"O Agente Secreto" na Rua da Aurora é a celebração do audiovisual em Pernambuco
TEXTO Cleide Alves
16 de Março de 2026
A Rua da Aurora viveu uma noite de Carnaval no domingo do Oscar
Foto Cleide Alves
Uma noite para ficar na memória. Essa foi a frase mais pronunciada no Centro do Recife, no domingo (15/03), logo após o encerramento da 98ª cerimônia de premiação do Oscar, que teve transmissão simultânea no Cinema São Luiz e num telão na Rua da Aurora, em clima de Carnaval. “O agente secreto (longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho) não ganhou, mas não vejo motivo para frustração, temos de celebrar o potencial do audiovisual pernambucano e o protagonismo do nosso cinema”, declara Elaine Oliveira, pós-graduanda em Comunicação Visual pela Universidade Católica de Pernambuco.
Moradora da Bomba do Hemetério, bairro da Zona Norte do Recife, ela fez questão de acompanhar a premiação até o fim, na festa "Pernambuco no Oscar", promovida pelo governo do Estado. “Nós mostramos como se faz uma ótima campanha de divulgação de filme, valeu muito a pena ter participado desse momento singular do cinema”, diz Elaine Oliveira. Jornalista e revisor de textos, Bruno Gomes também marcou presença na Rua da Aurora, com a multidão que tomou conta da via, às margens do Rio Capibaribe, e tem opinião semelhante.
“Não há nenhuma sensação de frustração, mas sim de orgulho de ser e viver o que o recifense e o pernambucano têm de mais genuíno: o amor à nossa identidade cultural. O agente secreto, de Kleber Mendonça, veio coroar esse sentimento, sobretudo, para a produção cinematográfica no estado, incentivando à formação e à produção do cinema pernambucano, que tem história, que remonta à Aurora Filmes”, destaca Bruno Gomes. O longa concorria a melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator (Wagner Moura) e melhor direção de elenco.
O ator Kaiony Venâncio, intérprete de Vilmar, o matador no longa-metragem, veio de Natal (RN), onde mora, para assistir à cerimônia da maior premiação do cinema, transmitida no São Luiz. Na Rua da Aurora, a cada passada ele era abordado por fãs para posar em fotos e gravar vídeos. “Foi uma ótima surpresa receber todo esse carinho, não imaginava que teria tanta gente”, comenta Kaiony Venâncio. “Não temos poder sobre a votação, mas já sou premiado por estar aqui nessa noite, e se tivesse Oscar de acolhimento, vocês ganhariam o prêmio.”
Sentada numa das poltronas do São Luiz, a arquiteta e urbanista Amélia Reynaldo fez a seguinte observação: “Mais importante do que o resultado da Academia, é o reconhecimento do Centro do Recife nos filmes de Kleber Mendonça Filho. Em sua trajetória no cinema, ele mostra o Recife, suas mazelas, suas peculiaridades, seu cotidiano, as questões imobiliárias. A sensação que eu tenho é de que o País já premiou O agente secreto, um filme que evidencia aquilo que a cidade tem de mais precioso, seu centro antigo.”
A festa “Pernambuco no Oscar”, organizada pela Secretaria de Cultura (Secult-PE) e pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), começou às 18h30 e terminou por volta da meia-noite, com programação gratuita. “Independentemente do resultado da premiação, esse é um momento inesquecível. O Cinema São Luiz, que recebeu os pernambucanos para a transmissão da cerimônia do Oscar e serviu como locação para O agente secreto, é o templo do nosso audiovisual”, ressalta a presidente da Fundarpe, Renata Borba.
“Considero o São Luiz, um cinema público de rua, o monumento tombado mais apropriado pelo povo de Pernambuco”, afirma Renata Borba. “A noite de hoje (15/03) é extraordinária e vai ficar na memória porque juntou o povo, o patrimônio material e o patrimônio imaterial”, acrescenta, numa referência ao cinema, inaugurado em 1952, e à Troça Pitombeira dos Quatro Cantos, de Olinda, uma das atrações culturais da festa. A premiação da Academia é realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles, na Califórnia.
Para a pesquisadora de cinemas de rua Kate Saraiva, a transmissão da cerimônia no São Luiz, com direito a tapete vermelho na Rua da Aurora, foi emocionante. “Ver a potência do cinema pernambucano na tela é incrível”, declara. “Não podia deixar de estar aqui, nesse dia histórico, de muita energia e vibração, numa festa linda e criativa”, arremata a documentarista Leila Jinkings, mãe da atriz Maeve Jinkings, que fez parte do elenco do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, lançado em 2013.
CLEIDE ALVES, jornalista.