Memória

Casarões de engenhos fizeram história em Escada

Uma trajetória que vai do fornecimento de energia elétrica a um dos principais representantes da pintura moderna brasileira

TEXTO Cleide Alves

05 de Março de 2026

Casarão do Engenho Sapucaji, uma das joias do município de Escada (PE)

Casarão do Engenho Sapucaji, uma das joias do município de Escada (PE)

Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe

Uma sala no Museu do Turismo Rural de Escada relata aos visitantes o tempo dos barões no município, localizado na Zona da Mata Sul de Pernambuco. É uma história que começa em 1859, quando Dom Pedro II visitou a cidade e concedeu a Henrique Marques Lins (1800-1877) o título de Barão de Utinga. O barão, que virou Visconde, é o pai de Marcionilo da Silveira Lins, o fundador do Engenho Sapucaji, herança da aristocracia açucareira de Escada. O engenho já não mói, mas o casarão resiste e os herdeiros estão empenhados na arrumação de cada um dos cômodos, para preservar a história da família e da cidade.

O casarão do Engenho Sapucaji é de 1862, com paredes externas pintadas na cor amarela, porão alto, escadaria em pedra lioz (calcário português) e uma varanda de proporções generosas onde se contam 12 janelas olhando para o jardim. Marcionilo Lins morreu na França, onde estava em tratamento de saúde, mas a família continuou a fazer história. Luís Dias Lins, neto de Marcionilo e proprietário da Companhia Industrial Pirapama, uma fábrica de tecidos, desativada há cerca de 10 anos, foi o homem que levou energia elétrica para Escada e Vitória de Santo Antão, em 1924.

“Ele construiu uma hidrelétrica, aproveitando a queda d’água do riacho Pirapama, que passava pelo engenho do pai, para abastecer a fábrica”, relata Antonio Vicente Andrade Bezerra, neto do engenheiro industrial Luís Dias Lins. Como a tecelagem não consumia toda a energia gerada, os dois municípios recebiam o excedente. “Escada se desenvolveu graças a esse empreendimento, era a única indústria existente e tudo girava em torno dela”, recorda. “No passado, chegou a empregar quase 400 funcionários e foi a última fábrica têxtil de Pernambuco a fechar as portas”, diz o engenheiro civil Antonio Vicente.

Além da fábrica têxtil, Luís Dias Lins fundou o emblemático Hotel Boa Viagem, aquele que ficava próximo da Pracinha de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, e foi demolido em 2007. O cardápio oferecido no dia da inauguração do hotel, em 29 de outubro de 1954, e uma folha com a assinatura de participantes da festa, foram emoldurados e agora servem de decoração. Um dos nomes na lista é o de Antonio Vicente Andrade Bezerra, grafado com sua letra de criança de 7 anos de idade. A louça do hotel e da Companhia Industrial Pirapama ocupam diversos armários de madeira na casa.

No casarão de 15 quartos (contando com os dormitórios do porão, em desuso) e salas imensas, Antonio Vicente chama a atenção para um cadeirão com assento de palhinha, original da casa, que acompanha a história da família há várias gerações. O sofá aparece nas fotografias que registram Luís Dias Lins com filhos e netos, Carolina Andrade (irmã de Antonio Vicente) no dia do casamento dela, aos 18 anos, e outros momentos festivos. “Carolina tem uma foto no sofá quando fez 80 anos e eu espero, daqui a dois anos, quando fizer meus 80, ser fotografado no mesmo lugar, para continuar a história.”

Cícero Dias

Entre móveis originais e peças de antiquário, compradas para a nova arrumação da casa, há uma parede destinada ao primo ilustre, o pintor modernista Cícero dos Santos Dias (1907-2003). Nas fotos, se vê o artista em vários ambientes da casa de Sapucaji, cartões enviados pelo parente distante a Antonio Vicente e um desenho dedicado a ele, pelo primo famoso. Num dos postais, Cícero Dias escreve da Riviera Francesa: “Meu caro Vicente, estou na Côte d’Azur, à procura de melhor tempo, porém meu caro nada vale a pureza do ar de Boa Viagem.”

Em outra correspondência, ele diz: “Vicente meu caro primo. Esta para agradecer mais uma vez suas gentilezas. Sapucagy chegou-me em sua maior grandeza. As recordações foram enormes, porém nenhum homem deixa de viver do seu passado. Cuide bem destas palmeiras imperiais, elas estão bem ligadas à nós todos.” Pintor, desenhista e ilustrador, Cícero Dias nasceu em Escada, no casarão do Engenho Jundiá Grande, que está completamente arruinado, sem piso, sem teto, sem portas, sem janelas e tomado pelo mato.

Somente a capela permanece de pé e não é por milagre, mas por ter função. A igreja continua sendo usada pela comunidade próxima para atividades religiosas. O Engenho Jundiá Grande é da segunda metade do século 18, mas a casa, uma construção de estilo arquitetônico neoclássico, é do século 19. Tinha o maior pátio interno dos casarões de engenhos de Pernambuco, segundo o 1º secretário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambucano, Reinaldo Carneiro Leão.

Antonio Vicente informa que não pretende abrir o casarão de Sapucaji ao público. Visitantes podem contemplar a fachada e a fileira de palmeiras imperiais que levam à casa. A história dos engenhos e usinas que ainda existem ou que pereceram no município estão no Museu do Turismo Rural de Escada, a cerca de 60 quilômetros de distância do Recife. “No apogeu, Escada chegou a ter mais de 150 engenhos em atividade, hoje restam 72, sendo 27 com casarão, capela ou ruínas e os demais apenas com cana-de-açúcar”, diz Álex Antony, fundador do museu, inaugurado em abril de 2022.

O museu promove, todo segundo fim de semana de setembro, a Cavalgada do Turismo. É um passeio de aproximadamente quatro horas de duração, com saída do Engenho Sapucaji. O percurso passa pela cidade, segue na direção da zona rural e retorna ao ponto de partida. Para participar é preciso pagar uma taxa, que dá direito a uma camisa, café da manhã e almoço. Os interessados podem acessar o Instagram do centro cultural (@museudoturismo ou @turismoescada).

Leia mais informações sobre o museu no aplicativo da revista Continente.


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