Trap, rap, samba, reggae, hip-hop e muito mais
No Ar Coquetel Molotov atraiu um público diverso que varou a madrugada chuvosa acompanhando o line-up do festival
TEXTO Carol Botelho
23 de Outubro de 2023
A baiana Luedji Luna se apresentou no palco principal
Foto Divulgação/No Ar Coquetel Molotov
Em clima de balada – daquelas lentas, de cantar junto com os braços levantados, mas também das agitadas, para sequelar na pista – o No Ar Coquetel Molotov comemorou 20 anos de existência mostrando um amadurecimento bem maior do que a idade aparenta. De festival indie lá no início, em 2004, o Molotov passou a termômetro de tendências pop – consolidadas e em ascensão – da nova música popular brasileira, decolonizante, de line up predominante feminino (60%) e imã de público diverso e inclusivo.
Já caía a madrugada quando uma chuva torrencial – que só a Várzea com seu microclima poderia proporcionar – ensopou a geral que não se ligou nas imprevisibilidades pluviométricas pernambucanas, e muito menos em incluir capa de chuva na lista de acessórios. Mas nem isso tirou o brilho da produção impecável do evento. O público não sofreu nadinha para comprar bebida, lanchar ou ir ao banheiro. A distância entre os três palcos – Coquetel Molotov, Natura e Kamikaze – era relativamente pequena, mas o som não vazou entre um e outro.Marcelo D2 montou uma roda de samba no palco. Foto: Divulgação/No Ar Coquetel Molotov
Somente no esperado show do mineiro FBC foi que algumas falhas técnicas causaram esfriamento nos corpos aquecidos de expectativa. Talvez não atendidas pelo novo disco de nome comprido O amor, o perdão e a tecnologia irão nos levar para outro planeta, um tanto menos instigado que o anterior, Baile. Na vez de Marcelo D2, som e painel também deram uma bugada. Mas a roda de samba montada no palco superou qualquer bronca tecnicista. Com 12 horas de show, foi difícil acompanhar a programação completa. Quem chegou cedo (o festival começou às 15h) e segurou a onda até o gran finale, ganhou o ótimo show da eletrizante banda baiana Áttoxxá, mix de pagode e música eletrônica. A banda tocou lá pelas 3h do domingo para um festival já um pouco esvaziado, mas não menos animado.
O Palco Kamikaze, para quem não nega uma pista com luz e gelo seco, provou que as definições de DJ foram atualizadas. De figurante tapa-buraco-animador-de-A beatmaker Jacquelone animou quem estava no Palco Kamikaze.
Foto: Divulgação/No Ar Coquetel Molotov
Daí em diante, madrugada adentro, lá se foi a grama seca para colocar canga ou esteira e curtir as atrações sentadas, sentados e sentades. A praça de alimentação coberta e aberta serviu como local de descanso e de repor as energias dos menos aditivados. Bem como o Palco Natura, mais conhecido como concha acústica, super confortável, com direito a cadeiras de arquibancada e espaço de sobra para quem faz coraçãozinho com as mãos ao ver uma boca de cena amistosa.
No Palco Molotov, considerado o principal, posicionado em frente à entrada do público, a baiana Luedji Luna estava bem diva no seu vestido em camadas de franjas brancas, que dançavam junto com ela, ao som de canções conhecidas do público. Como Banho de folhas, hit que a cantora deixou para o final. No Palco Natura, Tuyo também fez todo mundo cantar com ela o repertório calminho de balada, e recebeu de volta muita gente gritando o nome da banda curitibana afrofuturista e folk-pop formada pelo trio Lilian Soares, Layane Soares e Jean Machado. Quem também tocou na concha, bem na hora do dilúvio, foi o coletivo cearense Mateus Fazeno Rock e seu repertório batizado pelo próprio de rock de favela.
As Irmãs de Pau fizeram o público dançar debaixo de chuva.
Foto: Divulgação/No Ar Coquetel Molotov
Paetê e brilho até a ponta das unhas de gel gigantes e afiadas, o público caprichou nos looks. Makes, acessórios e cabelos super produzidos e mega coloridos. Assim como as roupas, as mais originais na linha do it yourself. Também houve quem optasse pelo basicão short ou bermuda, tênis e camiseta. Conforto, eterna tendência. Longas tranças e coques afro coloridos renovam o trendy do momento: a estética hip-hop dos anos 1990 veio em calças cargo e croppeds transparentes em trama de tela com barrigas de fora ao natural, sem lipo nem plástica, munidas de libertação. Na boca era mais fácil ver pirulito do que cerveja e cigarro. Com exceção daquele, o de artista. Ninguém deveria ser obrigado a beber o que o patrocinador mandar, não é mesmo? Monopólio etílico é a pior propaganda que o marketing já inventou. Óculos escuros das raves 90’s também voltaram, repaginados e futuristas. Bijus de corpo, rosto e até cabeça decorada com pérolas completavam as indumentárias desse povo clubber versão milenium que curte trap, rap, samba, reggae, hip-hop e dance music independente e popular brasileira.
CAROL BOTELHO, jornalista e repórter da Continente.