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Especial

Um golpe contra a arte

Após a censura à mostra Queermuseu, 21 profissionais ligados ao pensamento crítico e à cultura expõem à Continente suas análises sobre o significado do episódio para o Brasil hoje

TEXTO Luciana Veras

14 de Setembro de 2017

Imagem da série 'The thread has a finger', de Cibele Vieira, acabou se tornando uma alegoria para a crítica e a censura sofrida pelos artistas

Imagem da série 'The thread has a finger', de Cibele Vieira, acabou se tornando uma alegoria para a crítica e a censura sofrida pelos artistas

FOTO Divulgação

“Em época de crise, fique do lado do artista”
Mário Pedrosa

A exposição Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira ocupava, desde 15 de agosto, o Santander Cultural, localizado na Rua Sete de Setembro, centro histórico de Porto Alegre. Que ironia, talvez apenas a primeira, que a via pública onde se hospeda o equipamento remeta ao dia da independência do Brasil. Independência é palavra que se coliga, com facilidade e leveza, à arte. E havia 263 obras de arte expostas na mostra sob curadoria de Gaudêncio Fidelis, em tese abertas à visitação até 8 de outubro.

Em tese.

No domingo passado, 10 de setembro, o Santander Cultural divulgou uma nota em seu perfil no Facebook comunicando o cancelamento da exposição. O texto indicava que a instituição havia escutado queixas e protestos que vinham sendo orquestrados por grupos como o Movimento Brasil Livre – MBL, que alegavam que a exposição continha obras que incitavam a pedofilia e a zoofilia.

“… Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana. O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas, sim, a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra neste domingo, 10/09.”

Fidelis, ex-diretor do Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS) e curador-geral da décima edição da Bienal do Mercosul, em 2015, não havia sido consultado a respeito da decisão do Santander Cultural, como deixou claro em entrevista concedida ao jornalista David Miranda. Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira trazia obras de Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Leonilson, Lygia Clark, Hudnilson Jr., entre outros.

Cibele Vieira, artista visual brasileira radicada em Nova York, participava da Queermuseu com dois trabalhos, uma escultura e um vídeo chamados The thread has a finger (2007). “A escultura é um dedo indicativo em gesso pendurado por um fio que gira apontando para todas a direções (foto abaixo). O vídeo é composto de múltiplos dedos. Uma das leituras que o trabalho nos oferece ironicamente é de ser uma metáfora para nova ordem mundial, na qual redes de desinformação nos dividem e nos reprimem”, explica à Continente.

Ao longo dos últimos quatro dias, a decisão da instituição de suspender a mostra foi discutida em fóruns virtuais e em artigos publicados em jornais de grande circulação; em mesas de bar e nas rodas de debates; em conversas telefônicas e textos que ecoavam uma palavra tão horrenda como, de uma certa forma, familiar ao Brasil de 2017: censura. Em artigo escrito para O Globo, a crítica de arte e curadora Daniela Name tecia paralelos entre o episódio e o que Adolf Hitler fez em Munique, em 1937, a partir de uma exposição que definiu como "Arte degenerada”: “Afinal, quem não é pelo bem compactua com o mal”.

Ex-curador do MAM-RJ, que em 2011 sediou uma exposição individual da fotógrafa norte-americana Nan Goldin após o banimento pela instituição que a abrigaria, Luiz Camillo Osório classificava a decisão do Santander Cultural como “um ato extremo e uma forma de censura” em entrevista à revista Cult.

A Arquidiocese de Porto Alegre também se manifestou sobre o ocorrido, endossando os argumentos de que a exposição desrespeitava o catolicismo: “A comunidade de fé na Arquidiocese de Porto Alegre manifesta sua estranheza diante da promoção da exposição realizada junto ao Santander Cultural, na capital gaúcha, que utiliza de forma desrespeitosa símbolos, elementos e imagens, caricaturando a fé católica e a concepção de moral que enleva o corpo humano e a sexualidade como dom de Deus”. E Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL, resumia a complexidade da questão na seguinte frase estampada como chamariz para seu vídeo postado no Facebook: “Esquerda tenta promover pedofilia e zoofilia para crianças – e com dinheiro público”.

Obra de Bia Leite inspirada no tumblr e meme LGBT Criança Viada

Fora do âmbito das letras e da virtualidade, prosseguiram os protestos, pró e contra a atitude do Santander Cultural. Na terça, 12, à tarde, artistas fizeram performances em frente à instituição, em Porto Alegre; dois deles foram presos. Há rumores de que Belo Horizonte pode receber Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira. Em entrevista ao Estado de Minas, o atual secretário de cultura da capital mineira, Juca Ferreira, ex-ministro da cultura dos governos Lula e Dilma, ratificava o interesse: “O curador sinalizou que gostaria de vir para BH pelo clima de liberdade e aceitação que estamos vivendo aqui. Um amigo me ligou e disse que havia essa possibilidade, e eu disse que a via com bons olhos, mas ainda não podemos confirmar nada."

Diante do episódio, dos seus desdobramentos e, em especial, dos potenciais significados no Brasil de 2017, a Continente ouviu 21 pessoas, cujas trajetórias estão, irremediavelmente, ligadas ao pensamento crítico e à arte: artistas, cineastas, professores, jornalistas, escritores. A partir de uma pergunta inicial – Como analisam o ocorrido? –, buscamos ampliar os horizontes da discussão sobre o cancelamento da exposição, numa tentativa radiografar nosso momento atual. Assim, compilamos visões distintas sobre uma questão candente: de que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso?

ADELAIDE IVÁNOVA
Jornalista e ativista que trabalha com poesia, fotografia, tradução e edição

Como analisa o ocorrido?
Não é a primeira vez e não vai ser a última. Uns anos atrás, Nan Goldin teve uma exposição cancelada no Oi Futuro. A diferença, talvez, é que dessa vez exista um número grande de artistas brasileiros envolvidos, que se articularam na internet e criaram um buruçu. É uma coisa horrorosa e apenas a ponta do iceberg de uma agenda neoliberal, violenta, conservadora. É também uma coisa ridícula: sem artistas LGBTQI, os museus ficam vazios.
Outro pensamento que não pode ser ignorado: bancos e grandes empresas fazendo o papel de intermediadores, financiadores ou agenciadores da cultura só pode dar nisso. Continuam bancos ou grandes empresas, ou seja, continuam servindo à engrenagem do capital e suas agendas neoliberais, patriarcais, racistas, opressoras – as coisas que sustentam a estrutura mesma em que essas instituições existem.

De que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso? Como resistir?
Eu não vejo mais muito sentido em resistência online, por exemplo. A internet foi engolida pela nova direita, pela tal da alt-right, dê o nome que quiser. Além disso, há a falsa sensação de estarmos fazendo algo que a internet nos dá, mas, no fim das contas, ficamos todos ainda mais isolados. Temos que deixar crescer mato na internet, foda-se essa merda. Ação direta é importante, mas não é a mais importante nem a única coisa que pode ser feita. Estratégias com foco em longo prazo só podem acontecer na instância da coletividade; a resistência e as mudanças reais só podem acontecer no âmbito do encontro dos corpos. Eu acredito mesmo nisso. Acho que uma solução possível é que cada pessoa interessada em resistência se filie a um partido, ou faça parte de um coletivo, ou de grupo de estudo, qualquer coisa em que ela esteja em contato com outras opressões, que inspirem ações. Os encontros, a criação de pensamento e as ações precisam voltar a acontecer no mundo analógico. E isso é pra ontem.

CIBELE VIEIRA
Artista visual radicada nos Estados Unidos

Como analisa o ocorrido?
Na verdade, são dois ocorridos que temos que separar. O primeiro é que as forças de direita, como o MBL, distorceram a realidade, criando uma campanha online difamadora e mentirosa sobre a exposição e também invadindo o espaço da exposição agredindo verbalmente os visitantes. Esse é um fato triste, mas não desconhecido na história da arte. A arte sempre foi alvo fácil para a intolerância. O segundo ocorrido, na minha opinião mais sério, é o fato de o espaço Santander Cultural não só não ter defendido os artistas e o curador, como era a sua obrigação moral, mas unilateralmente suspender o show e ainda se desculpar aos grupos de direita. Isso criou não só um fato sem precedente, mas também deu força para esses grupos intolerantes e permitiu que a comunidade artística e, o pior, a comunidade LGBT fossem tachadas como pedófilos etc. Toda a ideia da exposição era de iluminar, elevar essa parte da população que historicamente vem sendo oprimida pela sociedade. Ao se omitir, o Santander deu forças para essa opressão se perpetuar.

Quais as implicações de um episódio como esse?
Bom, a primeira implicação é que o Santander Cultural acabou como referência de centro de arte contemporânea. Nenhum artista de respeito trabalhará com eles no futuro. Outro fato infelizmente inegável é que esses grupos de direita estão saindo mais fortificados e vão se achar no direito de serem mais agressivos e até violentos no futuro. A terceira é que o movimento LGBT agora está no front do movimento de resistência, pelo menos em Porto Alegre.

De que modo podemos perceber o cancelamento da exposição no contexto atual do Brasil?
Acho que a gente pode até ir mais adiante e colocar isso no panorama mundial. Posicionamentos fascistas e intolerantes estão invadindo o panorama mundial. A desestruturação do Estado no Brasil, com o impeachment de Dilma, e nos Estados Unidos com a eleição de Trump, e em outros países por diversos motivos, trouxe de volta grupos que representam o pior da história do homem. O importante é que as instituições resistam! Nos Estados Unidos muitas estão, mas me parece que no Brasil, e este episódio comprova, tudo é mais frágil e a nossa democracia realmente está em risco.

De que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso?
A comunidade artística tem que ficar unida, gritar e espernear. Mas também não podemos perder nossa humanidade. O que nos separa dessas pessoas é nossa empatia. Temos que dizer não à intolerância de qualquer forma. E mais importante: temos que educar nossas crianças, pois elas são o futuro.

Como resistir?
Eu, como artista, vou continuar a fazer mais e mais arte. Vou exercer mais positivamente minha liberdade de expressão, e lutar pela integridade da arte. E, por fim, trabalhar mais com curadores como o Gaudêncio Fidelis. Pessoas que ainda acreditam no potencial transformador da arte é fundamental.

CRISTIANA TEJO
Pesquisadora, doutora em Sociologia pela UFPE e curadora

Protestos de grupos religiosos contra obras de arte expostas em espaços culturais geridos por bancos e empresas privadas já ocorreram no Brasil e geraram a retirada da obra da artista Márcia X, na mostra Erótica, curada por Tadeu Chiarelli, no CCBB do Rio de Janeiro, em 2005, e o cancelamento antes da abertura da exposição de Nan Goldin, com curadoria de Ligia Canongia, no Espaço Oi Futuro, também no Rio, em 2011. No primeiro caso, a mostra contou com o apoio do então ministro da cultura Gilberto Gil e de grandes setores da sociedade, mas a presidência do Banco do Brasil cedeu à pressão dos correntistas de setores católicos. O gerente de comunicação da instituição chegou a pedir demissão diante do ato de censura. Já na questão da individual de Goldin, o centro cultural decidiu cancelar a mostra, que acabou ocorrendo no MAM–RJ. A situação atual do fechamento da exposição Queermuseum, no meio de sua existência, por conta de queixas de grupos conservadores, parece apontar para um cenário um pouco mais desafiador para a liberdade de expressão artística no país.
Acusações de pedofilia, zoofilia, blasfêmia foram acatadas pelo Santander Cultural sem uma discussão com a curadoria, os artistas, o campo da arte e mesmo instâncias jurídicas, como a promotoria da criança e do adolescente. Uma instituição cultural deveria ter por natureza um cuidado maior com os valores e crenças do mundo da arte, pois elas são mediadoras entre a produção artística e a sociedade. Sua função encontra-se exatamente na apresentação daquilo que ainda não conhecemos, ofertando um embate com o novo e o dissenso. Ao ceder, no contexto atual de forte obscurantismo, moralismo e de crescente fascismo, este centro cultural acabou por colocar-se contra a arte. Como dizia o crítico pernambucano Mário Pedrosa: “Em época de crise, fique do lado do artista”.

 
FILIPE CAMPELLO

Doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt, Professor do Departamento de Filosofia da UFPE e coordenador do Núcleo de Ética e Filosofia Política

Eu sou um defensor ardente da liberdade de expressão. A arte tem que permanecer livre para criticar e inquietar, assim como o indivíduo também é livre para gostar dela, e inclusive para manifestar essa crítica. Gostar ou não, querer ver ou não as obras são opções que concernem eminentemente ao âmbito privado. A manifestação pública de repúdio, por sua vez, tem sua intersecção com a esfera pública, mas isso também deve, a meu ver, ser garantido. E isso vale inclusive para o boicote, que são formas legítimas de expressar divergências de opinião ou mesmo ideológicas. Já constranger ou impedir outros espectadores de visitar a exposição entra em choque com a liberdade de escolha de outros indivíduos.
No entanto, em nenhum desses casos há propriamente censura no sentido do debate político. A rigor, censura é fundamentalmente um mecanismo de Estado. A decisão pelo fechamento da exposição foi do próprio Santander, e isso tem mais a ver com os riscos do banco perder milhares de correntistas do que com qualquer outra coisa. Por isso, a comparação desse episódio com regimes como Arábia Saudita ou China é descabida. Nesses casos, a censura é operada pelo Estado, seja explicitamente e com o amparo na lei ou de forma velada.
O motivo, portanto, do fechamento da exposição é sobretudo da ordem da relação entre arte e mercado, e nisso não há nada novo. No caso do Queermuseu, essa conjuntura é ainda mais intricada por envolver dinheiro público captado através da Lei Rouanet. E também esse tipo de problema não é novo. São mais do que conhecidas as críticas que apontam os efeitos enviesados desse modelo de financiamento, em que as decisões de fomento artístico acabam por depender dos departamentos de marketing das empresas. É mais do que previsível que uma exposição que tinha como objetivo inquietar e provocar uma reflexão mais ampla socialmente não consiga cumprir o seu papel enquanto sua visibilidade e recepção inquietam também o banco que a promove.
Sem essa forte dependência, a arte pode e deve ser livre para exercer o seu papel de crítica, provocação, questionamento – de ser política no seu sentido lato – assim como o indivíduo pode e deve ser livre para gostar ou não e manifestar sua opinião.
Uma última consideração sobre um aspecto, que me parece que foi menos observado, é o que de fato motivou as reações mais viscerais. Pelo que pude perceber nas diferentes manifestações contrárias (a do MBL – que de livre não tem nada – foi apenas uma delas, e, aliás, posterior à de outros grupos religiosos), as obras que foram objeto de maior repulsa não foram propriamente as com temática sexual, mas as que sugeriam alguma conotação religiosa. Arrisco dizer que, se a exposição envolvesse apenas um conteúdo sexual, a reação não teria sido a mesma (a obsessão por acusações de pedofilia por parte de certos grupos mais conservadores é um problema á parte). No uso da liberdade individual, é também legítimo que essas obras sejam vistas, por exemplo, por um católico como ultraje ou sacrilégio, como no caso da obra com as hóstias. Como entendo, esses são casos limítrofes do sentido de liberdade de expressão, e que mais se assemelham, por exemplo, ao debate em torno das charges do Charlie Hebdo.
Nesses casos, a liberdade de expressão é indissociável daquilo que Rawls chamou de “pluralismo razoável”, em que a diversidade e o respeito às escolhas pessoais, religiosas ou não, devem ser democraticamente asseguradas.

Cartaz da exposição Queermuseu

GILVAN BARRETO
Fotógrafo e realizador

Estou tão cansado dessa porcaria toda, que chego a ficar sem ânimo para falar disso. Até porque é muito difícil escolher (ou entender) com quem estamos falando. Com os manipuladores e seus falsos pudores ou com seus manipulados? Ao falar demais no assunto, acho que estamos levantando a bola do “feito” do MBL. Por outro lado, entendo que precisamos nos posicionar. A manifestação contra essa censura tem que ser maior. E será. Não tenho dúvidas. O episódio da censura pode representar o tamanho dessa onda reacionária. Mas acho que são os limites que esse povo está testando e tentando reverberar cada pequena idiotice que cria. Também vejo como uma grande cortina de fumaça para encobrir o que acontece, neste exato momento, no Congresso Nacional. Me preocupo com a possibilidade de barrarem as eleições de 2018 e com o desmonte do Estado.
Aliás, o governo golpista não se posiciona, não vai condenar essa perseguição? Ficou claro que essas milícias funcionam como porta-voz do governo golpista. Se estivéssemos sob um governo minimamente sério, o episódio serviria também reavaliar o uso da lei de incentivo atualmente. No final das contas, é uma transferência das políticas culturais públicas para as empresas. Elas que decidem o que (e quem) apoiar ou não. Nesse caso, inclusive a quem eles devem ceder – e por um motivo meramente comercial, o medo de perder clientes. O episódio abre um precedente perigoso. “Não gostou de algo, então quebre tudo, faça ameaças.” 
Há poucos meses, quem quebrava vidraças de bancos eram “vândalos”, “marginais”. Agora é uma "milícia divina”, "justiceiros de Deus”, “patrulha da santa ignorância”.
Que porcaria é essa?

GUI MOHALLEM
Fotógrafo, artista visual e ativista LGBT

Como analisa o ocorrido?
Em um certo sentido, é uma contradição ter uma exposição dessa numa instituição como o Santander, tão símbolo do establishment. A natureza do patrocínio da cultura, desde a lei Rouanet, trouxe para a iniciativa privada a decisão sobre o que deve ser financiado ou não. Essa descentralização da decisão do que merece ser patrocinado seria excelente, se fossem diversos os grupos que tomassem as decisões, mas esse não é o caso. O dinheiro continua público, mas a decisão agora é privada. Quanto mais essa verba vier da rubrica de marketing das empresas, mais as exposições vão ter a função primeira de agradar o cliente, bem como sua medida de “sucesso” vai ser o quanto aquilo agregou de valor à marca da empresa.
Essa mecânica de financiamento possibilita o que aconteceu com a exposição Queermuseum.

Quais as implicações de um episódio como esse?
Esse episódio explicita uma certa censura que a gente já vive, em maior ou menor grau, na seleção dos projetos que vão ser patrocinados pela iniciativa privada. Essa demonstração de força das narrativas dos movimentos conservadores só vai deixar o pessoal do marketing das empresas ainda mais receoso de correr qualquer risco, o que vai privilegiar discursos ainda mais hegemônicos do que já são.

De que modo podemos perceber o cancelamento da exposição no contexto atual do Brasil?
Estamos no meio de uma guerra de narrativas e nós, autoproclamados progressistas, estamos claramente perdendo. Muito dessa derrota tem a ver com nossa prepotência, com nosso distanciamento do público, do popular, com um distanciamento que tanto a esquerda quanto a arte têm feito. Às vezes, percebo o circuito das artes como uma grande reunião de condomínio. Se você não leu a ata, fica difícil entender o que as pessoas estão discutindo, e aí não dá vontade de participar.

De que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso?
Acho que precisamos acordar para o que está acontecendo e destinar os esforços para entender esse outro que pensa tão diferente da gente. Descobrir com humildade qual é essa lógica de pensamento que leva a atitudes tão destoantes das minhas. O mito da caverna e essa ideia de que “o outro é manipulado, mas eu, que sou especial, vejo a realidade!” é um dos maiores desserviços que Platão trouxe pro entendimento do que é o coletivo. Olhar para o revoltado contra a exposição e achar que ele é ignorante, ou que ele é manipulado por pessoas mal-intencionadas, é de certa forma reconfortante, porque me coloca em uma posição de superioridade, de destaque intelectual/cultural. Precisamos entender o outro como sujeito e aprender a conversar na diferença.

Como resistir?
Respondendo muito sinceramente, não sei. Precisamos achar, juntxs e separadxs, estratégias que sejam possíveis dentro de cada contexto. Essas formas de resistência precisam ser somadas, e não entrar em disputa pra ver qual dá mais certo. Se a gente conseguir parar de menosprezar narrativas diferentes das nossas e começar a aprender com elas, já vai ser um bom começo.

IEDA OLIVEIRA
Artista visual 

"Os preconceitos têm raízes mais profundas do que os princípios"
Maquiavel

Muitos pensamentos rondam minha cabeça diante do tal acontecimento. No momento bizarro que esse país atravessa, parece que nada mais é surpreendente, pois, a cada dia, acordamos e dormimos com a impressão ou certeza de que a rédea está perdida. Me parece engraçado fechar as portas do Santander por conta das críticas de determinados visitantes, que acabaram potencializando, nas redes sociais, uma demonstração de revolta a respeito de imagens de nudez e sexo nas obras expostas. Esse povo tem conhecimento da história da arte? Conhece as obras de Bernini, a exemplo de O rapto de Proserpina (1621-1622?), e L’ origine du monde, realizada por Gustave Courbet em 1866? A querida artista brasileira Márcia X, que também já foi vítima de censura, deve nos olhar lá do outro lado; com certeza, deve lamentar o atraso de certas mentalidades, que é provável que sintam estranhamento em olhar o próprio corpo nu em frente ao espelho.


JEANINE TOLEDO
Artista visual e gestora de projetos

Como analisa o ocorrido?
Acho que o debate deve entrar na questão de como as instituições privadas agem com relação às implicações de marketing próprio, via lei Rouanet. Afinal, aceitaram e receberam uma exposição que teve captação em seus recursos. Quem aceitou? Quem optou pelo fechamento? Então, como resumo da ópera, essas são as instituições que refletem exatamente o retrocesso que estamos vivendo e são elas as que mais recebem a isenção de impostos via Lei Rouanet!

Quais as implicações de um episódio como esse?
Para mim é uma perda e uma violência à liberdade de expressão. As instituições culturais deveriam ser as primeiras na discussão sobre temas polêmicos e trabalhar com vozes discordantes.

De que modo podemos perceber o cancelamento da exposição no contexto atual do Brasil?
Como dito acima, para mim está havendo um desmanche geral na área da cultura e as instituições refletem o momento atual. Começamos a ver isso a partir do desmanche e “reconstrução”, a duras penas, do Ministério da Cultura.

De que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso?
Usando uma metáfora sobre isso, vejo os agentes da área cultural como se tivessem mergulhado de cabeça num poço bem fundo, mas que não sabiam que havia uma enorme rocha nesse fundo, e aí ficaram tetraplégicos. Há apenas movimento do pescoço para cima depois desse mergulho, há falas, mas não há mais movimentos. As redes sociais vieram para o bem e para o mal. Não há ganhadores e, sim, muitos perdedores que repetem monólogos na rede e que, na maioria das vezes, são monólogos enfurecidos. No começo, acredito eu, as manifestações nas redes assustavam as instituições, pois elas se preocupavam com sua imagem a partir disso, mas, nos dias atuais, em que tudo pode e não há medo de retaliações, vide os políticos continuarem enchendo as malas e sendo apoiados nos seus retrocessos, está cada vez mais difícil reverter esse quadro.

Como resistir?
Não tenho a menor ideia. Volto a resposta anterior. Qual a liderança que temos? Quem nos representa? Vi ótimos críticos escrevendo sobre esse assunto nas redes, nos jornais, em sites. Será que isso reverbera na atual conjuntura? Se até uma novela da Globo (DA GLOBO!) fala do assunto e parece que não reverbera... O pedido dos agentes da arte é para ser feita uma enorme manifestação em repúdio… mas quem lidera isso? Vamos ficar assim assistindo estarrecidos sentados numa cadeira com um computador na nossa frente até quando? Estamos vivendo uma verdadeira descrença em todas as nossas instituições, infelizmente!

JOSÉ RUFINO
Artista visual, curador e escritor

Como analisa o ocorrido?
A censura à mostra Queermuseu, feita pelo Santander, a partir da mobilização do MBL, não foi algo isolado. O país teve significativos avanços econômico-sociais e educacionais, o que gerou aprofundamentos nas políticas ligadas a questões de gênero, diversidade, sexualidade, etnia ou raça. Passou-se a discutir, a tratar em várias esferas (da escola ao teatro, da TV à exposição), temas que estavam reprimidos pelos ditames de políticas de segregação, de conservação de um espírito colonialista e explorador. Essa censura foi mais um sintoma de que estamos vivendo uma tentativa de revés dessa construção de um país mais plural, diverso, igualitário. Foi por preconceito, por medo de olhar-se no espelho, por pavor daquilo de mais humano que cada um carrega, mas também foi pela manutenção do poder, do poder dentro da “família”, do poder de Estado, do poder do capital.

Quais as implicações de um episódio como esse?
Por um lado, o perigo de que se torne corriqueiro, de que a arte seja atirada no bojo da “perversão”, da “obscenidade”, do crime. O perigo de que as instituições se curvem, que as políticas públicas retrocedam, ajoelhem-se diante do grito conservador. Por outro, vejo o lado latejante, a mobilização dos artistas, curadores, jornalistas e também de instituições, galerias. Um episódio dessa categoria, nesse tempo tão estranho, é como rastilho de pólvora na mente dos artistas.

De que modo podemos perceber o cancelamento da exposição no contexto atual do Brasil?
Esse caso me parece mais grave, tendo em vista essa orquestração do MBL, nesse momento de revés das políticas afirmativas. Tenho aqui em mãos o projeto de lei Programa Escola sem Partido, que poderia parecer apenas risível, um completo nonsense, inexequível, caso não fosse real. Não precisa ser professor, como eu, ou ter qualquer ligação com educação ou ensino, para que se perceba que é apenas uma proposição de criação de mecanismos de repressão às políticas educacionais afirmativas, que respeitem a diversidade, que gerem sentidos de cidadania. Onde está dito que os professores não poderão “realizar atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”, deve-se, de fato, entender que estarão proibidos de realizar qualquer atividade ou pronunciar qualquer palavra que possa ser interpretada como aquilo que chamam de pensamento “de esquerda”, ou contra certas religiões, especialmente representadas nas hordas do poder.
A tal proposta de lei sequer considera os milhares de alunos desse país que não têm pais, ou não têm pais com qualquer capacidade de orientar seus filhos. Avança propondo cartazes nas instituições de ensino para que os professores possam ser denunciados anonimamente. Os seja, teríamos que entrar mudos e sair calados, ainda correndo risco de sermos interpretados. Foi exatamente isso que aconteceu com a mostra Queermuseu. Interpretações morais e religiosas, pessoais, afloraram sob a forma de ódio orquestrado e lá estava o curador e artistas denunciados por pedofilia, zoofilia e qualquer forma de comportamento que não pertence àqueles que são puros.

De que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso?
De forma contundente. O que aconteceu, no cenário atual, foi muito grave e o grito daqueles que fazem a arte não é uma histeria de pervertidos. É um grito em nome de toda a sociedade, inclusive daqueles que não compreendem e que se apavoram com essa coisa chamada arte, repelindo-a para não correr o risco de sentirem cooptados.

Como resistir?
A forma mais potente de resistência é o pulso criativo. Criação é coisa que encoraja. E artista assim, encorajado, produzindo qualquer modalidade de arte, sempre será um lutador, um revolucionário.

JOSELIA AGUIAR
Jornalista de livros, foi curadora da FLIP 2017

Como analisa o ocorrido?
Todo protesto pode acontecer, concordemos ou não com os argumentos dos que protestam, no entanto, a suspensão da mostra é que me parece ter sido um despautério.

Quais as implicações de um episódio como esse?
O precedente que se estabelece. Agora, toda exposição, livro, peça serão cancelados se o MBL protestar, é isso?

De que modo podemos perceber o cancelamento da exposição no contexto atual do Brasil?
Existe um ambiente de grande confusão sobre o que é liberdade de expressão x incitação ao ódio, à intolerância, ao racismo. Os mesmos que forçam o fechamento de uma exposição por atentar contra valores da igreja são aqueles que forçam o fechamento de terreiros e querem acabar com direitos civis de minorias, por exemplo. Se são acusados, reclamam liberdade de expressão. Precisamos manter a lucidez e reagir, porque ficamos muito tempo indiferentes e demos espaço para as coisas chegarem aonde chegaram.

De que maneira a arte, a cultura e o pensamento crítico do país devem se posicionar perante tudo isso? Como resistir?
Contribuindo para que mais mostras como essas sejam realizadas, vistas, discutidas – isso vale não apenas no campo das artes plásticas, mas da literatura, do cinema, do teatro. Não podemos nos paralisar, tampouco recuar.

JULIANA CESAR
Advogada feminista e assessora de programas na Gestos

Um dos elementos que me preocupam neste caso, além da lamentável capitulação do Santander Cultural a um insustentável argumento moralista e retrógrado, é a consolidação de uma guinada bem mais fascista de forças reacionárias que têm se fortalecido nos Brasil nos últimos anos. A atuação desses grupos costuma apelar à defesa, em maior ou menor grau, de um “ultraliberalismo jabuticaba”, visto que muitos defensores desse estado mínimo liberal não costumam se acanhar em usufruir de financiamentos estatais que suavizem ou protejam suas empreitadas capitalistas.
O liberalismo defende a primazia do exercício da liberdade individual, e isso por vezes faz com que pautas combatidas por doutrinas conservadoras ou reacionárias, como drogas, aborto e sexualidade, sejam removidas do viés proibicionista e postas a cargo da decisão de cada pessoa. Aqueles grupos de destaque no Brasil, contudo, se filiariam ao liberalismo conservador, que tem uma simbiose com o cada vez mais forte e evidente ethos conservador brasileiro. Por encontrar uma crescente ressonância com a parcela conservadora da sociedade, o flerte com posições mais extremadas tem se tornado um caso sério com elementos fascistas e que não difere muito das estratégias, por exemplo, de fundamentalistas religiosos.
A adoção desses expedientes, já que penso que o comportamento desses grupos inclui sempre uma avaliação de perdas e ganhos com vistas à arregimentação de apoiadores e ampliação de seu campo de influência, me leva a cogitar que há elementos que apontam que seguir por este caminho lhe seria mais lucrativo – ou ao menos valeriam o risco da aposta. Cabe a nós, parcela da sociedade que se recusa a retroceder no campo dos direitos fundamentais, arregimentar uma resistência que torne interdita esta via.

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