Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

“Pode-se 'pensar fora da caixa' com um pouco de prática”

A doutora em Psicologia (Harvard) Shelley Carson conta que é possível articular fragmentos de informação e conhecimento de forma original, nova e útil. Isso se chama criatividade

TEXTO Luciana Veras

01 de Julho de 2014

Shelley Carson

Shelley Carson

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 163 | jul 2014]

Doutora em Psicologia pela Universidade de Harvard,
Shelley Carson é autora de Your creative brain – seven steps to maximize imagination, productivity and innovation in your life (O cérebro criativo – aprenda a aumentar a imaginação, melhorar a produtividade e inovar em sua vida, cuja edição nacional está esgotada). Lançado em 2010, pela editora Jossey-Bass, o livro sintetiza o trabalho que a psicóloga desenvolve nas áreas de criatividade e psicopatologia. Uma das teses que defende na tradicional instituição de ensino norte-americana é a de que é possível, sim, exercitar a criatividade. “A capacidade de pegar pedaços de informação e combiná-los e recombiná-los de formas que sejam novas, originais e ainda úteis ou adaptáveis a outras situações se chama criatividade. Se você for atrás de mais ‘pedacinhos de informação’, maior será o material que você terá para combinar de maneiras originais”, diz na entrevista concedida por e-mail à Continente, no intervalo de uma das suas aulas no campus em Boston, Massachusets.

CONTINENTE No seu livro, você afirma que não há um centro criativo no cérebro, mas várias partes afetadas pela criatividade. Como traduzir esse processo complexo para um leitor comum?
SHELLEY CARSON Em Your creative brain, descrevo vários estados de ativação cerebral, que chamo de brainsets. Cada um desses estados cerebrais pode ser apropriado para diferentes estágios do processo criativo. Por exemplo, quando você está gerando ideias criativas, não quer ficar preso em um estado cerebral em que você está meticulosamente avaliando dados. Você deseja estar em um estado mais desfocado, mais aberto. A ideia principal é que os diferentes estados cerebrais são associados com diferentes meios de usar a nossa percepção, a nossa memória e nossa estrutura mental para resolver problemas. Eu sugiro, portanto, que aprender a entrar em variados estados cerebrais e a passear com flexibilidade entre eles vai aperfeiçoar a criatividade.

CONTINENTE Que áreas do cérebro são cruciais para um músico, um escritor ou um cineasta?
SHELLEY CARSON O cérebro é complexo e opera mais como um conjunto de redes ou sistemas do que localidades específicas acionadas por tarefas exclusivas. Portanto, enquanto um cineasta pode precisar acionar os aspectos de detecção de movimento do sistema visual (localizados nos lobos parietais) mais frequentemente do que um artista que pinta natureza-morta, por exemplo, cada ato de criatividade possui diversos estágios e requer diferentes ativações de redes neurais específicas em cada uma dessas fases. Pesquisadores ainda estão trabalhando para identificar essas complexas sequências de ativação cerebral.

CONTINENTE É possível mapear cientificamente o processo de alguém que compõe uma sinfonia ou que escreve uma lista de compras para a feira?
SHELLEY CARSON Se você colocar duas pessoas em uma máquina de ressonância magnética e disser a uma delas para pensar na lista de feira e à outra para começar a compor uma sinfonia, é possível apontar quem está fazendo o quê. No entanto, não sabemos o bastante para olhar uma imagem cerebral aleatória e afirmar “essa pessoa está escrevendo uma sinfonia”. Então, podemos distinguir duas tarefas relativamente diferentes ao olhar para as partes do cérebro que estão ativas nas pessoas que foram demandadas para executar tais tarefas. Por outro lado, ainda não conseguimos dizer a qualquer uma que esteja se submetendo a uma ressonância que faça algo e depois determinar o que é tal coisa apenas a partir da observação daquela atividade cerebral.

CONTINENTE Você acredita que a correria da vida cotidiana suprimiu ou mesmo enterrou a habilidade de um indivíduo comum de “pensar fora da caixa” ou de trazer mais imaginação e inovação para dentro de sua existência?
SHELLEY CARSON Creio que muitas pessoas se sentem confortáveis em pensar de maneiras lineares e sequenciais, porque foi isso que eles aprenderam a fazer na escola. Esse tipo de pensamento é eficiente para resolver várias tarefas diárias, do tipo decidir se devemos primeiro pegar as roupas na lavanderia ou ir ao supermercado. Então, sim, a rotina da vida cotidiana provavelmente mantém as pessoas “pensando dentro da caixa”. Entretanto, a maioria das pessoas pode “pensar fora da caixa” com um pouco de encorajamento e prática. Quando alguém começa a fazer isso, logo se surpreende como o quão mais interessante pode ser tornar a rotina diária.

CONTINENTE Que conselho você daria para alguém interessado na oferta de possibilidades criativas dentro do cérebro?
SHELLEY CARSON O primeiro passo para se tornar mais criativo e aprender mais sobre o processo criativo é ler muito. Pessoas interessadas em aumentar a própria criatividade devem sempre ampliar o aprendizado, pesquisando e mantendo um olhar curioso sobre vários assuntos. Um segundo conselho seria o de desligar o censor do seu cérebro. Passe um tempo pensando em soluções sem julgar seus pensamentos. Você chegará a algumas ideias bem estranhas, e talvez algumas delas sejam absurdas ou impraticáveis, mas outras podem ser bastante criativas. Julgar e descartar ideias antes mesmo que elas tenham a oportunidade de brotar completamente limita seu modo de pensar. Para que a criatividade floresça, é necessário superar esses limites. 

Leia também:
Gênios: Cérebros privilegiados
"Não temos mais lugar para gênios"
Sonhos: Apropriações do que é intagível e tão presente

Publicidade

veja também

Pierre Verger: Registros de um Brasil à época desconhecido

[Entrevista] Mauro Rosso

Teste WEB INTERNO DEV (Hugo Campos)