Cinco exposições para ficar de olho neste mês de maio
Menções ao Dia do Trabalhador, à arte dos povos originários José Rufino e Ana Maria Maiolino são destaques
28 de Abril de 2026
A artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino em performance realizada em Lisboa
Foto Joana Linda, cortesia Fundação EDP-MAAT
Fizemos um top 5 de exposições de artes visuais que valem a pena conhecer assim que o mês de maio der o ar de sua graça. A começar pelo primeiro dia, dedicado aos trabalhadores, sejam artistas, sejam empregadas domésticas. Do Recife, passando pela Paraíba, São Paulo e Rio de Janeiro, confira a produção dos povos originários da América Latina, a performance da artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino, e as releituras da memória e do tempo nos trabalhos do paraibano José Rufino.
1 -EM OBRAS
No próximo 1º de maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, será aberta ao público a exposição coletiva EM OBRAS. Vinte e seis artistas conectam arte, trabalho e direitos, na Casa do Cachorro Preto, em Olinda, às 17h.
A coletiva reconhece o trabalho como base da construção social, econômica e cultural do país, afirmando que a arte também é trabalho, ao contrário do que muitos ainda pensam. Artistas de diferentes trajetórias, todos trabalhadores da arte, abordam temas como criação, sustento e dignidade, a partir de linguagens e técnicas variadas como pintura, escultura, ilustração, desenho, objeto, intervenção e grafite. A mostra também fala da urgência em romper com uma lógica que exaure corpos e esvazia sentidos.
Artistas participantes:
Awa'ra Ira Miranda, Ayodê França, Beto França, Bia Melo, Carolina Noêmia, Clériston, Dell, Demetrio Albuquerque, Duffi, Fernando Duarte, Lorde Jimmy, Luan Nascimento, Luciene Torres, Nathalia Queiroz, Nomes, Oluyiá França, Pedro Melo, Rantonho, Raoni Assis, Rebecka Zamalli, Ritinha Oliveira, Rodolfo Tavares, Romulo Barros, Shell, Shiko e Sil Karla.
Curadoria, produção, montagem e comunicação: Coletivo Casa do Cachorro Preto: Maiara Lira, Raoni Assis, Sheila Oliveira, Tauana Pimentel com participação de Duffi
Serviço:
Abertura: 1º de maio (Sexta-feira), às 17h
Local: A Casa do Cachorro Preto (Rua Treze de Maio, 99 - Sitio Histórico - Olinda/PE)
No som - Pokas ideias (@ideiaspokas)
2 - Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello
Ao entrelaçar diferentes linguagens, a mostra apresenta a história de Laudelina de Campos Mello (1904-1991), liderança fundamental pela valorização e reconhecimento dos direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil, além de importante militante na luta antirracista.
A mostra gratuita acontece no Instituto Moreira Salles (IMS) Paulista e reúne aproximadamente 160 itens, entre fotografias, matérias de imprensa, vídeos e outros documentos. Apresenta também obras de cerca de 40 artistas, como Maria Auxiliadora, Rosana Paulino, Walter Firmo, Djanira, Dyana Santos, Silvana Marcelina, Dayane Tropicaos, Mulambö, Gê Viana, Manuela Navas, Emicida e Arjan Martins, incluindo trabalhos feitos especialmente para a mostra.
A exposição ocupa o 6º andar do IMS Paulista, tendo obras presentes também no 5º andar e em outros espaços do centro cultural. A curadoria é da artista e educadora Renata Sampaio e da historiadora Raquel Barreto, com assistência do museólogo Phelipe Rezende.
Nascida em Poços de Caldas (MG) em 1904, Laudelina iniciou sua militância jovem, em uma cidade onde a comunidade negra enfrentava dificuldades para acessar espaços públicos e culturais. Em Poços, trabalhou como empregada doméstica para famílias da elite local, como os Moreira Salles e os Junqueiras. Em 1922, partiu para São Paulo e, posteriormente, em 1924, para Santos. Na década de 1930, envolveu-se cada vez mais na militância política, fundando a Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos, em 1936, mesmo ano em que atuou no Partido Comunista. De 1942 a 1945, integrou a Organização Feminina Auxiliar de Guerra, apoiando os brasileiros que lutavam na Segunda Guerra Mundial.
Em depoimento à pesquisadora Elisabete Aparecida Pinto, cuja dissertação de mestrado foi referência fundamental para a exposição, Laudelina comenta que as trabalhadoras domésticas demoraram a ser consideradas enquanto categoria sob a alegação de que “não traziam economia para o país”, no que ela rebate: “Nós trazemos a economia, eles saem para trabalhar, principalmente a classe média, eles têm que trabalhar fora e então passam a escravizar a empregada doméstica”.
Na abertura (16/5), às 11h, haverá um debate com a equipe de curadoria, e, às 17h, uma performance da artista Mariana Maia, intitulada Lavar a roupa suja da História. No dia seguinte, 17/5, às 15h, a banda Ngá, liderada pelo músico Allan Abbadia, e a cantora Izzy Gordon se apresentam no térreo do centro cultural, em um show inspirado nos bailes que Laudelina promovia.
A mostra será acompanhada por uma publicação, que estará à venda em breve no centro cultural e na loja online do IMS. O livro traz fotografias, documentos e imagens das obras exibidas na exposição. Também publica textos da curadoria e artigos de Elisabete Aparecida Pinto, Phelipe Rezende, Joel Zito Araújo, Juliana Teixeira e Erica Giesbrecht, que ampliam os debates sobre o trabalho doméstico no Brasil, além da exposição.
Lista de artistas participantes da exposição:
Agrade Camiz
Alberto Pereira
André Vargas
Andrea Lalli
Arcasi
Arjan Martins
Armando Vianna
Arthur Bispo do Rosário
Carolina Neves Raphael
Dayane Tropicaos
Djanira
Dyana Santos
Emicida
Fabiana Oliveira
Gabe Samuel Alves
Gê Viana
Glória Nogueira
Héber Bezerra
Heitor dos Prazeres
Januário Garcia
Jean-Baptiste Debret
Jefferson Medeiros
Joel Zito Araújo
Josi
Kika Carvalho
Larissa de Souza
Lázaro Roberto (Zumví Arquivo Afro Fotográfico)
Luiza Leão
Madalena Santos Reinbolt
Manuela Navas
Maria Auxiliadora
Mariana Maia
Mariane Lima
Mario de Oliveira
Mitti Mendonça
Mulambö
Rainha Favelada
Rosana Paulino
Sabrina Savani
Sidney Amaral
Silvana Marcelina
Walter Firmo
Serviço:
Exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello
Abertura: 16 de maio
Visitação: Até 22 de novembro
6o andar | IMS Paulista
Entrada gratuita
Debate de abertura com Raquel Barreto, Renata Sampaio e Phelipe Rezende
16 de maio, sábado, às 11h
Cinema | 3° andar do IMS Paulista
Entrada gratuita, com distribuição de senhas a partir das 10h. Limite de uma senha por pessoa.
Performance Lavar a roupa suja da História, de Mariana Maia
16 de maio, sábado, às 17h
Térreo do IMS Paulista
Entrada gratuita
Show Ngá convida Izzy Gordon
17 de maio, domingo, às 15h
Térreo do IMS Paulista
Entrada gratuita
IMS Paulista | Avenida Paulista, 2424. São Paulo
Horário de funcionamento: Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h
3 - Dura Naturalia
Com curadoria de Daniel Donato, a exposição que traz quatro décadas de carreira do artista paraibano José Rufino inclui obras inéditas que pensam a memória e a história como forças capazes de se reorganizar constantemente. A mostra abre ao público no dia 30 de abril, às 18h, na Galeria Marco Zero, em Boa Viagem.
Nascida do desejo do artista paraibano de confrontar obras antigas e novas, possibilitando que cada uma opere em um sistema de contaminação e incorporação, a exposição traz esculturas, pinturas, desenhos e instalações criados desde a década de 1980.
O título da exposição faz referência a Parva Naturalia, de Aristóteles, pensador queJosé Rufino tem usado com certa transgressão ao longo dos anos. A obra do filósofo grego reúne tratados sobre os pequenos processos da vida, como memória, sono, sensação, que Rufino busca subverter.
“Não me interessa o que está vivo, mas a permanência inscrita na matéria. Interessa-me que as obras exibam suas escrituras autônomas, não como suportes, mas como aquilo que retém e continua a se transmutar nas relações entre si e com aqueles que delas se aproximam. Minhas obras não são discursos, são entidades operantes”, enfatiza.
A exposição é dividida em três núcleos nos quais são agrupados trabalhos que partem de objetos em que se sedimentam camadas de história e sentidos a partir das quais o gesto artístico assume a tarefa de ficcionalizar ao trazê-los para o presente. Exemplo disso é a série Cartas de Areia, o trabalho mais antigo da mostra, no qual Rufino trabalha a partir do arquivo privado de cartas do avô, escritas entre 1920 e 1950, além de notas fiscais, bilhetes, livros e cartas, sobre os quais o artista inscreve desenhos e pinturas nos quais proliferam símbolos de árvores genealógicas, desenhos do engenho, cenas de sexo e autorretratos em silhuetas fantasmagóricas.
Nos trabalhos da série Purgatio, José Rufino investiga a relação entre história e natureza a partir dos paradoxos da modernidade, com quadros que, segundo o curador Daniel Donato, “parecem buscar as marcas da interioridade humana em uma mesma realidade caracterizada pela falta de qualquer pessoalidade.”
Entre os trabalhos inéditos estão produções realizadas neste ano de 2026, além de pinturas da série Phantasmagoria, produzidas durante a pandemia. Outro destaque da exposição são a obra Spectrum, elaborada por José Rufino a partir de recortes de jornais da época em que Andy Warhol viveu em Pittsburgh, nos EUA, cedidos ao brasileiro pelo irmão do artista, John Warhola. Na produção, Rufino fez intervenções em pintura a partir da sua pesquisa com o teste de Rorschach. Anteriormente, o trabalho foi apresentado em 2010 no Museu Andy Warhol, em Pittsburgh.
Serviço:
Exposição Dura Naturalia, de José Rufino
Galeria Marco Zero - Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem
De 30 de abril a 19 de junho de 2026
Visitação: de segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h
Entrada franca
Informações: (81) 98262-3393 | @galeriamarcozero
4 - KA
Performance da artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino terá única apresentação no dia 07 de maio, às 15h, no no Balanço Terra, Átrio do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Trata-se de versão atualizada da obra histórica Entrevidas, de 1981,, transformando a performance em um manifesto poético-político contra a violência contemporânea. Neste ano, foi reapresentada na abertura da exposição Terra Poética, individual da artista, inaugurada em março no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, Portugal.
Em KA, a artista, membros de seu estúdio e artistas cariocas convidados caminham sobre um território repleto de ovos, incorporando o gesto ancestral das mãos levantadas, um símbolo que atravessa milênios — da Antiguidade clássica aos conflitos contemporâneos — como sinal de rendição, desarmamento e busca por misericórdia. O título da obra remete ao conceito egípcio que representa a força vital e o espírito, simbolizado por um hieróglifo de braços erguidos que denota acolhimento e conexão.
Ao utilizar essa linguagem corporal, Maiolino transforma a performance em um manifesto poético-político contra a violência contemporânea, abrangendo desde as guerras globais até a insegurança cotidiana de metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Dessa forma, a obra reafirma sua origem política na década de 1980, quando surgiu como um repúdio à tortura e uma celebração da vida durante a abertura democrática no Brasil, consolidando-se agora como um clamor urgente pela paz e pelo desarmamento universal.
SERVIÇO:
Dia 7 de maio, às 15h
Local: Balanço Terra/ Átrio do Museu do Amanhã (Praça Mauá, 1 - Centro, Rio de Janeiro, RJ)
Entrada gratuita
5 - Eu chorei rios: arte dos povos originários da América
A Fundação Getúlio Vargas (FGV) Arte abre essa exposição dia 6 de maio, no Rio de Janeiro, com artistas de diferentes territórios da América Latina. Com curadoria de Glicéria Tupinambá e Paulo Herkenhoff, a mostra traz nomes como Ailton Krenak, Claudia Andujar, Daiara Tukano, Denilson Baniwa, Djanira, Gustavo Caboco, Jaider Esbell, Lastenia Canayo, Keyla Sobral, Lygia Pape, Mestre Valentim e Xadalu Tupã Jekupé. Pinturas, fotografias, esculturas, objetos, mantos, instalações e artefatos históricos compõem um panorama de linguagens e cosmologias, em diálogo direto com disputas territoriais, institucionais e epistemológicas do presente.
Trata-se também de um desdobramento da exposição Adiar o fim do mundo, apresentada em 2025 na FGV Arte e orientada pelas reflexões de Ailton Krenak, deslocando o foco do diagnóstico da crise para a afirmação de práticas e presenças que persistem e transformam mundos.
Para Herkenhoff, “se antes a questão do antropoceno era colocada em xeque como narrativa dominante, aqui ela se expande em múltiplas formas de existência que recusam a separação entre natureza e cultura, sujeito e território, reconfigurando a arte como espaço de continuidade, contraposição e invenção”.
SERVIÇO:
Abertura: 06 de maio de 2026, das 19h às 21h
Encerramento: 20 de setembro de 2026
Local: FGV Arte | Esplanada da Fundação Getúlio Vargas (Praia de Botafogo, nº 186 – Botafogo, Rio de Janeiro | RJ)
Instagram: @fgv.arte
Horários de funcionamento: De terça a sexta, das 10h às 20h; Sábados e domingos, das 10h às 18h
Entrada gratuita | Classificação livre