composição, improvisação e imagem em movimento.
Essa experiência sonora e visual resulta no cine-concerto que faz parte do projeto Cine Audiovisão, cuja quarta temporada estreia neste sábado, 4 de julho, às 19h, na Casa Lontra, no Bairro da Soledade, no Recife. A entrada é gratuita.
O artista sonoro da vez é o músico, produtor e roteirista Cássio Sales, que promete uma apresentação realizada a partir do projeto I/O, criado por ele em 2017. Surgido de experimentações entre som e imagem, o trabalho reúne elementos de estética lo-fi, noise, colagem sonora, música ambiente e drone. Utilizando guitarras, pedais, samplers e sintetizadores, o projeto constrói paisagens sonoras e texturas que dialogam com o improviso e a escuta atenta.
Como é de praxe no evento, Sales convida um músico para dividir a apresentação. O produtor, músico e fundador do Zelo Estúdio, Guilherme Assis propõe um encontro entre guitarras, violões, música eletrônica e percussões brasileiras. Sua pesquisa sonora transita entre texturas orgânicas e elementos eletrônicos, buscando novas possibilidades dentro da música brasileira contemporânea.

“Busquei pensar em alguém que estivesse fora do núcleo da cena experimental daqui de Recife.Acho interessante e saudável que o experimentalismo possa ser exercitado também por artistas que não sejam atuantes no campo da arte sonora. É muito legal ter iniciativas e espaços que viabilizem isso, como é o caso do Cine Audiovisão e da Casa Lontra”, afirma Cássio.
Na tela, os três curta-metragens selecionados são marcos do cinema experimental e de vanguarda: The Very Eye of Night (1955, 15 min.), da icônica diretora norte-americana vanguardista Maya Deren, cujas obras já apareceram em outras edições do evento; o primeiro clássico de ficção científica do cinema, Le Voyage dans la Lune (1902, 14 min.), do ilusionista Georges Méliès; e o expressionista Das Wolkenphänomen von Maloja (1924, 9 min,), de Arnold Fanck.
Produzido em diferentes momentos da história do cinema, os três filmes exploram o céu, o cosmos e o movimento por meio de imagens de forte apelo poético e sensorial. A seleção foi pensada como um percurso entre terra, espaço e corpo: inicia-se com as nuvens e fenômenos atmosféricos registrados por Fanck nos Alpes suíços; depois faz uma viagem fantástica à Lua imaginada por Méliès, até encontrar com os corpos suspensos e coreografados por Maya Deren em um espaço cósmico e abstrato.
Até dezembro, o Cine Audiovisão apresenta um cine-concerto por mês, sempre na Casa Lontra. O evento é idealizado por Beatriz Arcoverde, Thelmo Cristovam, Beatriz Baggio e Vitor Maciel, integrantes da equipe da Casa Lontra. E conta com a preciosa parceria do IOIC – Institute of Incoherent Cinema, instituição sediada em Zurique, na Suíça, que disponibiliza parte de seu acervo para as apresentações. A colaboração estabelece ainda uma ponte cultural entre Pernambuco e Zurique, conectando artistas locais a um importante acervo internacional dedicado ao cinema não convencional.
A curadoria dos filmes é realizada pela historiadora de arte Beatriz Arcoverde, ao lado dos músicos escolhidos. “Vejo e estudo os filmes mudos desde o início do projeto. Em seguida converso com os músicos e juntos vamos criando uma narrativa baseada em estilos diversos como realismo, fantasia, surrealismo, animação, animação experimental, cinema soviético… De certa forma, tudo era experimental no início da história do cinema”, revela Beatriz, acrescentando que em alguns casos os músicos já sabem o que querem.
“O I/O é um projeto que criei buscando experimentar a partir da imagem, e desde o princípio eu tenho conduzido meus experimentos dialogando com o cinema do início do século XX, com criadores como René Clair, Fernand Leger, Oskar Fischinger, Walter Ruttmann, dentre outros”, conta o artista sonoro, que diz ser um desejo antigo trabalhar com a película "Le Voyage dans la lune". “Além de ter um caráter inaugural, no que se refere ao suporte artístico, ele representa uma grande vontade da arte em, literalmente, inventar realidades e mundos”, esclarece Sales.
CINEMA E MÚSICA
Criado em 2023, o projeto já realizou 18 apresentações em três anos, reunindo dezenas de músicos da cena experimental pernambucana, promovendo encontros inéditos entre artistas e incentivando processos criativos que dificilmente encontrariam espaço em circuitos convencionais. O público já se deparou com formações instrumentais bastante incomuns como um duo de harpas criado para dialogar com as imagens exibidas. Já estiveram também no palco da Casa Lontra sinos, brinquedos quebrados e máquinas de costura.
Ao longo de suas edições, o Cine Audiovisão vem se consolidando como um espaço de experimentação artística, formação de público e valorização da música experimental produzida em Pernambuco.
As apresentações acontecem na Casa Lontra, espaço cultural independente que desde 2022 desenvolve uma programação continuada voltada à música, arte sonora, audiovisual e outras práticas interdisciplinares.
A nova temporada reafirma a proposta do projeto de estimular formas contemporâneas de escuta e ampliar as possibilidades de encontro entre som e imagem, oferecendo ao público experiências artísticas construídas em tempo real.
As sessões também contam com recursos de acessibilidade voltados ao público surdo. Antes de cada apresentação, é realizada uma breve introdução ao projeto em Libras, contextualizando a proposta artística e o funcionamento dos cine concertos. Além disso, um subwoofer posicionado em local estratégico permite que espectadores surdos acompanhem as vibrações produzidas pela música ao vivo, ampliando as possibilidades de fruição da experiência por meio da percepção tátil do som.
O Cine Audiovisão também difere de outros cineclubes pelo extremo preciosismo em relação à qualidade do arquivo cinematográfico, e à meticulosa calibragem do som, tornando a experiência a mais imersiva possível.
Mini Bio Cássio Sales
Cássio Sales é músico e produtor pernambucano. É coidealizador e produtor do Rumor – Ciclo de arte sonora e música experimental, projeto independente realizado em Recife entre 2015 e 2019 que articulou e reuniu importantes nomes da música experimental e da arte sonora do mundo, a exemplo de Ute Wassermann (Alemanha), Luigi Archentti (Suíça), Flávia Pinheiro (Brasil), Claudio Merlet (Chile), Lilian Campesato (Brasil), dentre outros. Também no campo da arte sonora, Cássio atuou como produtor musical do RASGO: Residência em Arte Sonora Gravatá-Olinda, projeto idealizado em parceria com Thelmo Cristovam e Beatriz Arcoverde responsável por residências imersivas e gravações com artistas sonoros como Thomas Rohrer, Marina Cyrino, Matthias Koole, André Damião e Rayra Costa entre 2022 e 2024. Cássio é baterista da banda instrumental Cosmo Grão, e contribuiu com diversos outros projetos e artistas a exemplo de Paes, Caio Lima, Julles e Dimitria. Cofundador e produtor d'O Criatório - Residência Criativa (Gravatá/PE), é o produtor musical por trás do Muuu Records e do Anum Selo, ambas iniciativas do Criatório Estúdio. No audiovisual, Cássio é co-roteirista e assina a coordenação e criação da trilha sonora de "Catimbau" (2015), filme dirigido por Lucas Caminha e premiado com melhor trilha sonora no Festival de Cinema de Triunfo. Assina a finalização de som de “Angustura" (2020), curta metragem dirigido pelo realizador Caio Sales, e é também o responsável pelo desenho de som e trilha sonora de "O ano da serpente" (2025), primeiro filme do artista plástico pernambucano Bruno Vilela.
Mini Bio Guilherme Assis
Guilherme Assis desenvolve um trabalho de produção musical guiado pelo encontro entre guitarras, violões, música eletrônica e percussões brasileiras. Sua pesquisa sonora transita entre texturas orgânicas e elementos eletrônicos, buscando novas possibilidades dentro da música brasileira contemporânea. Atualmente, está envolvido em projetos de artistas como Rachel Reis e Jáder, atuando em diferentes frentes de criação e direção musical. Também é fundador do Zelo Estúdio, espaço dedicado à produção, desenvolvimento artístico e experimentação sonora.
SERVIÇO:
Cine Audiovisão 4ª temporada
Quando: Sábado (4 de julho)
Onde: Casa Lontra (Rua Bispo Cardoso Ayres, 72 - Soledade, Recife)
Horário: 19h
Entrada gratuita