Artigo

Ciência e arte, abstração e razão

A experiência estética como caminho de conhecimento, sensibilidade crítica e humanidade na formação do médico e a compreensão do seu papel no mundo

01 de Abril de 2026

Fora da especificidade dos diferentes domínios artísticos, a formação médica é, sem dúvida, a que permite as melhores incursões nas sete artes, a saber: arquitetura, escultura, pintura, música, literatura, dança e o cinema. Este foi incorporado a esta lista, como a sétima arte, em 1923, quando publicado o “Manifesto das sete artes” escrito pelo intelectual italiano Ricciotto Canudo. E por que aos médicos é dado esse privilégio? Porque a arte, inexaurível que é, permite, além da observação e da fruição, um compreender maior da intervenção do homem, desde sua capacidade de criar, de recriar e, até mesmo, a de destruir. 

Segundo Umberto Eco, “belo, encantador, bonito, maravilhoso, sublime, soberbo” são termos utilizados para indicar qualquer coisa que nos dê prazer. “Nesse sentido belo é igual a bom, e as diferentes épocas históricas não se furtaram a estabelecer uma ligação estreita entre esses dois conceitos.”

Nossos desejos são estimulados por algo bom, bonito, um bem, seja qual for. No caso de nós, médicos, ao realizarmos ou evocarmos algo bom, o fazemos com gosto especial de compartilhar, quase idealisticamente. Como a maioria dos seres humanos, podemos ser ensinados a pensar, a fazer, a conhecer, porém não podemos ser ensinados a sentir. Isso é da nossa natureza, como dos seres vivos, e cabe-nos, com a consciência, que é só nossa, conciliar intuição e vontade.

Camus nos ensina –  Au milieu de l’hiver, j’apprenais enfin qu’il y avait en moi un été invincible. “No meio do inverno, finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível”

É preciso entender que a arte é campo infinito, imprescindível ao desenvolvimento da expressão pessoal, social e cultural, uma vez que toda ela é capaz de articular o imaginário, a razão e a emoção. Arte, podemos dizer, nestes tempos de transdisciplinaridade e de inteligência artificial, é, conceitualmente, o que estimula a capacidade crítica e o entendimento de princípios estéticos e históricos, através da observação e leitura, tornando-nos mais sensíveis, mais criativos e menos estereotipados nas experiências socioculturais que vivemos.

No fundo, a vida é um longo e apaixonante despertar, um buscar permanente de nós mesmos e de nosso lugar no mundo, sempre em ebulição. A grande jornalista e escritora Dorrit Harazim cita, em um de seus recentes artigos, que “se adiássemos a busca do conhecimento e a procura do belo até haver alguma paz, nem sequer as pinturas rupestres existiriam”. Ou seja, neste mundo de conflitos e tensões permanentes, nos são dados o direito e o dever de admirar o que o homem foi e é capaz de criar, bem mais do que numa contemplação passiva, ou numa “pedagogia do ver”, segundo a definição usada pelo filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, uma voz inovadora da atualidade, em seu livro Sociedade do cansaço.

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