Indicações

O agente secreto entra para a história do cinema

Indicado em quatro categorias, filme de Kleber Mendonça Filho não foi contemplado na 98ª edição do Oscar, mas vem conquistando prêmios e bilheterias, enquanto a carreira internacional do diretor ganha novo impulso

TEXTO Débora Nascimento

17 de Março de 2026

O ator Wagner Moura na cerimônia do Oscar, em exibição na tela do Cinema São Luiz

O ator Wagner Moura na cerimônia do Oscar, em exibição na tela do Cinema São Luiz

Foto Leopoldo Conrado Nunes/Divulgação

Gritos e aplausos eram proferidos em uníssono pela multidão diante do telão disposto em frente ao Cinema São Luiz. Na Rua da Aurora, bairro da Boa Vista, no centro do Recife, estava armada a festa “Pernambuco no Oscar”, evento realizado pelo governo do estado de Pernambuco, no domingo, 15 de março, para celebrar a participação de O agente secreto, filme de Kleber Mendonça Filho, na 98ª cerimônia do Oscar, no Dolby Theatre, em Los Angeles.

O momento pedia muita empolgação. Era a primeira indicação de um filme pernambucano à mais famosa premiação do cinema mundial. E não somente isso, às principais categorias do Academy Awards: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e a inédita Melhor Elenco.

No entanto, apesar da torcida, as previsões de veículos internacionais como The GuardianNew YorkerIndiewire Variety já indicavam que havia pouca chance de o longa-metragem sagrar-se campeão em qualquer uma das categorias. O prognóstico divulgado por esses mesmos veículos adicionou um adendo: mesmo não sendo favorito em categorias como Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro, o brasileiro era o que merecia vencer.

“Vencer”. Essa não deveria ser exatamente a palavra utilizada por quem é escolhido para receber a famosa estatueta dourada. Afinal, não é um certame esportivo, onde a vitória de um implica relegar o restante ao rótulo de "perdedor”. O fato é que está valendo o clichê: ser escolhido como um dos indicados já configura-se uma premiação em si. Afinal, anualmente, são lançados no mundo entre 2.500 e 10 mil filmes. O Brasil mantém uma média entre 90 e 100 longas-metragens a cada ano.

Dentre todos esses títulos, para estar apto à candidatura ao Oscar, é preciso ser escolhido como o representante do seu país e, depois, ser novamente selecionado em uma lista com mais de 190 candidatos. Portanto, O agente secreto conseguiu e, mais do que isso, foi escolhido para as duas principais categorias, Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. A primeira vez que isso aconteceu foi em 2020 com Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho. E segunda vez com o brasileiro Ainda estou aqui, em 2025.

Agora imagine ser o terceiro filme, em 98 anos de Oscar, a conseguir essa proeza. Mas O agente secreto não estava sozinho nessa façanha. Neste 2026, Valor sentimental também foi indicado nessas duas categorias. E foi exatamente esse filme norueguês que desbancou o brasileiro em Melhor Filme Internacional. No domingo (15), no momento do anúncio do ganhador do Oscar, a torcida em frente ao Cinema São Luiz decepcionou-se. Afinal, em tese, essa categoria seria a mais “fácil” de levar. 

Em seu discurso de agradecimento, Joachim Trier, diretor de Valor sentimental, fez questão de afirmar que essa é a primeira vez que um filme norueguês ganha um Oscar. Nascido no país que ladeia a Suécia, terra de Ingmar Bergman, o diretor fez um filme profundo que trata da relação entre uma filha e um pai negligente. A partir desse enredo, o roteiro é repleto de diálogos e cenas bem ao estilo do mestre sueco.

Os dois principais concorrentes a Melhor Filme Internacional, Valor sentimental O agente secreto, em maio do ano passado, não saíram do Festival de Cannes com a Palma de Ouro, mas conquistaram honrarias importantes – o primeiro recebeu o Grande Prêmio e Melhor Ator Coadjuvante para Stellan Skarsgard, e o segundo, os de Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura).

Como já vem acontecendo, há algumas décadas, sair de mãos cheias de festivais internacionais renomados contribui para que um filme seja escolhido como o representante de seu país e ainda tornar-se um forte candidato a uma indicação ao Oscar. Aconteceu isso com esses dois filmes. Mesmo seguindo esse mesmo percurso, o vencedor da Palma de Ouro, Foi apenas um acidente, do iraniano Jafar Panahi, perdeu o favoritismo, durante o período de campanha do Oscar, e Valor sentimental beneficiou-se.

Com O agente secreto saindo de mãos vazias do Oscar, os fãs do filme apressaram-se em atribuir a “derrota” a alguma falcatrua da votação da Academia – que pode ser bem complexa, especialmente no que se refere à principal categoria, Melhor Filme, pois baseia-se em um ranking de preferência de cada votante. Mas, até agora, na história do Oscar, ninguém soube de sabotagens ou corrupção (apesar do marketing e do lobby dos estúdios), como aconteceu anteriormente com o Globo de Ouro, que, nos últimos anos, resgatou sua reputação.

Embora esteja hoje mais diversificado, com mais estrangeiros e mulheres votando (antes era formado em sua maioria por homens brancos norte-americanos), o Oscar ainda é uma premiação da indústria cinematográfica estadunidense e que, portanto, vai priorizar seus filmes falados em inglês. Logo, o esperado é que eles premiem seus próprios filmes. Sendo assim, os principais contemplados foram títulos produzidos no país, como Uma batalha após a outra Pecadores, mesmo que essas produções sejam realizadas por cineastas de estilo próprio, que não seguem à risca a cartilha do cinema comercial.

Apesar de O agente secreto não ter recebido o Oscar de Melhor Filme, essa estatueta ficou com Paul Thomas Anderson, um autor que, surpreendentemente, mesmo após ter feito filmes como Boogie nights, Magnólia, Sangue Negro, ainda não havia recebido um Oscar sequer e, no domingo (15), enfim, após 14 indicações ao longo de sua carreira, conquistou seis categorias (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Montagem, Ator Coadjuvante e Elenco). Houve, então, um clima de reparação ao diretor de 55 anos, mas talvez não com o seu melhor filme. 

Na categoria Melhor Elenco, Uma batalha após a outra recebeu a estatueta merecidamente, se levarmos em consideração o elenco diversificado, que, além de incluir as gratas surpresas Chase Infiniti e Teyana Taylor, trazia três atores já oscarizados, Leonardo DiCaprio, Benicio del Toro e Sean Penn – que venceu Melhor Ator Coadjuvante tanto no Actors Awards quanto no Oscar 2026, deixando Stellan Skarsgård (vencedor do Globo de Ouro na categoria) visivelmente desapontado.

Wagner Moura, por outro lado, entrou no Dolby Theatre, em Los Angeles, com a tranquilidade de saber que sua vitória seria uma grande surpresa, pois o favoritismo estava dividido entre Timothee Chalamet e Michael B. Jordan – este já tinha conquistado o Actors Awards (Antigo SAG Awards), prêmio do sindicato dos atores. 

Em 2007, Wagner havia se tornado um fenômeno de popularidade com a interpretação do Capitão Nascimento, protagonista de Tropa de Elite, de José Padilha, e rapidamente se transformou em ídolo da extrema direita brasileira. Mas o ator baiano logo tratou de desfazer essa imagem com opiniões progressistas na mídia e, depois, com a direção do filme Marighella (2019). Por isso, muitos eleitores da extrema direita brasileira estão comemorando nas redes sociais o fato de o artista, o filme em que atua e o seu diretor não terem recebido o Oscar. 

Paul Thomas Anderson levou trinta anos, dez filmes e 14 indicações para conquistar o seu primeiro Oscar. Foi injusto tentarem fazer chacota de um brasileiro, presente à festa da mais poderosa indústria cinematográfica do mundo, porque não conquistou uma estatueta dourada em sua primeira participação como indicado.

Mesmo saindo de mãos vazias do Oscar, O agente secreto, com mais de 70 prêmios, pode considerar-se vitorioso. Afinal, é o filme brasileiro mais visto de 2025/2026. Levou 2,5 milhões de pessoas ao cinema, apenas no Brasil, sem contar com o público do exterior. Arrecadou mais de R$ 94 milhões em todo o mundo. Virou um fenômeno cultural e já entrou para a história como um dos maiores filmes do cinema brasileiro.

DÉBORA NASCIMENTO, editora-assistente das revistas Continente e Pernambuco

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