"Feito pipa" não precisa do Oscar
Filmado no Ceará e indicado para representar o Brasil em disputa por vaga no Oscar 2027, drama de Allan Deberton chega aos cinemas nesta quinta (5) com qualidades artísticas que já o consagram
TEXTO Julio Cavani
04 de Novembro de 2026
Lázaro Ramos (Batista) e Yuri Gomes (como Gugu), protagonista do filme
Foto Jamille Queiroz/Divulgação
Na campanha de divulgação de Feito pipa nas redes sociais, o ator Lázaro Ramos pede ao público para “explodir” e são usados termos como “missão” com recomendações para gerar mais engajamento e alcance ao filme. A inspiração visivelmente é o "Exército de Lula" e Janones. Se esse tipo de estratégia funcionou com as urnas nas eleições presidenciais, a lógica seria usar a mesma ideia para turbinar também as bilheterias do cinema nacional.
Escolhido oficialmente pelo Brasil para tentar uma indicação ao Oscar, Feito pipa realmente precisa de ótimos números de bilheteria para alcançar esse objetivo. Nesta altura do campeonato, esse é o único fator que ainda pode revolucionar a concorrência. Na corrida pela estatueta, o longa-metragem brasileiro já saiu em desvantagem por demorar para conseguir uma boa distribuidora para o lançamento no circuito de cinemas dos Estados Unidos, fator que tem sido decisivo na disputa. Além disso, apesar de ter recebido dois prêmios em uma mostra especial paralela da Berlinale, ele não concorreu nas seleções principais dos maiores festivais da Europa ou da América do Norte, como costuma acontecer com os indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
Na verdade, Feito pipa não precisa do Oscar. O filme em si é maior que isso, com méritos e qualidades artísticas que já o consagram, independente de premiações. É uma obra com bastante comunicabilidade popular e humanismo, que transmite a identidade de um Brasil sonhador.
O filme é ambientado em uma pequena cidade do Sertão que foi inundada após a construção de uma barragem. Tudo ficou debaixo d’água e os moradores precisaram ser removidos para os arredores de um grande lago que se formou, onde às vezes ainda é possível avistar a parte de cima de uma antiga igreja submersa. Toda uma população precisou recriar seus modos de viver tradicionais para conviver com a imposição do progresso econômico. A situação é uma realidade enfrentada por diversos municípios sertanejos de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Ceará, estado natal de Allan Deberton, diretor de Feito pipa. No cinema brasileiro, esse tipo de situação foi representada principalmente em Narradores de Javé (2003), sobre a resistência de um vilarejo ameaçado pelas obras de uma usina hidrelétrica.
O sertão de Deberton, portanto, está em uma encruzilhada de tempos entre o passado, o presente e o futuro. Isso é simbolizado também pelos personagens principais, que são o menino Gugu (vivido pelo ator Yuri Gomes), de 11 anos de idade, sua avó Dilma (Teca Pereira) e seu pai Batista (Lázaro Ramos).
As cores do filme expressam um encontro entre culturas e gerações, em uma atmosfera mágica com um céu fortemente azul e uma vegetação árida que contrasta com elementos fluorescentes de maquiagens, roupas, detalhes dos cenários e elementos industriais. Esse contraste visual e cultural, no cinema cearense, de certa forma, é descendente das observações do cineasta Karim Aïnouz presentes em O Céu de Suely (2006), Sertão de acrílico azul piscina (2004) e Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009).
Nessa lógica de sincretismo cultural, é simbólica também a centralidade que Feito pipa reserva para a canção Time after time, de Cindy Lauper, ouvida e cantada pelos personagens em algumas cenas-chaves. A inclusão desse sucesso radiofônico internacional da década de 1980 foi viabilizada pelo pernambucano Gustavo Montenegro, responsável pelo trabalho de supervisão musical de Feito pipa, que também trabalhou no licenciamento de fonogramas clássicos para O agente secreto e Ainda estou aqui, entre outros.
Outro ponto fundamental de Feito pipa são as desconstruções, desmistificações e confrontamentos de estereótipos de gênero e idade dos personagens. Enquanto Batista funciona como parâmetro de masculinidade clássica, Gugu e Dilma esbanjam a busca pela liberdade identitária. A avó é motociclista e manda nudes por meio de aplicativos de internet. O menino é craque de futebol e gosta de dançar coreografias de divas pop como Pabllo Vittar, além de brincar sempre com maquiagens e roupas brilhantes. Na cinematografia nacional, essas inversões de padrões também demonstraram potência em exemplos recentes como Boi neon (2015), de Gabriel Mascaro, Pedágio (2023), de Carolina Markowicz, e Kasa Branca (2025), de Luciano Vidigal, além de diversos curtas.
Durante décadas, antes das reformas recentes nos sistemas de votação, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (antigo nome da categoria) costumava indicar, com certa frequência, histórias sobre crianças que passam por situações de miséria e desgraça, com exemplos de vencedores da estatueta como Infância roubada (2005), A vida é bela (1997), Cinema Paradiso (1988), Pelle, o conquistador (1987) e O tambor (1979) ou até mesmo Central do Brasil (indicado em 1999). É verdade que Feito pipa dialoga com essa antiga tendência, mas de uma forma menos pessimista e mais desbravadora ao lembrar que, na explosiva magia da democracia brasileira, ainda é permitido sonhar.
JULIO CAVANI, jornalista, curador do festival de cinema Animage e diretor do curta-metragem História natural