Ilustração José Cláudio
Antigamente eu era mais firme nas preferências em relação às frutas e outras coisas de comer. Embirrava com pinha e figo: não havia quem me fizesse comer. Décadas de 1930 e 1940. Éramos íntegros, intactos. Não nos abalamos nem quando, no meio da tarde, dia de semana, a banda do maestro Zé Marinho irrompeu em plena Rua do Comércio com a faixa de lado a outro “Viva o Brasil morra o Eixo” e submarinos alemães foram avistados na costa de Sirinhaém. Sofrimento mesmo só quando desapareceram as mantas de carne de charque, que ficavam penduradas num cavalete nas portas das vendas, e as barricas de bacalhau. O mais dava para tirar de letra. Eu gostava mais de bacalhau de barrica, bom de comer assado na brasa. Carne de charque, aqui no Recife, só se come agora picada ou desfiada. Faz tempo não vejo um belo pedaço de charque inteiro. Só às vezes em feijoada ou cozido.
Prefiro a feijoada caseira, de feijão mulatinho, jerimum, quiabo bem verdinho, chuchu e, claro, pé de porco, orelha e rabo. Já que falamos de porco, se houver por perto um porquinho assado no rolete, é o céu.
As comidas devem estar quentes.
Também é bom o osso do patinho, com feijão mulatinho ou preto. Naturalmente nos referimos a comida bem feita, porque malfeita, toda comida é ruim, a começar pela escolha do material e até como a comida é servida. Costelinhas de cabrito guisadas, por exemplo, o melhor lugar de comer atualmente no Recife é o mais simples e barato. Só não posso dizer onde. Assim ocorre com outras excelências, como capão com xerém, perua guisada ou de cabidela, que vem com o cachinho de ovos, pato, guiné, e buchada com a cabeça do bode inteira para abrir na mesa. Sou arriado por miolo de bode.
Ultimamente temos instituído um dia por semana para ostra crua. Excelentes. Mandam trazer em casa, com faca própria para abri-las e um vídeo ensinando como fazer. Era uma aspiração antiga minha. Um pinguinho de limão, outro de pimenta. Quem gosta, azeite e vinagre. Sempre gostei de marisco e unha-de-velho. Na única viagem que meu pai fez na vida, trouxe de Maceió uma lata de sururu. Já vendiam lá e embalavam em lata fechada como os produtos industrializados, uma lata de mais de palmo de altura por pouco menos de um palmo de diâmetro, lisa e sem rótulo.
Minha prima Jacira comprou uma casa encontrada num anúncio sui generis construída num terreno de maré em que se podia catar marisco, coisa que não sei se já era ou virou sua terapia. E me tem trazido até fritada, feita como pouca gente sabe e como era feita lá em casa, enxuta, tostadinha em cima. Às vezes chamam essa fritada, aqui no Recife, de omelete. Aliás, a que Jacira trouxe era de siri, que uma mulher que ela conhece cata sem deixar pedaço de casca. A felicidade de Jacira depende do tempo em que fica atolada na lama do mangue até o meio da canela. Ela deve ter parte com caranguejo.
Insubstituível na lista de maravilhas do mangue: caranguejo. Caranguejo uçá. Que pena tenho de não saber tupi.
Papai foi criado nos mangues do Engenho Taveira, no Cabo de Santo Agostinho. De mangue sabia tudo. Na mesa de lá de casa não faltava crustáceo. Mamãe também vivia perto de mar, Sirinhaém, Camela. O crustáceo preferido de meu pai era o siri. Eu também talvez o siga, porque siri tem pedras (duas), além de as fêmeas terem o coral, uma das obras-primas da criação em matéria de sabores. Fêmeas de caranguejo e aratu também têm coral. Mamãe, lembro que o peixe preferido era tainha, principalmente umas assadas no jirau que vendiam na feira. A última vez que vi esse tipo de tainha foi na feira do Cabo. Há muitos anos. Geralmente, chegando em casa, era cozinhada no leite de coco. Mas mesmo do jeito que vinha da feira enfiado no espeto de folha de coqueiro onde era assado, podia ser consumido.
De rio, um peixe que eu adorava era muçu. Também era vendido como a tainha e em casa feito de coco. Tudo que era peixe era vendido assado, os maiores em postas. Não havia refrigeração. Papai gostava de xaréu. Tem um belo caderno de Carybé sobre a pesca do xaréu no mar da Bahia. Eu sempre gostava de tudo, até piaba miúda seca no sol para comer de punhado. Também se vendia na feira os saborosíssimos lagostins, preferido às lagostas.
Não faz parte da minha cultura pessoal comer tanajura, embora não me faltasse vontade. Era proibido terminantemente. Na loja de meu pai vendíamos arsênico e verde-de-formiga, venenos fortíssimos, para folear nos formigueiros. O medo de minha mãe era que comêssemos alguma tanajura envenenada, apesar de nunca termos tido notícias de isso ter acontecido. Alguns comiam somente a bolota, cai, cai tanajura/tua bunda tem gordura, e outros só arrancavam a cabeça por causa dos dentes e comiam o resto. Assado ou cru. Uma vez vi uma carroça inteira em Caruaru, o homem gritando: “Tanajura!” Pensei até estivesse chamando alguém. Era tanajura vendida em saco de papel que ele enchia na hora feito pipoca. Outra ocasião vi uma fila de sacos desses de 60 kg na feira de Caruaru. Como estava com pressa passei por esses sacos sem entender que frutinha era aquela, castanho-escura e com uns talinhos. Eu estava indo comprar massa de mandioca, com medo de perder o ônibus. Na volta pude olhar com mais vagar. Continuei sem entender e perguntei que fruta era aquela. “Tanajura”, alguém informou. Deve ter sido nesse mesmo dia, vi uma fileira de tejúas abertas, para mostrar que estavam cheias de ovos, graúdos, bem amarelos, quase do tamanho de ovos de galinha, em cima de caixotes de sabão vazios. Mais de dez. Isso faltou botar n’A feira de Caruaru. Eu tinha um trabalho de pedra em Fazenda Nova e toda semana fazia esse percurso.
Eu ia dizer principalmente coisas de que gosto, “Sou arriado”, mas terminei quase não dizendo nada. Para compensar, quero dizer a Breno, meu colega de infância, duas frutas que hoje adoro: pinha e figo.
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