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Último abrigo aos ingleses

TEXTO Roberto Beltrão

01 de Novembro de 2011

Foto Chico Ludermir

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 131 | novembro 2011]

O Cemitério de Santo Amaro não foi o primeiro
a ser aberto no Recife. Antes dele, uma necrópole foi criada para atender a uma reivindicação de estrangeiros que tinham muita influência no Brasil daquela época. Desde 1808, quando o rei Dom João VI abriu os portos do Brasil às “nações amigas”, muitos ingleses vieram com a intenção de fazer negócios. Em Anais pernambucanos, o historiador Pereira da Costa conta que, em 1813, o embaixador inglês, junto à Corte do Rio de Janeiro, fez uma reclamação formal contra “a prática indecente que existia em Pernambuco de serem enterrados nas praias os súditos britânicos da religião protestante que faleciam na capitania, nos mesmos lugares em que eram sepultados os negros africanos não batizados”. Isso porque, não sendo católicos, os ingleses não podiam ser sepultados nas igrejas ou no terreno em torno delas.

O médico e escritor Rostand Paraíso, estudioso da história dos ingleses no estado, lembra que, na primeira década do século 19, já havia cemitérios exclusivos para os britânicos em Salvador e no Rio. Por isso, não demorou para que o governo central atendesse à embaixada. Foi determinado às autoridades pernambucanas que escolhessem um local para dar uma última morada aos finados britânicos. Em 1814, foi desapropriado um terreno na localidade de Santo Amaro das Salinas – próximo de onde seria fundado o cemitério dos católicos – e a área foi entregue ao cônsul inglês. O citado surto de febre amarela levou à morte muitos estrangeiros residentes na capital, em 1850, e surgiu a necessidade de ampliar o cemitério britânico. Isso foi feito com a doação de terrenos vizinhos, pertencentes ao Barão Francisco do Rego Barros – que viria a ser o Conde da Boa Vista.

Ainda no século 19, o Cemitério dos Ingleses se tornou o derradeiro destino de um pernambucano ilustre: o general José Inácio Abreu e Lima. O militar, que se envolvera numa polêmica teológica, quando faleceu, em 8 de março de 1869, teve negado o sepultamento no Cemitério de Santo Amaro por ordem do bispo diocesano Dom Francisco Cardoso Aires. Em desagravo, o general foi enterrado no cemitério britânico.

Rostand Paraíso ressalta que o Cemitério dos Ingleses é uma legítima possessão da Coroa Britânica. “Tanto que, no final da década de 1960, o então prefeito da capital, Augusto Lucena, teve que pedir a permissão à rainha da Inglaterra, para usar parte do terreno do cemitério na obra de ampliação da Avenida Cruz Cabugá”, conta Paraíso.

A princípio, o entendimento foi complicado e a rainha Elizabeth II determinou que os túmulos não fossem violados. Para compensar a desapropriação, a prefeitura ofereceu um terreno vizinho, para a expansão do cemitério. A soberana mandou um representante para acompanhar o serviço e o asfalto finalmente avançou sobre onde antes ficava a área frontal da necrópole. Por isso, hoje, a capela está localizada bem próxima ao portão principal. Atualmente, esse cemitério é administrado por descendentes dos britânicos e fica fechado a maior parte do tempo. 

ROBERTO BELTRÃO, Editor do NE TV, 1ª edição, da Rede Globo, e criador do site O Recife assombrado.
CHICO LUDERMIR, fotógrafo, estagiário da Continente.

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