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"Viemos roubar os vossos maridos" enfrenta o preconceito contra a mulher brasileira

Escrita e produzida por Giulia Pinheiro, a montagem é baseada num fato ocorrido em 2003, quando esposas portuguesas expulsaram brasileiras sob acusação de prostituição e adultério

TEXTO Álvaro Filho

02 de Outubro de 2026

De biquíni com as cores do Brasil, atriz Tati Pasquali representa as mulheres que provocaram a ira das esposas portuguesas, representada por Camila Cerqueira

De biquíni com as cores do Brasil, atriz Tati Pasquali representa as mulheres que provocaram a ira das esposas portuguesas, representada por Camila Cerqueira

Foto Alípio Padilha/Divulgação

Conservadora e católica, a cidade de Bragança, a 500 quilômetros de Lisboa e a 15 da fronteira com a Espanha, foi palco em 2003 de um “incidente diplomático” entre Portugal e Brasil. Incomodadas com a presença massiva de brasileiras e o interesse excessivo dos maridos portugueses, as esposas se uniram para expulsar as visitantes indesejadas.

O fato conhecido como "As Mães de Bragança" irradiou desde a pequena localidade ao norte de Portugal, na região de Trás-os-Montes, a ideia ainda vigente no país de que as brasileiras vão a Portugal “roubar” os maridos das portuguesas. O mote serviu de inspiração à peça Viemos roubar os vossos maridos, uma releitura do fato histórico, agora através do olhar brasileiro.

A dramaturga Maria Giulia sentiu na pele o preconceito de ser uma mulher brasileira solteira. Foto: Raquel Pimentel/Divulgação

Escrita e produzida pela dramaturga brasileira Maria Giulia Pinheiro, a produção estreou em 2025 e, após uma pausa, prepara-se para voltar aos palcos portugueses. Também jornalista e documentarista, Maria Giulia escalou reportagens de telejornais sobre o caso e entrevistas em vídeo para contracenar ao lado das atrizes Tati Pasquali e Camila Serqueira.

O resultado é uma peça metade roubada à ficção, metade ao documental, que, apesar do título provocativo, não busca confrontar os argumentos das mulheres brasileiras e portuguesas, e sim, convidar à reflexão sobre como, por trás de um acontecimento motivado por uma ação e reação feminina, está a mão do patriarcado.

Hoje com 36 anos, Maria Giulia nunca tinha ouvido falar nas "Mães de Bragança" quando trocou São Paulo por Portugal em 2019. “Confesso que à época conhecia pouco da cultura e história portuguesa”, diz a dramaturga. A “apresentação” ao fato histórico acabou por ser empírica, através do curioso interesse constante das portuguesas sobre o seu estado civil.

“Sempre me perguntavam: a menina é casada?”, conta. Quando respondia ter vindo sozinha, a resposta não era outra: “Ah, então a menina veio arrumar um marido!”. Maria Giulia não entendia o motivo da provocação até comentar o fato com um amigo português. “Aí, ele me disse: claro que é por causa das 'Mães de Bragança'”.

A partir daí, a dramaturga ficou obcecada pelo assunto. Começou a pesquisar através do farto noticiário sobre o acontecimento, que levou inclusive Portugal pela primeira vez a estampar a capa da revista Times, em 2003, sob o título Europe’s new red light district, uma menção à atuação das brasileiras no negócio da prostituição.

Uma dessas brasileiras, Eliene, ainda vive em Bragança. Maria Giulia viajou até a cidade para gravar uma entrevista especialmente para a peça. “É uma testemunha importante, que conta a história porque a viveu, através do nosso ponto de vista”, reforça Maria Giulia.

As reportagens reproduzidas em palco ainda dão conta que a expulsão das trabalhadoras brasileiras provocou uma quebra econômica no comércio de Bragança, principalmente no ramo da estética e do vestuário. E não resolveu a questão, pois os maridos portugueses seguiram em busca de companhia fora de casa, agora cruzando a fronteira da vizinha Espanha.

Os maridos continuarem a trair as esposas com as espanholas, mas agora sem ofender as portuguesas, para Maria Giulia, são ecos do colonialismo em Portugal. “Além de um reflexo do racismo e machismo português”, ressalta. O texto ganha novo fôlego com a subida das tensões entre portugueses e brasileiros no país, provocado pela onda xenófoba na Europa.

Tensões levadas ao palco logo no início da peça, quando os casais presentes são separados fisicamente no teatro e os companheiros, namorados e maridos são “roubados” das acompanhantes, convidados a sentarem nas primeiras fileiras. A estratégia cênica visa provocar um desconforto não só através do conteúdo, mas também na forma de encenação.

Desconforto encarnado na atuação da protagonista Tati Pasquali. Vestida num biquíni verde-amarelo, ao melhor estilo “teste de fidelidade”, a personagem constantemente interage com os “maridos” nas primeiras fileiras, emulando o estereótipo sedutor e vulgar das brasileiras no imaginário português.

O contraponto fica a cargo da atuação da atriz Camila Cerqueira, na pele de uma conservadora mulher portuguesa do interior do norte de Portugal, que aos poucos vai se despindo do papel até uma revelação surpreendente que faz o ponto de viragem na peça.

A PALAVRA MAIS BONITA
No início da sua trajetória portuguesa, quando questionada se veio a Portugal para “arrumar um marido”, Maria Giulia respondia inocentemente que “não”, que tinha vindo “para trabalhar com o teatro”. E assim o fez não só com Viemos roubar vossos maridos, mas também com a peça que a trouxe ao país, o monólogo A palavra mais bonita.

Escrita por inspirações e em momentos distintos, os dois textos acabam se cruzando na intersecção do colonialismo. “Um ano antes de morrer, meu pai perdeu a fala. A palavra mais bonita é justamente a tentativa de recuperar a última palavra não dita por ele. E a partir dessa memória, refletir sobre esse pai colonizador que morre, mas deixa a sua linguagem”, conta.

Assim sendo, a peça foi pensada para circular entre os públicos dos países de língua portuguesa. A palavra mais bonita passou então por São Paulo, Lisboa, Moçambique e Galícia, que apesar de ser na Espanha, é de onde vem o idioma português. Angola e São Tomé e Príncipe são as próximas escalas.

Essa pegada mais reflexiva e de crítica social do trabalho de Maria Giulia refletida tanto em Vamos roubar os vossos maridos e A palavra mais bonita estende-se na formação contínua de atores, atrizes e dramaturgos no Núcleo de Dramaturgia Feminista, organizado em colaboração com o setor de cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

As atividades do núcleo começaram ainda em São Paulo, em 2016, e as experiências resultaram em dois livros assinados por Maria Giulia Pinheiro, Mentiras e outros pequenos furtos: um inventário da verdade e Epistolário: cartas para a desobediência, a beleza e o fim, publicados em 2021 e 2022, pela Editora Urutau, disponíveis também no Brasil.

Eliene é uma testemunha viva do episódio das Mães de Bragança. Ela ainda mora na cidade dá um depoimento em dos vídeos da montagem

 

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