Da lama à vitrine: quando o ruído da musa das bets quase engoliu o Mangue na Sapucaí
TEXTO Bruno Albertim
18 de Fevereiro de 2026
Foto Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação
RIO DE JANEIRO - A Grande Rio entrou na Sapucaí às duas horas já da Quarta-feira de Cinzas levando o Manguebeat como ideia e como fantasia. Além de ornamento, o movimento foi método: território de conflito, invenção e crítica. O Recife elétrico da antena parabólica fincada no mangue apareceu como pensamento em movimento: o ideário político da cena musical do Recife dos anos 1990 foi ressaltado na abordagem do carnavalesco Antônio Gonzaga, reafirmando que o Manguebeat nasceu para tensionar centros de poder, não para decorá-los.
O desfile construiu um mangue político e urbano, onde caranguejos conviviam com circuitos, alfaias com metais, tradição com ruído. Bem construídas, tecnológicas e luxuosas, as alegorias contavam, sem recorrer ao estereótipo fácil do folclore, tanto manifestações da cultura popular pernambucana, como os caboclinhos e maracatus, às contradições sociais da cidade do Recife erguida sobre a lama soterrada dos manguezais e o pensamento político de Josué de Castro que inspiraram Fred Zero Quatro na execução do manifesto estético-musical.
A herança de Chico Science e de toda uma geração surgia menos como homenagem nostálgica e mais como método: fazer do conflito linguagem. A iconografia do movimento resultou em alegorias como caranguejos gigantes com antenas na cabeça, emaranhados de mangues que viram veias e clipes projetos num mosaico de telas eletrônicas.
A escolha estética ganhou densidade quando colocada em perspectiva com a própria história da escola. Fundada em 22 de setembro de 1988, em Duque de Caxias, a Acadêmicos do Grande Rio nasceu da fusão de agremiações locais com o objetivo explícito de levar o samba da Baixada Fluminense ao centro do carnaval carioca.
Sob a liderança inicial de Milton Perácio, a escola teve ascensão meteórica, saindo da terceira divisão ao Grupo Especial em apenas dois anos. Ao longo desse percurso, construiu uma identidade ambígua: potência competitiva e, ao mesmo tempo, a chamada “Escola das Estrelas”, marcada pela recorrente centralidade de celebridades em seus desfiles. O título de 2022, com o enredo sobre Exu, parecia indicar um ponto de maturação simbólica — a possibilidade de conciliar espetáculo, densidade cultural e leitura crítica do Brasil.
Foi nesse contexto que a Grande Rio decidiu pela homenagem. O enredo “A Nação do Mangue”, anunciado em meados de 2025 para o Carnaval de 2026, surgiu com a chegada de Antônio Gonzaga como carnavalesco em sua primeira empreitada solo no Grupo Especial.
A escolha do tema não foi casual: movimento urbano e periférico nascido no Recife dos anos 1990, o Manguebeat oferecia um espelho conceitual para uma escola oriunda da Baixada, também marcada por desigualdade, inventividade e fricção constante com os centros hegemônicos. Ao longo do segundo semestre de 2025, o enredo se consolidou na escolha do samba, nos ensaios e na aposta simbólica na lama, no caranguejo com cérebro e na fusão entre tradição popular e tecnologia.
A POLÊMICA DA RAINHA DE BATERIA

No entanto, fora da lógica do enredo, instalou-se o ruído que quase engoliu a narrativa. A estreia de Virginia Correia como rainha de bateria chegou à avenida sob uma avalanche de comparações com Paolla Oliveira, uma entidade celebrada pela técnica, entrega corporal e domínio do samba no pé. A discussão pública rapidamente desviou do mangue, do Recife e do projeto cultural do desfile para se concentrar na figura da nova rainha, cuja performance foi lida como distante do pulso orgânico da bateria.
A polêmica ganhou contornos mais graves com o vínculo explícito de Virginia, fenômeno na internet, com plataformas de apostas esportivas, num momento em que o País debate os efeitos sociais das bets. O contraste simbólico foi quase didático: enquanto o enredo evocava um movimento nascido da crítica à lógica predatória do capital e da exclusão urbana, o rosto mais visível do desfile remetia justamente a um mercado acusado de capturar renda, desejo e vulnerabilidade.
Esse descompasso não foi lateral. Quase abafou o interesse pelo enredo. O manguebeat, que exige escuta, densidade e leitura de camadas, disputou espaço com a lógica da celebridade, do engajamento instantâneo e da vitrine. A lama — espessa, crítica, incômoda — precisou lutar contra o brilho fácil. Na entrada e na saída da avenida, a madrinha de bateria foi vaiada por parte das arquibancadas.
De uma beleza e preparo físicos proverbiais, a moça de 26 anos virou o assunto deste Carnaval em como esperado, entregou pouquíssimo samba no pé, cujos movimentos foram ainda mais dificultados por um lindo e pesadíssimo espaldar de penas vermelhas nas costas. O adereço pesava 12 quilos e precisou ser abandonado pela madrinha na metade do desfile. Pernambucanos como Fred Zero Quatro e Louise França, filha de Science, tiveram presença discreta e reverenciosa nas alas. Mas fez falta uma presença mais maciça de pernambucanos ligados ou derivados do movimento.
Se houve coerência nessa fratura, é porque o manguebeat sempre operou no conflito. Nunca prometeu harmonia. A diferença é que, desta vez, a tensão não estava apenas encenada nas alegorias, mas atravessava o próprio dispositivo do carnaval contemporâneo. A Grande Rio apresentou um projeto estético ambicioso e politicamente legível, mas também expôs os limites de uma escola que oscila entre projeto cultural e economia da fama.
Na Sapucaí, o mangue passou. Mas passou disputando atenção. E talvez essa disputa — mais do que qualquer carro alegórico — tenha sido o comentário mais atual sobre o Brasil que desfilou naquela noite.
Primeiro casal da Grande Rio Daniel Werneck e Taciana Couto. Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação
Evandro Malandro puxou a Grande Rio na Sapucaí com ritmo e energia. Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação
Colorido deslumbrante e cheio de contraste mas alegorias e fantasias no desfile da Grande Rio/Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação
Homenagem ao mestre Salustiano no desfile da Grande Rio/Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação

DEPOIMENTO
“Ainda está caindo a ficha de tudo, de toda a experiência, da experiência global que eu tive. Mas, sintetizando, é o seguinte: primeiro, eu nunca tinha participado, não sabia como funcionava o roteiro. Então, tem o primeiro estágio da concentração, onde a gente ainda estava aguardando chegar a nossa vestimenta, onde você já fica totalmente deslumbrado com a riqueza da alegoria do carro alegórico - “caranguejos com cérebro” é o nome do carro. É absurda a riqueza, a delicadeza das cores e a riqueza de detalhes.
Você vê que o carnavalesco realmente conseguiu sintetizar. Ele fez uma imersão profunda no universo do Manguebeat e isso me deixou muito emocionado, logo no início. Depois, tem um encontro com as pessoas. Encontrei Lírio Ferreira, Débora Colker, o pessoal de artes plásticas do Rio e de Pernambuco também, como Evêncio Vasconcelos, e o pessoal do Mangue que fazia tempo que eu não via, como o pessoal do Lamento Negro. Enfim, foi toda aquela preparação psicológica e emotiva para entrar no clima do desfile.
Tem uma coisa que eu realmente fiquei surpreso. É que você é submetido a uma prova de resistência mesmo, porque entre o horário que chega supostamente já alimentado na concentração e a hora que o carro sai, ou seja, que você começa a se movimentar em direção ao Sambódromo, são horas e horas, e você já entra no clima do desfile um pouco debilitado, com isso.
No meu caso, foi mais grave, porque, apesar de fazer meses que eu estava numa saúde muito boa, nunca mais tinha tido nada, nenhuma gripe, nada que me debilitasse, mas, por incrível que pareça, parece que é um carrego… Eu passei algum tempo anunciando esse desfile, então parece que existe uma coisa, quem acredita nesse tipo de coisa de espiritualidade, parece que tem um olho grande. Incrível, no dia que eu estava pra sair para o aeroporto para participar desse desfile, pela primeira vez em meses, eu acordei arriado a espirrando com rinite, coriza. Nunca mais eu tinha viajado desse jeito, arriei mesmo. Cheguei lá tive que tomar anti-alérgico e não cheguei lá pra concentração com a minha carga máxima de energia.
Por conta disso, então, pra mim foi um esforço crítico que eu tive pra resistir a essa demanda de energia. Então, você já entra depois de horas sem comer. Às vezes, a gente tinha que suplicar por uma água e a turma jogava lá para cima. Mas eu estava empolgadíssimo por conta da beleza das fantasias, dos carros. Embora uma coisa estranha é que quem desfila num carro, no nosso caso, era o quarto carro, você não tem a menor noção do que é o contexto geral do desfile, você não vê a comissão de frente pronta, você não vê a bateria pronta, você não vê nada. Aí tem esse lado estranho, bizarro, você começa a desfilar e a cantar mal ouvindo o sistema de som, nem nada de bateria, de nada. Mas, aí, quando entra na Marquês de Sapuca mesmo, caramba, é muita emoção, é muita emoção.
E você tem que se superar, porque a exigência é absurda. É como se fosse um rap de 80 minutos, aceleradíssimo o ritmo. Porque o rap, às vezes, você canta rápido, mas a batida é lenta. Então, isso aí é uma batida aceleradíssima e você não tem pausa entre o último verso e o primeiro. É um loop intermitente com BPM aceleradíssimo e que você não tem pausa para respirar. Então, acho que esses puxadores são realmente protegidos pelos orixás para poder conseguirem chegar até o final ali, naquela aceleração e sem parar. Quer dizer, tem um backing vocal ali que alterna um refrão ou outro e dá uma respirada. Mas, no nosso caso, às vezes a bateria dá aquelas paradas, pausas estratégicas para sobressair o canto. Então, você não pode se dar ao luxo de passar um minuto sem cantar porque, a qualquer momento, a bateria pode parar e você tem que estar cantando. Então, isso aí realmente foi meio rígido demais, em termos de demanda de energia, sabe? Mas, eu poderia ter ido para o hospital, poderia ter acordado no hospital tomando soro, mas teria valido a pena e eu teria acordado com a alma lavada, porque Chico merecia mesmo muito, muito isso e há muito tempo."
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Fred Zero Quatro
Compositor, vocalista da Mundo Livre S/A e autor do manifesto "Caranguejos com Cérebro", que inspirou o desfile da Grande Rio