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Memória

A vida, seus encontros e suas canções

Em março de 1972, há 50 anos, era lançado, no Brasil, o disco 'Clube da Esquina', assinado pelos músicos mineiros Milton Nascimento e Lô Borges

TEXTO Antonio Lira

24 de Março de 2022

O famoso encarte do vinil de 1972

O famoso encarte do vinil de 1972

Imagens Montagem a partir de reprodução do disco

[conteúdo exclusivo Continente Online]

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O ano era 1970. Milton Nascimento já se destacava como uma das principais vozes da música que estava se fazendo no Brasil, com o sucesso de Travessia (1967) e de três álbuns – dois lançados aqui e um nos Estados Unidos. Após um fervoroso debate estético, com direito a uma marcha realizada três anos antes, a guitarra elétrica tinha vencido e entrado de vez no escopo daquilo que viria a ser chamado de MPB. Com a prisão e o exílio dos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, os mutantes Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias se transformaram em uma banda de rock psicodélico com o lançamento do disco A divina comédia ou ando meio desligado (1970). A repressão da ditadura civil-militar imposta ao maior país da América do Sul havia atingido o seu ápice e, nos anos seguintes, golpes de estado avançariam na Bolívia (1971), no Chile (1973), no Uruguai (1973), no Peru (1975) e na Argentina (1976), onde se instaurou a Operação Condor, que instituiu a colaboração dos governos autoritários com o dos Estados Unidos. Em Londres, os garotos de Liverpool anunciavam o seu término, após uma carreira que mudou a maneira com que o mundo – e alguns brasileiros – pensavam o desenho de suas canções.

Um desses fãs brasileiros dos Beatles era Salomão Borges Filho, o Lô. Ele havia conhecido Milton tempos antes, quando tinha apenas 10 anos de idade e sua mãe lhe pedira para comprar pão para o café da tarde. Criança trelosa que era, descia correndo pelas escadas até ouvir um certo som. A voz e o violão de Milton encantaram o pequeno Lô como o “canto de uma sereia” e, ao chegar no quinto andar, tinha sido amor à primeira vista. Bituca, como Milton é chamado até hoje pelos amigos, atravessou Lô e, desse encontro, suas vidas se entrecruzaram para nunca mais se soltarem.

Apenas em 1970, no disco Milton, os fãs de Bituca puderam conhecer o talento de seu jovem amigo. Logo de cara, na primeira canção do disco, Lô escreve uma carta Para Lennon e McCartney, que abraça a influência roqueira, ao mesmo tempo em que denuncia a angústia de um artista da América do Sul, cujas referências culturais se tornam cada vez mais sufocadas pela presença da música de língua inglesa. O recrudescimento do autoritarismo, da violência e do silêncio da censura volta a aparecer na faixa quatro desse álbum, que traz também a contribuição de Lô – e de seu irmão Márcio Borges – na composição. Parte de seus versos dizem: “Noite chegou outra vez de novo na esquina / Os homens estão, todos se acham mortais / Dividem a noite, lua e até solidão / Neste clube, a gente sozinha se vê, pela última vez / À espera do dia, naquela calçada / Fugindo para outro lugar”. A canção receberia o nome Clube da Esquina.


Lô e Milton nos anos 1970. Foto: Reprodução

Sempre que Milton, um artista já consagrado, voltava a Belo Horizonte (MG) e perguntava para Maricota, mãe de Lô, onde estava seu filho, a resposta era a mesma: ele ficava o dia inteiro tocando violão no encontro das avenidas Divinópolis e Paraisópolis, que formam a esquina mais famosa do bairro de Santa Tereza, histórico reduto boêmio da capital mineira. “Clube da Esquina” era o escolhido pelos garotos para aquele local, como forma de satirizar as festas nos clubes frequentados pelas elites, que eles não tinham acesso por falta de dinheiro. É como se ali fosse o clube deles, o lugar onde se encontravam e, no caso de Lô, onde ficavam a noite inteira tocando e celebrando a vida seus encontros e suas canções.

Milton aparecia de vez em quando. Certa vez, ele decidiu estender a tocada na casa dos pais de Lô e começou a fazer um solo, quando seu amigo o acompanhou. Quando se deram conta, Maricota estava na sala, chorando de emoção, enquanto Márcio, irmão de Lô, escrevia a letra na hora. Clube da Esquina – ou Clube da Esquina nº1 – é o nome dessa canção. A celebração do clube e daqueles encontros aparecia, assim como tantas outras poesias do nosso cancioneiro, em especial dessa época, em consonância aos temores daquele frágil momento político brasileiro. Mas havia, já naquelas primeiras colaborações entre Milton e Lô, um anúncio de esperança. “Perto da noite estou/ O rumo encontro nas pedras encontro de vez/ Um grande país eu espero/ Espero do fundo da noite chegar.” Ouvir isso da voz poderosa, intensa e ao mesmo tempo vulnerável de Milton Nascimento não era qualquer coisa, como continua não sendo até hoje. Mas os fãs de sua música não imaginariam que o encontro entre esses garotos ainda teria muito o que render.

Em Milton (1970), Bituca já ousara ao convidar a banda de rock progressivo Som Imaginário – formada, entre outros nomes, por Wagner Tiso, Zé Rodrix e o grande Naná Vasconcelos – para acompanhá-lo nas gravações. A produção de seu sucessor viria, no entanto, acompanhada de um pedido ainda mais inusitado, que, inicialmente, causou resistência na gravadora carioca. Seu quinto álbum de estúdio se chamaria Clube da Esquina e seria um álbum dele em conjunto com Lô, para celebrar a parceria dos dois e aquela esquina na qual Lô passara tantas horas tocando violão.

A proposta para que ele se mudasse o quanto antes para o Rio de Janeiro desagradou Maricota de início, mas a possibilidade de estrear gravando um disco com Milton Nascimento já era, à época, irrecusável. Lô foi morar com Bituca numa casa em Marazul, no litoral de Niterói. Levou junto Beto Guedes, com quem costumava tocar músicas dos Beatles em BH. A tranquilidade de morar na beira-mar tornou possível que a criatividade dos jovens compositores aflorasse sem que, em nenhum momento, eles se sentissem obrigação de compor. No estúdio carioca, Milton, Lô e Beto se uniram a Fernando Brandt, Alaíde Costa, Toninho Horta, Wagner Tiso e outros para gravar em apenas dois canais. As canções da dupla tomaram forma nos arranjos colaborativos dos músicos, todos “talentosíssimos” nas palavras de Lô. Nascia, assim, um dos mais importantes discos da história do Brasil, que colocaria a arte de Minas Gerais no mapa da MPB e mudaria completamente as possibilidades e as potências infindas das misturas que sempre caracterizaram a nossa canção.

Em março de 1972, há 50 anos, era lançado no Brasil o disco Clube da Esquina, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges. A icônica capa, com a fotografia dos jovens Tonho e Cacau, um branco, outro negro, já foi referenciada diversas vezes como “a cara do Brasil”. Em 2012, após uma reportagem do Estado de Minas recriar a foto de capa 40 anos depois do lançamento do disco, Tonho e Cacau entraram na justiça contra Milton, Lô e a gravadora EMI. Alegaram que nunca sequer souberam que suas imagens estavam na capa de um disco e que poderiam ter recebido algum dinheiro para ajudar suas famílias. Ainda hoje, porém, há quem insiste em acreditar que aquela é uma foto de Milton e Lô quando crianças. De lá pra cá, muitas interpretações surgiram em torno da capa e sua capacidade de falar tanto com tão pouco. Os enigmas que surgem de sua contemplação são parte fundamental da mística que se criou em torno do disco. Aqueles dois meninos despretensiosos à beira da estrada falam sobre amizade, sobre as encruzilhadas que tornaram possíveis esses encontros e sobre viagens de ventania.

Esses encontros e travessias são temas recorrentes na discografia de Milton e, por extensão, nessa música produzida por Minas Gerais com seu imaginário de trens, viagens e exploração mineral que vem desde a época da corrida do ouro, no século XVIII. Nesse disco, não seria diferente e, já no início, em Tudo que você podia ser, a voz de Milton se expande como o sol e a chuva que fazem parte da estrada, que é a vida, do protagonista. Composta pelos irmãos Borges, a letra fala de um menino que sonhava em viajar pelo mundo e que hoje encontra-se com medo das dificuldades encontradas pelo caminho.

Em Cais, Milton inventa a solidão e o mar que o faz sonhador, como se a angustia e a vontade de viajar se traduzissem na própria solidão dos meninos que um dia sonharam em fazer uma música que chegasse ao mundo inteiro, mas ainda cultivasse a leveza dos momentos que eles passaram juntos. Uma música que falasse sobre as aventuras que eles viviam no Clube da Esquina, mas que estivesse em sintonia com a juventude do mundo inteiro. E, talvez, eles tenham conseguido.

Na resenha escrita pela revista norte-americana Pitchfork, sobre o Clube da Esquina, o crítico Andy Beta afirma que, mesmo que o ouvinte não entenda uma palavra de português, consegue sentir o sol na cabeça em Trem azul traduzido nas melodias e timbres apresentados no disco. Da mesma forma, em Trem de doido, a noite azul e a estrada se fazem presentes nos riffs rasgados com a distorção fuzz e as harmonias beatlenianas presentes no refrão. Isso se confirma se assistirmos aos vídeos de Youtubers norte-americanos que, mesmo sem compreender o nosso idioma, se emocionam com canções como Um girassol da cor de seu cabelo ou mesmo a reação empolgada de Pharell Williams e Kanye West, no desfile da Louis Vuitton ano passado, ao ouvir Tudo que você podia ser. E essa também é a canção brasileira favorita do músico Jason Mraz, que fez uma versão dela, em português, nos shows que fez no Brasil em 2011.

Entre as idas e vindas que o disco nos proporciona, há momentos em que a influência do quarteto de Liverpool aparece com mais força, como em Paisagem da janela e Um girassol da cor de seu cabelo, flertes com a Nueva cancion latinoamericana em San vicente – que fala de uma cidade imaginária que sofre um golpe de Estado – e até mesmo o samba encontra seu lugar em Me deixe em paz, clássico de Monsueto Menezes que ganha uma versão belíssima na voz de Alaíde Costa e do próprio Milton.

Mais do que pensar em como misturar as influências locais com a música internacional, os amigos Milton e Lô passeiam pela toada e pela música folk – seja aquela em português, inglês ou espanhol –, como uma forma de entender o que há de universal nas cantigas cantadas nas beiras das estradas, nos silêncios que a noite deixa e no vigor do sol que nasce todo dia e ilumina os caminhos a se seguir. Somos o tempo inteiro convidados a mergulhar nesses universos, a sentir a brisa batendo no rosto, os cheiros e sabores que se descobrem em novas aventuras. Como num passeio musical pela topografia das serras mineiras que, naquele momento, parecia iluminar os novos caminhos pelos quais a música brasileira poderia caminhar.

São muitas as experiências que as 21 faixas do álbum despertaram e continuam despertando naqueles que tiveram a oportunidade de conhecer e (re)conhecer a música de Milton e Lô ao longo dessas cinco décadas (aliás, Milton faz 80 anos em outubro deste ano). Mas o que amálgama essas referências, e é a mesma coisa que consola o viajante em meio aos temores que ele poderá encontrar na estrada, não é só a amizade, mas a aventura e a possibilidade de abrir seu coração e deixar-se afetar, mudando a sua própria alquimia pelos encontros e travessias que a vida proporciona.

“Se você quiser eu danço com você/ No pó da estrada, pó, poeira, ventania/ Se você soltar o pé na estrada, pó, poeira/ Eu danço com você o que você dançar/ Se você deixar o sol bater nos seus cabelos verdes/ Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo/ Sol, semente, madrugada/ Eu vivo em qualquer parte de seu coração”, canta Milton em Nuvem cigana, um dos pontos altos da psicodelia do disco.

Ouvir o Clube da Esquina é também lembrar que toda forma de amor vale a pena, que toda travessia pode trazer uma transformação, e que em toda nova esquina pode haver, do outro lado da rua, uma nova amizade. E, é claro que, na estrada, o sol e a chuva podem trazer inúmeras dificuldades, mas, para quem deixa o coração bater sem medo, para quem sabe se rodear de companheiros que possam dividir os desafios dessa jornada, a experiência pode ser bastante proveitosa.

No início dos anos 1970, Milton já era um gigante da música brasileira, mas escolheu fazer um disco diferente, abrindo-se às influências de seus amigos do Clube da Esquina, até então músicos desconhecidos do grande público, mas que se tornaram referências que guiam até hoje os rumos da nossa canção. Para nossa sorte, essas amizades e a música feita através delas permanecem. E se, 50 anos atrás, no auge da ditadura militar, foi possível que um grupo de jovens abrissem tantas possibilidades com seus sonhos, suas utopias e suas canções, isso tudo talvez signifique que seja possível esperar o nascer do sol, que há de brilhar mais uma vez sobre estas terras brasileiras.


Beto Guedes, Milton Nascimento e Lô Borges em Niterói (RJ).
Foto: Arquivo Clube da Esquina

ANTONIO LIRA é jornalista, músico, pesquisador e mestre em Comunicação pela UFPE.

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