Gustavo Falcão em estreias e novos projetos
No elenco de Elize, da Netflix, ator pernambucano vai estar na novela Lá na Minha Terra e na série Ben-Hur, ensaia peça sobre Lorde Cigano e prepara, com o irmão Leo Falcão, filme sobre Cícero Dias
TEXTO Cleodon Coelho
06 de Outubro de 2026
Foto Divulgação
Aos 50 anos, mais da metade deles dedicada ao ofício de atuar, o pernambucano Gustavo Falcão vive uma fase de estreias. Pela primeira vez, experimenta o gênero true crime, vivendo o personagem Heitor, melhor amigo de Marcos Matsunaga, no filme Elize: Sombras de uma Mulher, em que o assassinato do herdeiro do império alimentício da Yoki é dissecado. Também pela primeira vez ele atua em uma trama bíblica, Ben-Hur, que deve estrear em outubro na plataforma de streaming Univer Vídeo. Em conversa com a Continente, Gustavo fala das novas experiências e relembra trabalhos marcantes. “As diferenças entre os gêneros são realmente sutis, estão mais ligadas à composição do personagem que você interpreta, ao elenco com que você está trabalhando, ao texto… Mas as construções, as ferramentas e o processo são muito semelhantes”, garante.
O ator confessa que, antes de ser convidado para atuar em Elize, disponível no catálogo da Netflix, não era espectador assíduo do gênero. “Acho o resultado muito interessante, por algumas reflexões que se apresentam. O filme não pretende julgar ou absolver nada nem ninguém. Nem é esta a função da arte. Para isto, o ser humano criou instrumentos adequados”, pondera Gustavo. “Ele relê a história propondo outras perspectivas além das mais óbvias e conhecidas, sem negar ou apagar o que está dado. Neste ponto, acredito que fizemos uma obra instigante e relevante. E a repercussão foi impressionante. Não fazia ideia da atração que filmes baseados em histórias reais provocam nas pessoas”. Não por acaso, o longa tornou-se um fenômeno global na Netflix entre julho e agosto, liderando o ranking de filmes de língua não inglesa em 15 países e somando mais de 17 milhões de visualizações.
Para criar Heitor, Gustavo trabalhou intuitivamente, evitando buscar sustentação em material real. “Não li a respeito do caso, não vi o documentário. Foi um processo de livre criação”, revela. “Procurei estar consciente do que significava trazer uma história como essa, que causou impacto emocional em tantas vidas, de volta aos holofotes. Mas como processo de criação, fiz uma pesquisa apoiada completamente nas informações de roteiro e no universo das personagens, buscando encontrar as motivações, desejos, intenções e afetos que moveriam o Heitor, meu personagem, no próprio curso da história”.
Já em Ben-Hur, além de ter tido contato com o épico cinematográfico de 1959, vencedor de 11 Oscar, o pernambucano estudou sobre a organização social e política da época na região da Judeia e viu outros filmes que retratavam aquele tempo. “Nos anos 1990, interpretei Jesus Cristo na Paixão de Cristo de Fernando de Noronha e lembro que, na época, li a Bíblia inteira. Não sigo uma religião definida, mas minha família é predominantemente católica, então sempre tive familiaridade com os textos. O livro bíblico tem passagens interessantíssimas do ponto de vista narrativo. São histórias impactantes, que dizem muito de nossa humanidade e de nossa construção como sociedade”, atesta. Durante os estudos para o novo desafio, ele percebeu que, em muitos aspectos, pouca coisa mudou, tanto do ponto de vista humano quanto político. “As tramas, os sentimentos e as relações humanas, essencialmente, se modificaram pouco nesses dois mil anos. Por isso estas histórias permanecem atuais”, completa.
Gustavo Falcão fez parte da clássica montagem do espetáculo A Máquina - escrito por Adriana Falcão e dirigido por João Falcão, seus tios -, que ainda trazia no elenco Wagner Moura, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos, além de Karina Falcão, sua irmã. Depois de estrear no Recife, no final de 1999, a peça viajou por várias cidades até chegar ao Rio de Janeiro, em 2000, tornando-se um fenômeno de público e crítica e abrindo portas para os trabalhos no cinema e na TV. “A Máquina foi o grande divisor de águas da minha vida. E arrisco dizer, das de Lázaro, Vlad e Wagner também. Era um espetáculo brilhante, criado e dirigido por João, um de nossos maiores diretores teatrais, que estava no auge de seu sucesso”, pontua. “Eu era, naquele momento, um ator feroz, com pouco mais de cinco anos de carreira vividos no Recife, louco para colocar toda minha potência criativa em cena. E A Máquina possibilitou isso, e esse conjunto de coisas fez com que a peça fosse um sucesso imenso e todos nós ganhássemos projeção nacional através do teatro. Ela me modificou como artista, possibilitou esse encontro e forjou na gente uma família, redesenhando completamente nossas trajetórias e perspectivas”.

na peça "A Máquina". Foto: Sandra Delgado/Divulgação
E a reboque do sucesso veio a primeira experiência do pernambucano em novelas: As Filhas da Mãe (2001), de Sílvio de Abreu, cujo elenco era encabeçado por ninguém menos que Fernanda Montenegro. Ele interpretava Faísca, um artista plástico que tinha deficiência vocal. Outro papel marcante na telinha foi o de Seu Jujuba, assessor do prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele) na série Cine Holliúde. “Amo fazer comédia. E é curioso porque, quando comecei, tinha resistência ao gênero. Era totalmente atraído pelas peças dramáticas, políticas e existencialistas. Amava, e amo até hoje, Beckett, Brecht, Genet, Artaud, os dramas gregos, as peças políticas de Shakespeare”, conta o ator. “Aos poucos, fui percebendo a beleza e profundidade da comédia, como ela acessa de forma direta sentimentos profundos e desarma nossas defesas em relação a certos assuntos. A comédia é poderosíssima, pois conecta artista e público de uma forma muito íntima, leve e livre”.
Apesar de estar longe do Recife, ele não deixa de acompanhar o movimento teatral da terra natal. “Recebo notícias dos amigos que tenho por aí, atrizes, atores, diretores. Recentemente, um deles me deu uma notícia que me deixou triste: a de que as produções têm tido muitas dificuldades em levantar os espetáculos e mais ainda em mantê-los em cartaz, ficando uma ou duas semanas no máximo”, lamenta. “Aqui no Rio também não tem sido tão diferente. Fazer teatro, e fazer arte de uma forma geral, é sempre um ato de rebeldia e de resistência. Mas torço para que o movimento teatral do Recife se revigore sempre, pois é um dos mais importantes do Brasil”. O ator cita os trabalhos da Companhia Fiandeiros de Teatro e do Grupo Magiluth entre os que mais admira.
No Rio de Janeiro, Gustavo - ao lado de Juliana Féres, sua companheira - dirige o Espaço Lunático, que já completou 20 anos de atividade, oferecendo aulas de diversas modalidades artísticas em instituições educacionais da capital fluminense. O pernambucano já se prepara para atuar na novela Lá na Minha Terra, que vai substituir A Nobreza do Amor na faixa das 18h na TV Globo. Também planeja trazer para o Rio a remontagem de A Máquina, que codirigiu com o próprio João Falcão, ano passado, em São Paulo. Como se não bastasse, ensaia um espetáculo baseado na vida pregressa de Lorde Cigano, personagem do saudoso José Wilker no filme Bye Bye Brasil.
Outro projeto em desenvolvimento é um filme sobre o grande pintor modernista pernambucano Cícero Dias, em parceria com seu irmão, o diretor e roteirista Leo Falcão, e com a REC Produtores Associados. “Ainda não posso falar muito a respeito, mas a vida e as inquietações artísticas e políticas de Cícero me vêm à mente a toda hora. É um artista que nunca se deixou submeter a cânones, a regras estéticas ou morais. Foi uma pessoa que viveu continuamente em busca da liberdade, em todos os seus vieses”, celebra.
Mesmo mergulhado em tantos e diferentes trabalhos no Rio, onde vive desde o ano 2000, Gustavo Falcão conta que sente saudades do Recife todos os dias. Das pessoas, dos lugares, das cores, do vento. “Queria eu que fossem próximas, como o Recife é de João Pessoa ou como o Rio é de São Paulo. Não tenho a menor dúvida de que, no dia a dia, dividiria minha vida entre as duas cidades”, garante. Mas seus filmes, séries e novelas o ajudam a estar em qualquer lugar.
CLEODON COELHO, jornalista e autor de biografias