Carnaval

Bichos na folia e a causa animal: uma união que pode dar certo

O Bloco Capivara da Beira-Rio defende a preservação do mamífero, que habita o Capibaribe e dá nome à agremiação

TEXTO Cleide Alves

28 de Janeiro de 2026

O terceiro desfile do Bloco Capivara da Beira-Rio será realizado neste sábado (31/1), na Zona Oeste do Recife

O terceiro desfile do Bloco Capivara da Beira-Rio será realizado neste sábado (31/1), na Zona Oeste do Recife

Foto Divulgação

Nativos ou exóticos, os animais demarcam território no Carnaval: urso, boi, leão, zebra, cisne, elefante, pavão, gavião, piaba, siri, galo, capivara. Eles são muitos. Deve ter mais agremiação com nome de bicho do que batizada com espécies de flores, arrisca dizer o ambientalista e protetor de animais Alexandre Moura. A diversidade é grande, mas o que a bicharada ganha com essa exposição? “Os blocos, necessariamente, não estão relacionados com a causa ambiental, seria interessante se, além de atribuir o nome, fossem realizadas campanhas de sensibilização”, destaca Alexandre Moura.

“Qualquer tipo de atividade que possa ressaltar não apenas o animal para se fazer conhecer, mas principalmente suas características boas, tem um rebatimento bom na preservação das espécies, mesmo que seja uma agremiação de Carnaval”, afirma a bióloga Maria Adélia Oliveira. “Isso depende da forma como a ação é feita, seria bom se fossem associadas a uma campanha de proteção, que esclareça o porquê de usar o nome do bicho como símbolo ou bandeira”, acrescenta a bióloga.

Ela cita como exemplo o mico-leão, no Rio de Janeiro, onde há um trabalho perene de educação ambiental nas cidades de Silva Jardim e Casimiro de Abreu para conservação do primata, encontrado apenas no Brasil. “Não somente no Carnaval, mas em festas cívicas, no aniversário da cidade, as crianças são vestidas de mico-leão, chamando a atenção para a necessidade de defesa do animal”, destaca Maria Adélia, professora aposentada da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

No Recife, no fim dos anos 1980, a Associação Pernambucana de Defesa da Natureza (Aspan) criou o bloco Xica no Tanque, que saía entre o Caranguejo no Caçuá e o Siri na Lata. Era um protesto contra a situação vivida por um peixe-boi fêmea, exposta como atração na Praça do Derby, bairro da área central da cidade, num tanque exíguo. Sem espaço no recinto raso, o mamífero desenvolveu uma deformação na coluna. “O bloco foi uma iniciativa nossa para tirar Xica daquele tanque”, relata. A transferência para um espaço maior, na Ilha de Itamaracá (Grande Recife), aconteceu em 1992 e Xica morreu em 2015.

Iniciativa com fins ambientais começa a despontar com o Bloco Capivara da Beira-Rio, fundado em 2024 por um grupo de amigos, moradores dos bairros da Torre e da Madalena, na Zona Oeste do Recife. Este ano, após o Carnaval, a diretoria da agremiação pretende procurar a prefeitura para sugerir um projeto de defesa do mamífero roedor. “Nossa ideia é fazer um trabalho permanente de educação ambiental para equilibrar a convivência entre os humanos e as capivaras”, informa o diretor e criador da agremiação, Julio Leal.

“Capivara não é animal doméstico, as pessoas não podem brincar com elas e nem alimentá-las, um herbívoro só come capim”, ressalta Julio Leal. Os trios elétricos e a orquestra de frevo do bloco convidam os foliões a também se juntarem nessa ação educativa. O desfile será realizado em 31 de janeiro, às margens do Capibaribe - termo de origem tupi que significa rio das capivaras -, da Madalena até a Torre. A concentração começa às 12h na Praça José Mota Silveira e segue até a Praça José Sales Filho.

História

O uso de animais em nomes de agremiações vem de longe. O Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife, fundado em 1889, no século 19, adotou o camelo como símbolo em 1906, diz a historiadora e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco Rita de Cássia Barbosa de Araújo. No  livro Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascarada e frevo no Carnaval do Recife (Fundação de Cultura Cidade do Recife-1996), ela narra a polêmica entre os integrantes do clube pela escolha de um animal nativo da Ásia.

“Os adeptos no novo símbolo trataram, então, de esclarecer-lhe o significado, procurando dar sentido e legitimidade à situação. Criaram uma espécie de mito de origem, uma história lendária que se passava na Ásia distante, a respeito de um camelo e de seu dono”, escreve Rita de Cássia na obra. Na lenda, Aingo, um dromedário definido como um ser “humilde, incansável e parecia amar seu patrão como a um pai”, não resiste à morte do proprietário, com quem havia convivido por 50 anos, e sucumbe no mesmo dia.

De acordo com Rita de Cássia, o camelo no estandarte de Vassourinhas representava o trabalho, a força e a resistência. “Mas a versão mitificada do símbolo do clube transmitia outras mensagens, que procurava passar a ideia do trabalhador humilde, incansável, dedicado e fiel ao patrão, a quem se amava como a um pai. A lenda do Aingo ainda veiculava uma ideologia de valorização do trabalho braçal e da disciplina do trabalhador, concebendo a relação patrão-empregado como estando calcada no binômio submissão e paternalismo. Era esta a mensagem que a direção do clube desejava passar para os demais sócios e para a sociedade”, observa a pesquisadora no livro.

No aplicativo da revista Continente você pode ler mais sobre o assunto e ver a programação de desfiles de agremiações com nomes de bicho.