Artes Visuais

A exposição Elementares, de Denise Milan

Em mostra que fica em cartaz até 27 de setembro, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, artista reúne obras que refletem a relação entre arte e natureza

TEXTO Mario Helio

29 de Maio de 2026

Foto Mario Helio

Denise Milan abriu, ontem, à noite, a sua exposição Elementares, no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Já no título sublinha-se uma intenção carregada de simbolismo. Conduz, assim, o público a uma viagem pela imaginação e os sentidos. Desde a entrada àquele par de salas povoada com esculturas e objetos instalados, protagoniza a visão, e certo tipo de “chamado” interior para perceber as “chamas” do que foi construído para significar.

Um visitante sensível talvez não possa evitar a sensação dupla de haver entrado num território que atiça experiências como a de pareidolia e fogo de santelmo. No entanto, o que realmente conduz o sentido é mais do que o sentir. Dir-se-ia que um espírito condutor maneja a coisa mental para o que realmente importa: o lúdico e o lúcido. Mais do que palavras e imagens em jogo, a exaltação da forma e da luz, do volume e da sutilização da cor, para abstrair no figurar, e vice-versa. Porque em Milan transcendência e imanência nunca são opostas. Estão implicadas, imbricadas. Coisa é alma (sopro e sentir). Ser e res. Res e respiração, inspiração – até quando parece aludir ao ‘expirar’.

Não por acaso os títulos das obras se repetem (e remetem a...) e as técnicas reiteram-se também, distinguidas apenas, ou sobretudo, por geometrias – mui similares – e álgebras – séries, sequências. Como se fossem reverberações, mas também passo a passo. Dividir, somar, multiplicar, por vezes. Tudo como uma grande celebração da vida. Daí o predomínio absoluto das curvas. Das “lembranças” (imaginações, maquinações) de embriões.

A mostra Elementares é, principalmente, um conjunto de fotografias – sim, no literal dos primórdios, de escrever com a luz, escrita-luz, luz-escrita – e minerais. Bi e tridimensional (embora uma ideia de quarta dimensão possa pairar ou parir aquilo que se fez ali).

Muito além e aquém de esoterismos e exoterismos, os Elementares de Denise Milan são suas ‘galateias’ (vide a lenda do escultor Pigmalião e sua amante). Seus inventos. Para compreender esses verdadeiros elementares e seus elementos, o visitante precisa cultivar-se natural na Natureza. A arte invertendo-se e divertindo-se como se pudesse suplantar sua condição de artifício, e, naturalmente, brotasse, de cada forma, ou da maneira que a enforma, informa ou reforma Denise Milan.

Elementares e o Museu de Arte Sacra de São Paulo parecem ter sido feitos um para o outro. A atmosfera de fé ali como que facilita e anima a féerie de que é nutrida toda a exposição. Para realmente percebê-la é imprescindível estar presente no lugar. Por melhor que seja o catálogo que dê a excelência bidimensional, experienciar completamente Elementares exige ou implica estar ali, de corpo e alma, mente e espírito.

A partir de hoje, e até 27 de setembro, Elementares está aberta ao público. Sob a excelente curadoria de Naomi Moniz, provavelmente a maior conhecedora da arte de Denise Milan.

MARIO HELIO, editor das revistas Continente e Pernambuco

SERVIÇO
Exposição Elementares, de Denise Milan
Onde: Museu de Arte Sacra de São Paulo (acesso pela rua Dr. Jorge Miranda, 43, Luz, São Paulo – SP; ao lado da Estação Tiradentes do metrô)
Mais informações: (11) 3322-5393 / mas@museuartesacra.org.br

veja também

O espetáculo da natureza na arte cristalina de Denise Milan

A arte cristalina de Denise Milan (The crystalline art of Denise Milan)