Carnaval

Tradição em silêncio: Bola de Ouro não desfila no Carnaval de 2026

A agremiação, que tem 111 anos de vida, não vai para avenida por causa da situação financeira

TEXTO Rafael Pimenta

03 de Fevereiro de 2026

O último ano em que o Bola de Ouro mostrou sua beleza e fez história na passarela da avenida Dantas Barreto, onde acontece o desfile de agremiações, foi 2023.

O último ano em que o Bola de Ouro mostrou sua beleza e fez história na passarela da avenida Dantas Barreto, onde acontece o desfile de agremiações, foi 2023.

Foto Rafa Medeiros/PCR

"Cadê Toureiros, cadê Bola de Ouro?" O verso do frevo "Voltei Recife", composto por Luiz Bandeira e imortalizado na voz de Alceu Valença, ressoa ainda mais com um tom de saudade neste Carnaval de 2026. A festa, conhecida pelas cores vibrantes, este ano vai ser tingida de cinza antes mesmo da chegada da quarta-feira. Para os integrantes do Clube Carnavalesco Misto Bola de Ouro, vai restar a saudade. A agremiação, que tem 111 anos de vida, não vai desfilar. "A gente se despediu do carnaval por conta da nossa situação financeira. A gente tinha um projeto de ter uma sede própria, aí veio a pandemia, tudo foi por água abaixo, muita gente morreu, ficamos sem apoio nenhum e sem condições de desfilar mais", explica o atual presidente Robervaldo Ramalho.

No ano em que completou 100 carnavais, 2015, o Clube foi homenageado no Carnaval do Recife. Uma história que começou a ser escrita na Rua da Bola, no bairro de Santo Amaro, depois de uma dissidência entre os diretores da Troça Bola de Prata. O Bola de Ouro foi fundado em 15 de setembro de 1915. Da criação até 1954, todos os anos ia para a rua, desfilando com centenas de foliões vestidos de preto e dourado, as cores do clube, até que a diretoria da época decidiu aposentar a agremiação. Anos depois, o então presidente da Federação Carnavalesca de Pernambuco, Mário Orlando, entregou o clube para Luiza Ramalho, carnavalesca conhecida no bairro de São José, que ficou à frente do Bola de Ouro até morrer no ano em que o "Bola", como era carinhosamente chamado, completou 100 anos.

O atual presidente é filho de Luiza e herdou a paixão pelo clube. "O Bola de Ouro era a vida dela. Ela deixava tudo pela agremiação, podia faltar até comida em casa, mas o Bola tinha que sair naquele ano e acabou-se, não tinha esse negócio não. A gente saia com 250 figurantes, a gente pagava orquestra das melhores, passistas, só saia com coisa boa, estandarte, fantasia", relembra Robervaldo. Luiza morreu sem realizar o sonho de ter uma sede própria para o Clube. "A ideia era fazer um museu para guardar as memórias do clube. Tem muita história dos desfiles passados, dos temas, tem muita coisa", conta.

O último ano em que o Bola de Ouro mostrou sua beleza e fez história na passarela da avenida Dantas Barreto, onde acontece o desfile de agremiações, foi 2023. “Foi um baque pra história do carnaval, uma grande perda. Com 30 anos, o Clube ganhou 22 carnavais, empatou uma vez, tirou o terceiro lugar uma vez e o resto foi vice-campeão do Carnaval. E foi desprezado, ninguém mais apoiou”, desabafa o vice-presidente.

Um dos sistemas de apoio financeiro para as agremiações bancarem o carnaval é a subvenção carnavalesca. A verba é distribuída pela Fundação de Cultura do Recife, via edital, para 14 categorias como maracatus, escolas de samba e clubes de frevo. O valor varia de acordo com a modalidade e o posicionamento da agremiação no concurso do ano anterior, e vai de R$ 5.330,00 a R$ 25.648,00. O apoio financeiro é concedido, mediante inscrição, às agremiações participantes do concurso promovido pelo município ou que façam parte da programação carnavalesca e tenham sede na cidade há, no mínimo, cinco anos, ou no estado de Pernambuco há cem anos ou mais. No caso específico do Bola de Ouro, a Fundação disse que não houve inscrição no Edital de 2026.

Os versos de “Voltei Recife”, de Luiz Bandeira, citam “Toureiro”, “Bola de Ouro”, “As Pás”, “Lenhadores” e “Batutas de São José”. No Carnaval deste ano só o Clube das Pás e o Batuta de São José desfilam no concurso de agremiações. A ausência pode ser uma pausa, mas o frevo não para. Que a saudade que inspirou o compositor e trouxe Alceu pelo braço seja a inspiração para que, em breve, a pergunta do verso encontre novamente resposta nas ruas.

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