Pernambuco também dá samba: a força das escolas na terra do frevo
Agremiações de enfrentam rotina pesada na preparação para os desfiles de Carnaval do Recife. Relação de Pernambuco com escolas do Rio de Janeiro são históricas
TEXTO Rafael Pimenta
09 de Fevereiro de 2026
Desfile da Escola de Samba Galeria do Ritmo no Carnaval de 2024 homenageou o circo na Avenida Guararapes
Foto Wesley d'Almeida
Mais de 2.300 quilômetros de distância separam a Avenida Dantas Barreto, no centro do Recife, da badalada Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Mas, quando a bateria das escolas de samba pernambucanas começa a rufar, o compasso é o mesmo: a paixão e a garra pelos desfiles de carnaval. É entre a Rua Siqueira Campos e a Praça da Independência, a passarela onde o samba feito nas comunidades do Recife, brilha e resiste às dificuldades, ao cansaço de uma rotina pesada para que tudo saia perfeito no dia do desfile, e garanta à escola, o tão sonhado título de “campeã”.
“Eu estou virando noite, passo pela minha casa, minha vida agora é o barracão. São 24 horas respirando o Carnaval”, conta o carnavalesco da Gigante do Samba, Renatinho Swarovski. A Escola foi fundada há 83 anos, no bairro de Água Fria, foi 62 vezes campeã do carnaval pernambucano, e conquistou 12 títulos consecutivos. Para 2026 o enredo é “Rivaldo Lacerda, o presidente nota 10”, uma homenagem ao carnavalesco que foi presidente da agremiação de 2009 a 2017. “A gente vai com 1.800 componentes, divididos em 14 alas e 4 carros alegóricos com fantasias de pequeno e grande porte. Tem destaque com esculturas, penas de pavão, plumas”, entusiasma-se Swarovski.
Para o carnaval da escola, até agora foram gastos R$ 280 mil com despesas como mão de obra do barracão, costureiras, aderecistas, fora as despesas no dia do desfile que fica em torno de R$ 12 mil. “Nem todo mundo tem condições de ir por conta própria, então tem de alugar ônibus, carro baú para as fantasias maiores, o guincho dos carros alegóricos, é uma despesa alta. E 70% da comunidade ganham a roupa e o sapato.”, explica a presidente Marize Félix. Pra arrecadar dinheiro contam com uma subvenção de R$ 25 mil (paga em duas parcelas pela Fundação de Cultura do Recife), pedem ajuda aos comerciantes do bairro e fazem festas na quadra.”É dificuldade, é luta e muito trabalho. E tem o amor das pessoas que supera tudo.”, afirma Marize.
É o amor pela dança, especialmente o samba, e ao pavilhão da escola com as cores verde e branca, que move Claudiane Barbosa Ferreira, a Cacau. Há quatro anos é a rainha da “rolo compressor”, como é conhecida a bateria da Gigante. Ela, além de representar a comunidade e levar o carisma pra avenida, faz um trabalho social nas noites de terça e sexta (dias de ensaio), dando aulas de samba no pé, de graça, formando passistas no projeto Recife Samba Show. “O samba é história, é referência no carnaval, é muito rico, então é uma honra pode fazer parte dessa cultura maravilhosa”.
Azul e branco do Morro da Conceição
No cenário do carnaval do Recife, a Galeria do Ritmo impõe o samba com a força de quem vem do alto. Há 64 anos, a escola fundada no Morro da Conceição veste azul e branco para representar a paixão pela comunidade. E é na rua, entre os moradores, em frente ao Palácio do Samba, onde acontecem os ensaios nas noites de terça e quinta-feira.
A escola tem 32 títulos, sete deles consecutivos. O enredo para este ano é “Petrolina, uma história para se contar”, uma homenagem a cidade do sertão pernambucano. “A escola vem com 1.100 integrantes distribuídos em 10 alas e cinco carros alegóricos. Há 40 dias o trabalho é dia e noite”, explica o atual vice-presidente Alexandre Inácio.
Para o carnaval deste ano, a Galeria fez uma parceria com 20 grupos culturais das comunidades da zona norte do Recife. A comissão de frente é composta por integrantes da quadrilha Junina Tradição, que é do Morro da Conceição. “São 10 pessoas que representam as tribos do sertão. É uma experiência diferente. Na comissão de frente a gente incorpora o personagem. Na quadrilha junina é a coreografia”, conta Tarcísio Vieira, coreografo que está há oito anos na Escola e na quadrilha há mais de 20. “São emoções distintas. Na Escola é uma emoção única, com mais técnica. Na quadrilha são várias apresentações várias emoções”, destaca.
Falta dinheiro
A Galeria do Ritmo passa por um processo de reestruturação. Depois do desfile do ano passado, que homenageou Nossa Senhora da Conceição, houve um “racha” entre os integrantes da Escola. “A gente tá recomeçando tudo e a dificuldade é grande. As despesas são de R$ 340 mil e falta dinheiro. A subvenção não dá pra arcar e a gente tem de correr atrás de show, para arrecadar verba”, afirma Alexandre Inácio.
O atual presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Pernambuco (Liespe) e presidente da Escola Limonil, Chiquinho Limonil, também reclama da falta de dinheiro. “Das sete escolas do grupo especial, três não vão desfilar: Rebeldes do Samba, Estudantes de São José e Pérolas do Samba. Todas com problema financeiro, não tiveram como bancar o desfile. Vão se apresentar só na comunidade porque receberam só parte da subvenção e não garante o desfile. Isso é muito triste.”
A Fundação de Cultura do Recife disse que um dos mecanismos públicos de apoio financeiro a agremiações da cultura popular é a subvenção, distribuída em 14 modalidades, entre elas Afoxés, Blocos, Caboclinhos, Bonecos, Maracatus e Escolas de Samba. O valor varia de R$ 5.330,00 a R$ 25.648,00. Também informou que existe ainda a premiação dos concursos. No caso das Escolas de Samba os valores são de R$ 30.000 (primeiro lugar), R$ 25.000 (segundo) e R$ 15.000 (terceiro) e além dos cachês, premiações e subvenção, há ainda editais sistemáticos, como os do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). O desfile das escolas que vão conseguir ir para a avenida, é na segunda-feira de carnaval. As apresentações começam às 22h30, na seguinte ordem: Mocidade dos Torrões, Limonil, Gigante do Samba e Galeria do Ritmo.
Passo de mestre: arte e inclusão no samba

O pavilhão de uma escola de samba não é apenas tecido e bordado. É o símbolo máximo e sagrado, representa a alma, as cores, a história e na Gigante do Samba, a inclusão. José Félix Paulino, conhecido como Xangai, tem 30 anos e começou a frequentar a quadra ainda criança. A síndrome de Down é um detalhe perto do talento e de desenvoltura dele, na condução da porta-bandeira Ju Fernandes. “Eu ensaio todos os dias, três horas por dia, em casa e na quadra”, conta Xangai.
Ele toca tamborim, surdo, caixa e mexerica (um tipo de berimbau) e antes de ser o primeiro mestre-sala, foi mestre de bateria da Gigante Mirim. “É preciso ter o molejo, saber conduzir a porta-bandeira, apresentar o pavilhão ao público, ter simpatia”, entrega Xangai. O mestre-sala aprendeu os passos sozinho. “Eu via os vídeos, depois comecei na quadra e a ir para as apresentações da escola.”
A paixão pela Gigante é tão grande que Xangai, funcionário da Biblioteca da Faculdade de Medicina de Olinda, doou o décimo terceiro salário para comprar as roupas do desfile para e ele e a parceira. “Meu sonho é ganhar o título, é ser um mestre-sala cada vez melhor”.
Samba Sem Fronteiras: a relação histórica entre Rio de Janeiro e Pernambuco
Duas cidades, uma só paixão. Hoje, a relação entre as escolas de samba do Rio de Janeiro e as do Recife é um diálogo constante entre a 'vitrine do mundo' e a força das comunidades locais. “Dos anos de 1960 para cá, considerando apenas o Grupo Especial, Pernambuco foi enredo, ou citado diretamente em 28 desfiles. Esse fascínio pode ser explicado pelo protagonismo histórico do estado na cultura, na economia”, afirma o jornalista e pesquisador Rodrigo Hilário.
O pernambucano trabalhou em escolas de samba como Beija-Flor, Unidos da Tijuca e Império da Tijuca. Nesta última fez a pesquisa para o enredo sobre Lia de Itamaracá. “A ideia nasceu quando ela ia completar 80 anos. Foi um trabalho baseado na discografia, entrevistas na década de 60, conversas mais recentes. É um recorte da vida do homenageado com as referências históricas.”, explica.
Assim como Lia de Itamaracá, outras personalidades como Dona Santa, o Mestre Vitalino, Barbosa Lima Sobrinho, e mais recentemente a obra de Chico Science e o movimento manguebeat inspiraram desfiles cariocas. “A nação do Mangue” é o tema deste ano do carnaval da Grande Rio. "Caxias, chegou a hora de seus mangueboys e manguegirls. Vamos vestir o manifesto das margens e coroar seus meninos caranguejos. Vamos fincar nossas lanças e nossas antenas na lama. Nosso mundo livre começa agora. Salve o Manguebeat!", escreveu a escola em suas redes sociais.
No carnaval do ano passado, a Unidos do Viradouro, levou pra Sapucaí o enredo “Malunguinho: o mensageiro de três mundos”. A escola fez uma homenagem ao pernambucano João Batista, lendário líder do Quilombo Catucá, na mata norte, e foi eternizado como entidade sagrada nos terreiros de jurema de Pernambuco como Malunguinho.
Integrantes da Unidos da Viradouro estiveram em Pernambuco como parte da pesquisa e preparação para o enredo. Foi uma experiência maravilhosa por conta das vivências que tivemos. Fomos em 10 casas de culto a Malunguinho no Recife, Olinda e Paulista. Estivemos no Caboclinho 7 Flexas, e eles foram extremamente generosos. Saímos do Rio e voltamos outras pessoas”, conta o pesquisador João Gustavo Melo.
“Nessa visita a Pernambuco, buscamos entender a dimensão histórica e mística de Malunguinho, focando na luta libertária, na resistência contra a escravidão e na sua importância na religiosidade nordestina. Tivemos contato com o professor Marcos Carvalho, da Universidade Federal, que descobriu que a figura de Malunguinho realmente existiu”, explica João Gustavo Melo.
O desenho base do cartaz oficial do enredo foi criado por Brunna Félix do Carmo, uma estudante de 16 anos de Pernambuco, que teve a oportunidade de interagir com o barracão da escola. A Viradouro levou para Sapucaí, 70 juremeiros, mestres e mestras da Jurema do estado para participar do desfile, e levar autenticidade ao enredo.