Indicações

A parceria afinada de Ricardo Bacelar com Airto Moreira

Gravado em estúdio próprio de Bacelar em Fortaleza, o disco "Maracanós" é, ao mesmo tempo, um álblum de jazz, trilha sonora e música de concerto

TEXTO José Teles

07 de Julho de 2026

Em mais de 60 anos de carreira, o percussionista e compositor catarinense Airto Moreira somente lançou seu primeiro disco solo em 2017, gravado no Brasil (pelo Selo Sesc), embora ele seja dono de uma discografia quilométrica nos Estados Unidos, alguns discos divididos com Flora Purim, com quem é casado. No final de abril deste ano, Airto lançou mais um álbum brasileiro, com o músico cearense Ricardo Bacelar, Maracanós, o título. Os dois gravaram em Fortaleza, no estúdio de Bacelar, também fundador do Jasmim, selo que criou na capital do Ceará.

Problemas de saúde do percussionista, o levaram a voltar a morar com Flora no Brasil, no Rio de Janeiro, realizando apresentações, mas sem tanta assiduidade (Airto está com 85 anos, Flora com 84). A volta ao estúdio rendeu também mais um disco de Flora Purim. Airto Moreira inscreveu seu nome na MPB com o revolucionário Quarteto Novo, criado há 60 anos, supergrupo formado por ele, Hermeto Pascoal, Théo de Barros e Heraldo do Monte. Nos EUA, começou já tocando com Miles Davis, quando recriou a percussão no jazz, ao participar da gravação do clássico álbum Bitches Brew. Integrou os grupos Weather Report e Return to Forever, de Chick Corea (Flor Purim também foi do grupo).

Ricardo Bacelar tocou nos anos 1980 no grupo Hanói Hanói e foi sócio de estúdio no Rio, com o baixista Arnaldo Brandão. Voltou a à cidade natal há 20 anos, onde é advogado bem-sucedido. Na músoica, ele direcionou a carreira solo mais para o exterior. A gravadora Jasmim distribui seu catálogo pelos EUA, Europa e Japão. Ele já gravou com artistas nacionalmente reconhecidos a exemplo de Ednardo, mas este disco com Airto pode torná-lo seu nome mais conhecido entre os compatriotas, ao menos, os que não consomem apenas o fast-food sonoro que predomina no cardápio musical do país. O álbum é ao mesmo tempo jazz, trilha sonora, música de concerto, pontuado por climas, texturas, com uma banda formada por instrumentistas cearenses ou que militam no Rio, e o Quarteto Kalimera, com arranjos para corads do maestro Liduíno Pitombeira.

Bacelar concedeu entrevista à Continente, sobre sua parceria com Airto, Maracanós e sobre a própria carreira.

CONTINENTE Como se chegou a esta parceria com a Airto Moreira e Flora Purim? Já se conheciam?

RICARDO BACELAR Eu já admirava profundamente a trajetória do Airto e da Flora há muitos anos. São artistas que ajudaram a redefinir a música brasileira no cenário internacional, especialmente pela relação deles com o jazz, a música experimental e as raízes brasileiras. O primeiro contato aconteceu de forma muito natural, a partir de aproximações profissionais e artísticas. Quando eles vieram ao Jasmin Studio, em Fortaleza, para as gravações do documentário dirigido por Jom Tob Azulay, houve uma conexão humana e musical muito forte. A convivência intensa durante vários dias acabou gerando uma criação muito espontânea. Então o disco nasceu menos como um projeto planejado e mais como consequência dessa convivência artística.

CONTINENTE Salvo engano, este é disco de Airto em que ele é coautor em todas as faixas. Como se chegou a estas parcerias. Foram criadas no Rio ou em Fortaleza?

RICARDO BACELAR Sim, o Airto participa como coautor em todas as faixas. Isto aconteceu porque o processo foi muito colaborativo. As músicas surgiram a partir de ideias, improvisações, células rítmicas, atmosferas e conversas musicais dentro do estúdio. Grande parte foi criada em Fortaleza, no Jasmin Studio, durante as sessões do filme e das gravações. Algumas ideias eu já vinha desenvolvendo anteriormente, mas o disco ganhou forma ali, naquele ambiente de imersão criativa. O Airto trouxe muito da linguagem rítmica e intuitiva dele, e eu fui organizando harmonicamente, estruturalmente e sonoramente essas ideias.

CONTINENTE E o conceito do álbum? É meio jazz, música de concerto, trilha sonora, tudo muito bem amarrado, muito bem-arranjado

RICARDO BACELAR Eu nunca pensei o Maracanós como um disco de jazz tradicional. Para mim ele é um trabalho de música contemporânea brasileira, onde convivem jazz, música de concerto, trilha sonora, música brasileira, improvisação e experimentação sonora. Existe uma preocupação cinematográfica muito forte na construção dos arranjos e das texturas. Ao mesmo tempo, há espaço para espontaneidade e liberdade. Acho que o conceito do álbum está justamente nessa mistura entre sofisticação harmônica, ancestralidade brasileira e liberdade criativa.

CONTINENTE Você tem um dos melhores estúdios do país, um selo, o Jasmin, um catálogo, como e quando surgiram?

RICARDO BACELAR O Jasmin surgiu de uma necessidade muito pessoal minha de criar um espaço onde eu pudesse desenvolver música sem limitações estéticas ou técnicas. Eu trabalho com música há muitas décadas e fui construindo o estúdio aos poucos, dentro da minha própria casa, sempre pensando em excelência sonora, conforto criativo e liberdade artística. Depois veio naturalmente o selo Jasmin Music, porque eu queria desenvolver um catálogo autoral, gravado com muito cuidado técnico e artístico. Hoje o Jasmin reúne estúdio, selo, audiovisual e produção de conteúdo. É um projeto de vida.

CONTINENTE Vendo o site da gravadora, vi seus discos, e trechos de reviews, mas todas são de publicações gringas. Sua carreira é desenvolvida mais nos EUA e Europa? Você vive apenas da música, ou tem outros afazeres?

RICARDO BACELAR Minha carreira acabou se desenvolvendo bastante fora do Brasil nos últimos anos, especialmente nos Estados Unidos, Europa e Japão. Alguns discos tiveram uma repercussão muito forte em rádios de jazz americanas e publicações internacionais começaram a acompanhar meu trabalho. Isto abriu portas para distribuição e circulação internacional. Mas continuo profundamente ligado ao Brasil e produzindo daqui. Eu também sou advogado há muitos anos e atuo na área institucional e cultural. Então minha vida sempre transitou entre música, direito, produção cultural e atividades institucionais.

CONTINENTE Em algumas faixas você toca vários instrumentos, um one man band. Há quanto tempo você toca, por favor, um resumo de sua carreira

RICARDO BACELAR Eu comecei na música muito jovem, ainda adolescente. Toco piano desde cedo, mas ao longo da vida fui aprendendo outros instrumentos porque sempre gostei muito de produção musical e de construção de arranjos. Então, em alguns trabalhos, acabo gravando teclados, sintetizadores, pianos, programações e outras camadas. Minha trajetória passou por bandas de rock nos anos 1980, produção musical, trilhas, gravações e depois por um caminho mais ligado à música instrumental, brasileira e contemporânea. Hoje também atuo muito como produtor, diretor musical e curador de projetos.

CONTINENTE Airto participa de todas as faixas, inclusive com voz, mas a impressão que se tem é que ele faz um, como se diz agora, um feat. Aliás, li reviews de publicações gringas que afirmam isto. Até onde procede?

RICARDO BACELAR Eu vejo o Maracanós como um disco realmente compartilhado. Não considero o Airto apenas um convidado especial ou um feat. Ele participa profundamente da identidade do álbum. A presença dele não está só na percussão ou na voz…

     

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