Espetáculo e oficina sobre infância, tecnologia e sonhos
Dramaturgia do Grupo Artilharia Cênica explora o vício de crianças em telas e o impacto sobre o sono, os sonhos e a família, com apresentações, no domingo (31), no Parque da Macaxeira, e no dia 2 de junho, no Sesc Ler, em São Lourenço da Mata
27 de Maio de 2026
Grupo mineiro Artilharia Cênica vem ao Recife pela primeira vez
Foto Igor Cerqueira/Divulgação
Crianças que trocam o sono pelas telas, famílias atravessadas pelo excesso de tecnologia e fantasias cada vez mais raras nas brincadeiras. E se, além de tudo isso, os pequenos simplesmente parassem de sonhar? Esses temas profundamente atuais ganham uma abordagem poética, lúdica e inquietante no espetáculo teatral HA!, do coletivo mineiro Grupo Artilharia Cênica, que chega ao Recife integrando a programação do Palco Giratório, no domingo (31), no Parque da Macaxeira, e no dia 2 de junho no Sesc Ler, em São Lourenço da Mata - ambos com entrada gratuita.
Livremente inspirada no conto “O Homem da Areia”, do escritor alemão E.T.A. Hoffmann, e nos estudos do neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, especialmente no livro Sonho Manifesto, a dramaturgia investiga os impactos do vício infantil em telas sobre o sono, os sonhos e as relações familiares. Em turnê por 34 cidades de 16 estados brasileiros, o grupo se apresenta pela primeira vez na capital pernambucana.
Misturando dança, teatro e bonecos, a partir de um roteiro simples e de um cenário carregado de fantasia, a peça acompanha o cotidiano de uma criança — representada por um boneco — imersa no uso abusivo de celulares e privada de descanso. Exausta, antes de ir à escola, ela mergulha em um sono profundo e passa a atravessar um universo povoado por seres de areia, labirintos de olhos e figuras meio humanas, meio máquina. Ao longo de 40 minutos, o espetáculo constrói, com leveza e humor, uma crítica à robotização dos sentimentos e dos corpos na vida contemporânea.
“Queríamos um espetáculo que nos levasse ao público mais amplo possível, e com este trabalho vimos uma oportunidade. Ao mesmo tempo em que trabalha questões urgentes e sérias, por meio de textos e ideias robustas, a peça mobiliza o lúdico, muito atraente para crianças. Queremos que ela ressoe como as tradicionais fábulas, deixando uma mensagem impactante, mas de forma sensível”, afirma Bruno Maracia, ator e fundador do grupo.
Além das apresentações, o Artilharia Cênica realiza ainda a oficina “Brinquedos-sucata de formas animadas”, voltada para crianças, no dia 1° de junho. A atividade propõe transformar materiais descartados em personagens e experiências teatrais, aproximando os participantes de linguagens como teatro de bonecos, sombras e miniaturas.
Com papelão, sacos plásticos, embalagens descartadas, tampinhas e gravetos, as crianças vão experimentar o ofício teatral, em muitas de suas linguagens, como os teatros de bonecos, de miniaturas, de sombras, entre outras. “Queremos que após o impacto da peça, as crianças sintam que o mundo do teatro lhes é íntimo, bastando aguçar a imaginação e pôr a mão na massa. Além de construir públicos, buscamos estimular o interesse em também de se fazer teatro”, afirma Igor Fonseca, integrante do grupo e idealizador da atividade.
ESPETÁCULO
Esta montagem surgiu dentro do projeto Cena 3x4, que reúne coletivos de Belo Horizonte e região metropolitana para investigar elementos da cena, desde a dramaturgia até a direção. A montagem significou uma guinada na trajetória do grupo. A direção é de Eros P Galvão, que teve contato com o grupo no Cena 3x4. “O Grupo Artilharia Cênica já vinha com um desejo muito claro de trabalhar a temática da robótica, e, curiosamente, tinham também o interesse de mergulhar no teatro de bonecos. Pensamos a linguagem juntos, em um encontro mágico, de investigação e construção coletiva, que se imprimiu no espetáculo”, afirma a diretora, que tem formação e carreira internacionais, com trabalhos que percorreram Europa, Ásia, e América do Sul.
O Grupo Artilharia Cênica foi criado em 2018 pelos atores Bruno Maracia, Igor Fonseca, Gefter Rayan e Raniele Barbosa, um time plural, com formação em dança, teatro, música, letras, antropologia e neurociências. Explorando diversas linguagens cênicas, como Dança, Teatro Físico, Teatro Épico e Música, o grupo entrelaça manifestações verbais, gestuais, plástico-visuais, sonoras e musicais. O grupo já se apresentou em teatros belo-horizontinos e em cidades do interior de Minas Gerais, além das temporadas no Instituto Itaú Cultural na cidade de São Paulo e no interior do estado. Com o espetáculo HA!, está em sua primeira turnê nacional, viabilizada pela Temporada 2026 do Palco Giratório, maior projeto de circulação de artes cênicas do país, promovido pelo Sesc. Em 2027, a peça irá circular mais uma vez, pelas regiões Sul, Sudeste e Norte, com patrocínio da Caixa Cultural.
Questões sociais contemporâneas pautam, desde o início, o trabalho do grupo. Com o espetáculo HA!, inicia-se a Trilogia dos Sonhos, que propõe reflexões sobre a qualidade do sono, a importância dos sonhos na constituição do universo simbólico das pessoas e nos riscos que as sociedades correm ao extinguir o tempo necessário para dormir. “O que acontece quando perdemos a capacidade de sonhar?” é a pergunta que move o trabalho em curso, que já tem outra peça em construção. A nova produção conta com direção de Paulo André, integrante do Grupo Galpão, companhia mineira de teatro, entre as mais celebradas do país. Planejado para circular em 2027, o trabalho ambiciona expandir a repercussão do primeiro, com mais investimento e nova circulação nacional.