Indicações

É preciso imaginar Beckett feliz

Uma montagem da carioca Armazém Companhia de Teatro, a peça Dias felizes dividiu o público entre os que admiraram a montagem e aqueles que a considerou "indigesta"

TEXTO Mario Helio

05 de Abril de 2026

Foto Lina Sumizono/Festival de Curitiba/Divulgação

Ontem, no Guairinha, em Curitiba, a peça Dias felizes, deve ter cumprido o que se espera sempre que se apresente algo de Samuel Beckett. Há os admiradores da profundidade e complexidade dos seus textos, e os nada comovidos com a representação do tédio. Para estes o sentimento é de estar diante de uma coisa chata. Ou pior. “Indigesta”, disse uma expectadora, enquanto saía, antes de terminar o espetáculo. Uma montagem da carioca Armazém Companhia de Teatro.

Quantas das mais de 400 pessoas que ocupavam as cadeiras do espaço menor do Guaíra aplaudiram realmente com convicção? Uma pergunta assim pode ser a exteriorização de uma mera curiosidade ou uma provocação para uma ação mais consequente. O estudo das plateias, não somente do que se oferece às audiências.

Não, os textos de Beckett – e isto não limita ao seu teatro – não são de fácil digestão. Significa que quase setenta anos depois da primeira estreia de Dias felizes, continua intacto o seu retrogosto. Varia apenas a qualidade da montagem e desempenho das atrizes e atores que dão corpo e voz a Winnie e Willie. A que pôde ser assistida ontem no Festival de Teatro de Curitiba mostrou muito boa qualidade. Desde a inteligência arquitetônica do cenário. Tão despojado de quase tudo como as vidas arruinadas que mostrava.

De certo modo, tem-se aí um jogo. Onde as mazelas humanas provocam um riso meio sem graça – e houve vários momentos de risadas da plateia. Todos que assistem sabem a que assistem, e não é nada agradável. Mesmo que não entendam propriamente muito. Nisto se cumpre o propósito – se há – no absurdo, e nunca encena a felicidade. Não deve ter sido por acaso que, ao decidir fazer um filme, Beckett tenha escolhido justamente Buster Keaton, aquele que nunca ria ou sorria.

Em Dias felizes não há salvação. Ela não existe para os humanos, segundo Kafka, precursor do absurdo. Se fosse preciso escolher uma palavra para sintetizar aquela pouco mais de uma hora no Guairinha, talvez o melhor termo seja “ricercare”. A palavra da música que significa, ao mesmo tempo, buscar e indagar. Não se trata de um perpetuum mobile. Ali há, mesmo escasso, um movimento, de vidas. Energia. Como se o pobre casal fosse um Sísifo duplicado. É preciso imaginar Sísifo feliz, disse outro autor do teatro do absurdo: Camus. Serve a frase para ele e Beckett, e, talvez, também, para os que gostam de ambos.

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