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Um passado de preconceitos

Para poder se firmar em Pernambuco e conquistar o gosto popular, entusiastas do ritmo tiveram que enfrentar críticas na imprensa e falta de incentivo estatal

TEXTO José Teles

01 de Fevereiro de 2011

Foto Rafa Medeiros/Fundarpe/Divulgação

[conteúdo  vinculado à reportagem de capa | ed. 122 | fevereiro 2011]

A história do samba em Pernambuco,
até tempos recentes, foi uma demorada queda de braço entre sambistas e guardiões das tradições da cultura do Leão do Norte. Para estes, o estado era dotado de manifestações culturais em número suficiente para dispensar importações, além do que também condiziam com o caráter e índole do nativo, muito mais do que os dolentes ritmos importados. O jornalista Mário Melo, que militou durante décadas na imprensa local, foi um dos mais ácidos críticos da cultura vinda de fora, sobretudo marchinhas carnavalescas e sambas cariocas.

Num artigo de dezembro de 1955, no Jornal do Commercio, ele conta a origem das escolas de samba pernambucanas: “... Mais tarde, na Segunda Grande Guerra, estando aqui ancorado o Cruzador São Paulo, os marinheiros formaram uma escola de samba e vieram à rua, à moda do carnaval carioca. E, quando partiram, deixaram aguçado o espírito da imitação. Começaram a surgir escolas de samba. Era a infiltração prejudicial ao nosso folclore. Deixávamo-las à parte como quistos. Nunca filiamos nenhuma, por prejudiciais ao nosso carnaval típico”. Com “nunca filiamos”, ele quer dizer que nunca permitiu que as escolas fizessem parte da Federação Carnavalesca, criada em 1935, da qual foi fundador e dirigente.

No ano seguinte, Mário Melo se desligava da entidade, porque a União das Escolas de Samba de Pernambuco foi oficialmente reconhecida pelo governo municipal como integrante do carnaval do Recife. Ele pediu ao então prefeito Djair Brindeiro, por carta, o veto às escolas nas festas carnavalescas da cidade. Não foi atendido, e deu por finda sua participação como dirigente da federação. Naturalmente, o genioso jornalista não se limitou pura e simplesmente a deixar a entidade.


Capiba passou a defender o samba nos jornais, após Nelson Ferreira criticar
a presença do ritmo no carnaval pernambucano. Foto: Reprodução


Nelson Ferreira. Foto: Reprodução

Passou a utilizar a imprensa para tecer artigos virulentos contra o “invasor”, como o que escreveu em 17 de janeiro de 1956, no Jornal do Commercio: “... É melhor não termos o carnaval de rua, o carnaval tipicamente pernambucano, a vermos o samba imperando em nossos logradouros, aqueles indivíduos de sexo duvidoso e ademanes (sic), que horripilam a dignidade masculinidade”.

Dois dias mais tarde, ele insiste em bater na mesma tecla em outro artigo sobre uma manifestação cultural que considerava emasculada: “Teremos então um carnaval amargo, pífio, descaracterizado, como foi imposto pelo interventor Demerval Peixoto, que pretende também sobrepor-se a nosso tradicionalismo, um carnaval contrário às tradições de masculinidade pernambucana, com desajustados sexuais em vestes femininas, rebique na cara, beladona nos olhos, seios supostos, voz de falsete e ademanes suspeitos, o que como noutros lugares, mas que horripilam homens e mulheres normais”.

Se tais observações preconceituosas, nos ditas atuais, seriam responsáveis por uma avalanche de processos, e cartas à redação, o que dizer de artigos assinados, há 76 anos, pelo piauiense Berilo Neves (que militava na imprensa carioca, e foi um dos precursores da ficção científica no Brasil)? Adversário feroz do samba, em um dos seus artigos, de 1935, publicado no JC, ele destratava impiedosamente o gênero musical, que tratava por “batuques de negros”, e, lá pelo meio do texto, tecia o comentário: “Com a vitória do batuque dos negros, quem sofre é o país, quem sofre é a nossa paciência, quem sofre são as donas de casas, visto que nossas melhores cozinheiras trocaram a cozinha pelos microfones”. Em outro artigo, Berilo Neves foi virulento contra seu alvo predileto, as cantoras de rádio, definidas por ele como “mulatas ou semimulatas de cabelos insubmissos”, e sugeria: “O país está no dever de fazer voltar à cozinha certas estrelas cafuzas, que enchem de mau hálito os estúdios do nosso rádio, espalhando pelo mundo inteiro a florescência patológica musical dos morros”.

Enquanto isso, o sociólogo Gilberto Freyre, que costumava discordar das ideias do primo Mário Melo sobre cultura, via com outros olhos as escolas: “...talvez do encontro não fortuito, mas profundo, do samba carioca com o frevo recifense resulte uma inesperada combinação nova, deliciosamente brasileira, de dança e de música...”. Ironicamente, 10 anos mais tarde, inconformado com o sucesso das escolas no carnaval do Recife, ele escreveria um irado artigo intitulado: Pernambuco, sim, subcarioca, não.

Provavelmente, como arguto observador dos costumes e manifestações culturais, ele tenha notado que as primeiras escolas de samba do Recife abrigavam nuances não comuns “às congêneres do Rio. Utilizavam-se de instrumentos de sopro, e de um inusitado hino-regresso, ou “samba-regresso”, conforme noticiava o Diário da Noite, em 1956, anunciando um pioneiro festival de escola de samba, promovido pela Sociedade Folclórica de Apipucos, com 20 escolas, e realizado na semana pré-carnavalesca: “... escolas de samba se apresentarão cantando o hino regresso de cada uma delas. Integrando o show, um coro de mil vozes entoará o samba Praça onze (Herivelto Martins/Grande Othelo). O festival será encerrado com um baile animado por duas das melhores orquestras do Recife”.

AGREMIAÇÕES
Inovações no samba, aliás, não eram incomuns em Pernambuco. Em 1924, o “velho” Raul Moraes, segundo os jornais da época, já tentava recriar o samba: “O conhecido musicista acaba de tirar da forja um intermezzo-carnavalesco rag-step-samba, ao qual deu o nome de Pierrot e pierrette”.


No início, as escolas de samba locais tinham direito a apenas 5% das verbas destinadas as agremiações. Foto: Tom Cabral/Fundarpe/Divulgação

Infelizmente, Pierrot e pierrette não foi gravado, como não foi a maioria das composições de autores pernambucanos nas duas primeira décadas do século 20. Assim, não se conhece o samba composto por Edgar Ferreira, em 1937, para a Turma Boa, de Afogados (o mesmo Edgar Ferreira de 1x117 na corrente, e Forró em Limoeiro, sucessos de Jackson do Pandeiro), portanto, bem antes da Segunda Guerra, como assinalou Mário Melo. As “turmas” foram os embriões das escolas de samba pernambucanas. 

Outra agremiação carnavalesca contemporânea da Turma Boa era a Turma Quente, de Água Fria, que saiu às ruas do bairro pela primeira vez em 1937, fundada por um grupo de amigos, entre eles Waldomiro Silva, Guilherme Brás, Olímpio Ferreira da Silva, José Marques da Silva e Luís Ferreira Franco. Dona Confiança, uma das integrantes da turma, contou, ao Diário da Noite, em 1966: “Saímos batendo lata. Em 1938, desfilamos naquele subúrbio com outro nome, Garotos do Céu”. A Garotos do Céu seria rebatizada, em 1941, de Gigantes do Samba.

As turmas, ainda esboços de escolas de samba, eram vistas, quando muito, como uma curiosidade. Os cronistas carnavalescos, de então, nem sabiam em qual categoria encaixá-las. No entanto, quando engrossaram suas fileiras com admiradores e passistas, começaram a ser consideradas por muito mais gente como um corpo estranho no reinado de Momo. Nos programas de música carnavalesca das rádios recifenses eram proibidos gêneros “alienígenas”, ou seja, marchinhas e sambas. A xenofobia e protecionismo chegou ao paroxismo de os foliões vaiarem os alto-falantes da Rua Nova, ao ouvirem sair deles sucessos do carnaval carioca. Mas, na medida do possível, os sambas foram aturados, até porque era praticamente impossível impedir que chegassem ao conhecimento do público. Antes mesmo de emissoras como a Rádio Nacional alcançarem o país inteiro, vendiam-se partituras, e discos de 78 rotações, anunciados nos jornais.

ROUPA SUJA
Em 1959, o cantor Claudionor Germano lançou, pela Rozenblit, o álbum Sambas de Capiba, sem críticas dos defensores das tradições pernambucanas, que continuavam a fustigar o samba infiltrado no carnaval da terra. Vale lembrar que Capiba, ainda morando na Paraíba, venceu seu primeiro concurso de música, promovido pela revista carioca O Malho, em 1930, com o samba Não quero mais, parceria com João dos Santos Coelho. Aliás, uma das mais acirradas discussões públicas entre os dois mais populares autores da história do frevo, Capiba e Nelson Ferreira, teve o samba como pivô, e desaguou numa “lavagem de roupa suja”, com réplica e tréplica publicadas pelo JC. Começou em janeiro de 1964, quando Nelson Ferreira dizia não entender por que tanto samba no carnaval pernambucano. Dias mais tarde, Capiba comprou a briga – era favorável ao samba. A polêmica resvalou para o pessoal, nos últimos artigos.

A popularidade cada vez maior das escolas do Rio certamente influenciou no crescimento das escolas recifenses, apesar de todas as barreiras erguidas contra elas. Mesmo admitidas entre as manifestações oficiais da cultura do carnaval pernambucano, as escolas tinham direito a apenas 5% das verbas destinadas às agremiações carnavalescas. Uma maneira sutil de cerceá-las, pois quanto mais agremiações, menos dinheiro receberiam. Políticos e bicheiros passaram a contribuir com o samba. Em 1965, elas já saíam com 400, 500 integrantes. Em 1966, a pesquisadora norte-americana Katarina Real, no livro O folclore no carnaval pernambucano, alerta para a ascensão das escolas de samba. Segundo ela, a classe média era favorável a essas entidades, e os próprios integrantes dos clubes de pedestres desfilavam nestes e também nas escolas.

A tese da norte-americana (falecida em 2006) parecia haver se confirmado, quando revisitou o carnaval recifense, no final dos anos 1980, época em que começou o declínio das agremiações de samba no estado. Em 1989, as escolas recifenses do primeiro grupo foram para a avenida Dantas Barreto, com até 2.500 integrantes. Dez anos mais tarde, as escolas estavam à beira da falência. Neste início do século 21, elas são um pálido reflexo do passado glorioso, quando traziam artistas famosos do Sudeste, e contratavam carnavalescos do porte de Joãozinho Trinta. Hoje, desfilam graças a alguns abnegados: “Falta apoio. A prefeitura libera R$ 10 mil, uma escola média precisa de, pelo menos, R$ 50 mil só para as fantasias”, comenta o sambista Belo Xis, que já foi puxador da Estudantes de São José, e há alguns anos está na Gigantes do Samba, vencedora dos últimos desfiles, sendo a única que tem sede, na Bomba do Hemetério, e fatura com os pagodes que ali promove. Porém sua supremacia se deve, antes de tudo, à debilidade das concorrentes. 

JOSÉ TELES, Jornalista, escritor, crítico de música e colunista semanal do Jornal do Commercio.
LÉO CALDAS, fotógrafo.

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