A amizade recifense de Juarez Machado
Galerista Carlos Ranulpho tornou-se marchand do artista plástico catarinense no Nordeste, realizando exposições individuais e o promovendo em mostras coletivas
TEXTO Marcelo Pereira
07 de Outubro de 2026
Reprodução de "Deux verre de vin mile mots", obra produzida em Paris, por Juarez Machado
Foto Acervo Galeria Ranulpho/Divulgação
O catarinense Juarez Machado tornou-se, a partir de 1978, um dos mais midiáticos artistas brasileiros. Versátil pintor, desenhista, caricaturista e desenvolvendo uma linguagem particular para a mímica, virou celebridade com um quadro de humor gráfico no programa Fantástico, da Rede Globo. O artista aliava seu traço característico com a performance teatral nonsense em temas ora poéticos ora cotidianos e da atualidade do Brasil. Todos esses atributos levaram ao marchand recifense Carlos Ranulpho fazer questão de ser seu representante no Nordeste.
Em março de 1985, residindo temporariamente em Nova York, Juarez manda uma série de quadros “em que consegue captar a atmosfera mágica urbana e humana daquela cidade” para Ranulpho promover uma individual com 24 telas. A vernissage é marcada para o dia 11 de julho, no Recife, após ter participado de algumas coletivas promovidas pelo marchand. Em anexo com as obras, enviou uma carta que se torna o texto de apresentação do catálogo e que demonstra que entre os dois já havia uma certa correspondência e intimidade de trabalho.
"Ranulpho,
Continuo no meu “exílio” voluntário e as cores desta cidade no inverno são de grande beleza.
O sol passa longe e as sombras são longas. Pelas frestas de prédios a luz é gentil, namora com os “neons” das vitrines. Tento pintar esta atmosfera quase teatral. Os bares, restaurantes e lojas têm brilho próprio e se harmonizam com a rua. O “dentro” e o “fora” jogam com forças iguais. Pinto minhas “bebedoras”, sei que minha paleta está mudando. Pinceladas mais quentes, talvez para compensar o vento frio das avenidas. Da janela do atelier vejo o “Central Park” todo em branco. Gosto do silêncio que a neve provoca. Estes quadros levarei para o Brasil. Pintei alguns para deixar em galerias e outros para um leilão (maio 28) na Sotheby's.
Porém faço questão de mostrar um conjunto-panorama em meu País. As cenas pintadas contam histórias, tem enredo, começo, meio e sem-fim. É minha ópera, o cotidiano deste lugar de todas as pátrias.
Penso em ficar por aqui mais um mês. Por favor, espere-me breve em Recife. Estou com saudades de ver minha sombra debaixo de meus pés e pisar a calçada acesa pelo sol-a-pino. Saudades de uma cerveja “estupidamente” e de fritada de siri bem temperada.
Lembranças a todos com um abraço amigo,
Juarez"
A parceria de Ranulpho com Juarez Machado estava selada. Nove meses depois, o marchand já convidava o público para a exposição As bebedoras de cerveja, que seria inaugurada no dia 18 de março, na filial da galeria da rua Peixoto Gomide, na região dos Jardins, em São Paulo. A série começou a ser pintada em Strasbourg, na França, onde o artista catarinense montou um pequeno atelier. “Foi lá que vi pela primeira vez as minhas ‘Bebedouras’”, escreveu para o catálogo. “Mulheres elegantes e, em silêncio, bebendo cerveja ou vinho em lugares históricos da Petit France com uma arquitetura cheia de tradições”.
As mulheres de Juarez são “maduras, seguras na postura, com a pele pálida no rosto, desenhos ricos de vivências”. Além de uma dúzia de quadros da série Bebedouras, ele pintou um conjunto de oito telas desenvolvendo a mesma temática que reuniu sob o título de Encontros, no qual dialoga com um arlequim de Mário Gruber, com uma paisagem de Inimá de Paula, com um gato de Aldemir Martins, uma natureza morta de Carlos Scliar, uma brincadeira de criança de Orlando Teruz, uma porta antiga de José Paulo e um desenho de figuras de Marcelo Grassmann, além de um abstrato de Manabu Mabe. As mulheres, em dupla ou pequenos grupos até seis pessoas, raramente olham para o espectador e nunca olham para as telas dos homenageados.
Juarez Machado fixou residência na capital francesa em 1986, e montou ateliê sem prejuízo dos já instalados em Joinville e no Rio de Janeiro.
Em 1989, Juarez escreve uma nova carta a Ranulpho, de Paris. Com letras de imprensa bem desenhadas e toda em caixa alta, ele dá explicações ao marchand de como pensou a organização da mostra. Esta carta é reveladora também por mostrar a relação comercial entre o artista e marchand. Juarez termina a carta dando um conselho a Ranulpho: “Tomo a liberdade de dizer que você ‘está gastando’ duas ideias numa só exposição”.
O marchand aproveitava a exposições coletivas em suas galerias de Boa Viagem e dos Jardins para fazer circular os trabalhos que adquiria dos artistas de seu portfólio, como Juarez Machado. Em setembro de 1988, a Ranulpho realizou a sua I Grande Feira de Arte na Primavera, em Boa Viagem. O destaque era a coleção de 10 imagens em serigrafias de Juarez Machado, datadas e assinadas pelo autor, interpretando cenas do cotidiano se seu ateliê de Paris. Ocupavam o casarão na Rua dos Navegantes ao lado de obras do acervo e peças de decoração: colunas de mármore e granito dos séculos 19 e 20, vitrines art nouveau, art déco, dunquerque e mesinhas de canto; esculturas de mármore de Carrara, bronze, alabastro e marfim; garrafas e taças da Cristalerie de Baccarat, Saint Louis e Val San Lambert; porcelanas de Sevre, Limongi, Veux Paris (França), Meissen e Desden (Alemanha) e Capodimonti (Itália), vidros franceses e venezianos.
Ranulpho voltaria a dedicar a atenção especial ao pintor Juarez Machado na exposição Quando os pincéis se encontram, que teve vernissage no domingo 26 de agosto de 2007. Mais uma vez, o marchand pernambucano havia solicitado ao artista catarinense que lhe atendesse a um convite de participar de uma coletiva. Mais uma vez, ele lhe dedicaria um espaço privilegiado para expor o conjunto enviado de cinco obras. Com elas, como de costume, enviou-lhe uma carta:
“Amigo Ranulpho
Como tinha prometido, estou lhe mandando os quadros para esta importante exposição coletiva em sua histórica galeria.
Pintei o meu universo deste “matrimônio para todo sempre” com estas duas cidades que tanto amo, por serem femininas por excelência, Rio e Paris.
Retratei a vida dos dois bairros onde vivo. Montmartre e Copacabana.
Tão longe um do outro e tão iguais em sua essência.
O canto pela vida, a beleza física da sua geografia.
Um é mar o outro é colina.
A noite tão musical quanto o dia.
Muda a temperatura de cada lugar, mas não o calor pela boemia.
Bairros famosos pelas suas histórias e importantes pelos seus habitantes.
Poetas, bandidos, artistas, prostitutas, doutores, celebridades e anônimos, todos convivendo lado a lado nestes únicos e imensos condomínios.
Pinto lá e aqui, misturo as linhas de cada lugar, pois a emoção é a mesma.
Quadros que tirei do meu acervo pessoal para melhor mostrar que, com dificuldade, tento escrever.
Amigo, continuo lhe esperando para um champagne no meu atelier na Avenida Atlântica ou na Rue dês Abesses.
Abraços
Juarez Machado,
Paris 2007."
Os quadros recebidos por Ranulpho traziam cenas boêmias, de jogo, bebida e dança como no quadro Em algum bar de Copacabana e Bar in Copacabana, datadas de 2001, de bas-fond, em uma esquina em lugar nenhum, de 2003 e de tango, nas telas Tango Levitação e Arte déco piano-tango, as três últimas pintadas em Paris, naquele mesmo ano.
Nota: Texto extraído da biografia Carlos Ranulpho, o mercador de beleza (Cepe Editora, 2018), com algumas alterações e edições do autor.