Especial

A ousadia da peça "Gota d´água" ante a ditadura militar

Versão de Chico Buarque e Paulo Pontes para a Medeia, de Eurípedes, completa 50 anos e continua atual

TEXTO José Teles

28 de Janeiro de 2026

Joana, moradora da Vila do Meio-Dia apaixona-se por Jasão que, após o sucesso do samba que escreveu fica famoso.

Jasão se vende e aceita casar com Alma, filha de Creonte, dono do conjunto habitacional

Expulsa da comunidade, Joana planeja vingar-se envenenando Creonte e Alma. Porém, como não conseguiu, envenena os dois filhos e depois se mata.

Esta é a síntese do roteiro da peça Gota d’água – Uma tragédia brasileira, de Chico Buarque e Paulo Pontes, baseada numa adaptação de Medeia, de Oduvaldo Viana Filho para a TV, por sua vez uma versão da tragédia grega de Eurípedes. No elenco, Bibi Ferreira, Oswaldo Loureiro, Bete Mendes e Mário Lago nos papéis principais, sob a direção de Gianni Ratto. A peça chegou ao palco do Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, no final de 1975. Completa, pois, oficialmente 50 anos. Mas a estreia aconteceu a quatro dias de 1976, tanto que nem foi incluída na lista de peças que disputavam o prêmio de melhores do ano, concedido pelo Serviço Nacional do Teatro (SNT).

Escrita em 431 a.C., Medeia, de Eurípedes, uma das tragédias gregas fundamentais e revolucionárias, ao trazer realismo e profundidade psicológica às emoções, explorar a ambiguidade moral, o sofrimento e o desespero humanos. Eurípedes leva Medeia a cometer vingança contra o marido Jasão, punindo a traição masculina numa sociedade patriarcal. Por isso, é considerada uma das primeiras obras da literatura a expor com contundência a desigualdade de gênero. É atemporal ao abordar a condição da mulher. Outro tema importante e atual é a xenofobia, uma vez que a protagonista é condenada ao exílio com os filhos.

Chico Buarque e Paulo Pontes, situam a sua versão da Medeia num morro carioca e optaram por um de dois desfechos da tragédia. Em um deles, buscando para se vingar de Jasão, que a expulsa da cidade e troca por outra mulher, Medeia mata os dois filhos que teve com o ex-marido e suicida-se. Na outra versão, ela tenta matar a nova mulher de Jasão e o pai dela. Não conseguindo envenena os filhos e a si.

Estranhamente, embora fosse de dois notórios críticos do regime, Gota d’água teve apenas palavrões vetados pela censura. Segundo Paulo Pontes, quem mais atrapalhou a peça foi a TV Globo, noticiando, com frequência que tinha sido mutilada, proibida, ou tirada de cartaz. Numa longa entrevista a O Pasquim (em 1976), Paulo Pontes afirmou que se a peça fosse mesmo mutilada ele e Chico não a encenariam. “A Globo noticiou mais a censura à Gota d’água do à proibição da novela O bem amado. Numa dessas liguei pra lá e disse que o que tinha saído no Jornal Nacional não era verdade. Mandaram me entrevistar. A entrevista nunca foi o ar”.

Na mesma entrevista, o teatrólogo paraibano (de Campina Grande) Paulo Pontes, aponta o foco que foi dado à adaptação à tragédia de Eurípides: “Muito antes de a peça existir, essa foi a ambição de Gota d’água: Que fosse a crítica da realidade, e não a coisa cômoda de ficar ao lado de determinado personagem porque este tem valor. Isto é coisa do romantismo. O bem e o mal é um troço maniqueísta. No seio das melhores correntes da vida brasileira, há uma ânsia de maniqueísmo. Não se pode viver sem um herói, um ídolo”.

Gota d’água recebeu mais elogios a favor do que críticas adversas. A canção título contribuiu para impulsionar o sucesso de bilheteria no teatro. Foi incluída no show Chico & Bethânia, e fez sucesso com Simone. Passou pouco mais de dois anos em cartaz no Rio e São Paulo, onde teve 650 apresentações e bateu o recorde de vendas de ingressos no Teatro Aquarius (que, até então, era de My fair lady, também com Bibi Ferreira). Foi igualmente sucesso de vendas o livro com o texto completo da peça, lançado, simultaneamente, pela Civilização Brasileira

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