Usina de Arte lança livro em comemoração aos 10 anos de trajetória
Obra assinada pelo jornalista, curador e antropólogo Bruno Albertim será lançada na quinta-feira (15/10), na Art PE
TEXTO Carol Botelho
09 de Outubro de 2026
Prédio da antiga destilaria da usina ressignificado com letreiro assinado por Alfredo Jaar
Foto Andrea Rêgo Barros
“O velho mundo está morrendo, o novo tarda a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”. A frase em néon ocupa os 18 metros do topo do prédio da antiga destilaria da extinta Usina Santa Terezinha. Escrita pelo maior pensador político italiano do século 20, Antonio Gramsci, durante seu período nos cárceres fascistas de Mussolini, ela ganha novo significado na obra Claro-Escuro (2015), do chileno Alfredo Jaar. “Estamos passando de uma revolução industrial para uma revolução tecnológica. É uma mudança muito impressionante, mas muito desigual. Continuamos a viver num mundo desigual e racista”, disse Jaar ao autor do livro Usina de Arte: construção de uma utopia -10 anos, pela Cepe Editora.
Nossa Inhotim nordestina é uma criança precoce que já conseguiu transformar sua curta vida em 304 páginas ricamente ilustradas publicadas pela Cepe Editora e assinadas pelo jornalista, curador de arte e antropólogo Bruno Albertim. Sobre a obra de Jaar, que ocupa a usina desde 2023, Bruno escreveu: “A instalação da obra revela alguns dos eixos que passariam a orientar o projeto da Usina a partir dali: a internacionalização e, mais que isso, uma politização mais evidente de seu acervo”.
A história de ascensão e queda da aristocracia pernambucana do açúcar se vê misturada com a história do estado, do Brasil e do mundo, como também das artes. Esta que vem justamente para questionar desigualdades sociais e econômicas abismais, colonização e monopolização, através de obras que discutem poder, exploração, memória e apagamento histórico. “Centro ou periferia, o ambiente jamais será neutro”, escreve Bruno.
Aquela usina opressora, que já moeu cana e explorou vidas, agora produz conhecimento e integração comunitária. O solo infértil e sofrido por tantas queimadas se recuperou e ganhou um exuberante jardim botânico para acolher visitantes e a comunidade de Água Preta, na Zona da Mata, a 150 quilômetros do Recife.

O projeto idealizado pelo casal Bruna e Ricardo Pessôa de Queiroz levanta a bandeira da educação para derrubar a barreira entre arte, natureza e comunidade, fazendo parte do cotidiano. Muita gente vai para lá passear com a família, fazer piquenique, festa de aniversário, ou simplesmente para contemplar arte e natureza como uma coisa só. Muitos jovens da comunidade ou filhos dos trabalhadores da antiga usina têm suas histórias narradas por Bruno, e agora fazem parte do trabalho constante de educar.
O livro fala de pequenos empreendedores como dona Rosilda e - do plantio no Parque Botânico à mediação de visitantes, ales cresceu com a Usina de Arte - Iraquitan voltou à Santa erezinha para empreender e construir um futuro sem migração.
Nas páginas ricamente ilustradas com fotografias do espaço e das obras, ficamos sabendo que a usina iniciou suas operações em 1929, pelo já bem-sucedido comerciante, empresário da imprensa e industrial paraibano José Pessôa de Queiroz (1881-1971).
“No começo da década de 1930, Recife não podia ser considerada exatamente uma cidade tranquila. Marcada pelos contrastes entre modernização urbana, tradições coloniais e tensões políticas, vivia um momento dilatado de transição social, econômica e cultural, com o declínio das oligarquias agrárias e a lenta ascensão das classes médias urbanas”, contextualiza Bruno. A quarta maior cidade do Brasil era predominantemente analfabeta (75%).
Arruinada pela economia e pelo governo militar, a usina fechou. Mais tarde, o bisneto de José Pessôa de Queiroz, Ricardo, voltou a pisar na usina, já ao lado de Bruna, sua esposa mais jovem e prima de segundo grau.
A primeira ideia era fazer daquela terra um espaço cultural. Nascia, em 2015, o Festival Arte na Usina, que reuniu 20 artistas brasileiros em um projeto de residência artística. O casal contou com as preciosas parcerias do artista visual e co-curador do festival, o paulista Fábio Delduque, do designer gaúcho Hugo França, da produtora Bárbara Maranhão e do artista visual paraibano José Rufino. Este último ajudou a pensar projetos curatoriais, o parque de esculturas e as residências.
Nesse período, o pensamento que orientava suas ações dialogava com o princípio da escultura social, formulado pelo artista alemão Joseph Beuys, e com o conceito de arte útil, desenvolvido pela artista cubana Tania Bruguera, segundo os quais a arte não deve existir apenas como objeto simbólico, mas como ação capaz de produzir relações, conhecimento e transformação social.
Na usina, essas ideias deixavam de ser teoria e passavam a fazer parte da vida cotidiana, com oficinas, aulas, visitas de estudantes, encontros com professores e trabalhadores, residências artísticas e obras construídas coletivamente.
Uma boa dose de páginas é dedicada aos artistas que lá instalaram suas obras. Chamado de Galeria Viva, o capítulo traz uma breve biografia dos 38 artistas e suas obras em ordem alfabética. Capítulos especiais são dedicados à Diva, da pernambucana Juliana Notari, e ao muro criado por Marina Abramovic, Generator (2024).
A agora monumental vagina/ferida a ocupar um gigantesco morro da Usina de Arte alçou Juliana a ser conhecida mundialmente. Mas às custas de um ódio feroz pela obra que criou. “Diva foi assunto em universidades latino-americanas e europeias, e pauta em jornalões centenários como o inglês e Guardian ou o francês Le Monde”.
Bruno escreve também que, em uma rede social, o remetente informava, sob anonimato, estar disposto a realizar aquilo que, na visão e no desejo dele, a mãe da artista deveria ter efetivado. “Se sua mãe não teve coragem de fazer isso na hora certa, posso fazer agora, com atraso, o que ela não fez. Você deveria ter sido abortada”, dizia a mensagem.
O livro também revela como se deu o contato com a popstar da arte contemporânea Marina Abramovic. Em 2023, a artista sérvia se tornou a primeira mulher, em 255 anos de existência da Royal Academy of Arts, a ocupar suas principais galerias. O curador da usina, o francês Marc Pottier já havia trabalhado com Marina na Bienal de Veneza, e mediou o contato entre ela e Bruna e Ricardo.
“Quando surgiu no pequeno quadrado que lhe cabia na tela, Marina Abramović foi direto ao ponto: ‘Por que vocês acham que eu deveria gastar meu tempo criando uma obra para o parque de vocês?’ Diante da artista que admirava desde a adolescência com a devoção reservada aos ídolos pop, Bruna Pessôa de Queiroz sentiu o inglês ensaiado desaparecer. Coube a Ricardinho, com a serenidade de quem pouco tinha a perder além de uma recusa, responder sem rodeios: ‘Porque não somos apenas um parque de arte. Esta terra viveu o apogeu e a decadência da cana-de-açúcar. Agora, ressurge pela arte’."