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Ilustrados: Sob as regras do seu seu próprio universo

Embora não esteja catalogada como arte, a tatuagem vem sendo agregada ao campo como ocorre com o grafite e a HQ

TEXTO Julio Cavani

01 de Novembro de 2010

Leonardo Branco e Leo Resende, que mantêm um estúdio no bairro das Graças, tentam dar um toque autoral às tatuagens que fazem

Leonardo Branco e Leo Resende, que mantêm um estúdio no bairro das Graças, tentam dar um toque autoral às tatuagens que fazem

Foto 2naFoto

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 119 | novembro 2010]

Depois de toda uma história de oscilações
entre legado, afirmação, perseguição e preconceito, a tatuagem chega ao século 21 popularizada na sociedade. Corpos ilustrados são vistos tanto nas farofas das praias mais populares quanto nos tradicionais recintos da música clássica. Frente à banalização impulsionada por essa massificação, tatuadores profissionais se veem obrigados a regularizar a profissão e a buscar um maior aprofundamento artístico para se diferenciar no que já pode ser considerado um mercado de escala fabril.

Do ponto de vista artístico, a tatuagem sempre trilhou um caminho próprio. Essencialmente visual, apenas encontra interseções pontuais com a arte moderna e contemporânea, seguindo uma linguagem autônoma em relação às categorizações estéticas. Como os quadrinhos ou a grafitagem, ela é, de certa forma, marginalizada em relação aos circuitos legitimadores (museus e bienais), salvas as exceções.

“O Recife tem mais de 300 tatuadores, porém menos de nove trabalham nas condições ideais”, estima Renattoo Mousinho, que executa algumas das tatuagens mais caras da cidade. Mais do que buscar ser reconhecido por méritos autorais, suas prioridades são a busca pela perfeição técnica e os cuidados com a saúde. Leo Resende, outro tatuador bastante requisitado, está mais preocupado com sua afirmação como artista, apesar de ainda não encontrar muitos clientes dispostos a ceder o corpo para suas experimentações: “Acredito que a banalização da tatuagem vai fazer o público mais sensível buscar artistas com um estilo pessoal sólido e amadurecido”.


A designer Cecília Torres tem na pele reproduções de obras de Escher,
Miró e Shag, além de uma imagem dos Beatles e uma figura do cartaz
do filme
Bom dia, tristeza. Foto: 2naFoto

ESTÉTICA E PACIÊNCIA
No Brasil, poucos tatuadores conseguem realmente impor suas identidades de maneira explícita. Uma exceção é o pernambucano Jun Matsui, descendente de japoneses, que cresceu no Mato Grosso do Sul, começou a carreira em Los Angeles, morou em Tóquio e hoje trabalha em São Paulo. Ele só usa a cor preta e suas tatuagens sempre estão combinadas com a anatomia (estendem-se sobre os membros e o tronco), para enfatizar a relação primordial dessa arte com as formas do corpo.

“Serão as tatuagens uma afirmação da unidade do corpo?”, pergunta Nízia Villaça, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com pós-doutorado em Antropologia Cultural, autora do livroEm nome do corpo. “O desenvolvimento da visibilidade por meio das novas tecnologias certamente constitui elemento instigante de tais lutas simbólicas, quando propaga a ideia da substituição ou confusão do corpo com a imagem. Cresce a discussão em torno do estatuto corporal.” Em relação ao posicionamento da tatuagem no panorama das artes, ela sugere que “a pele pode ser considerada o primeiro muro ou tela em que imprimimos nossas marcas. Na sua complexidade, constitui uma metáfora contemporânea do que se perde e do que se procura”.

No Recife, a maior parte das tatuagens realizadas é de figuras reproduzidas. “Muita gente pensa só em cópia. Até gosto de tatuar o mesmo tema mais de uma vez, mas não o mesmo desenho. Acho legal fazer carpas e corações, pois é como homenagear a história universal da tatuagem, só que sempre procuro distorcer do meu jeito. Prefiro criar um desenho personalizado a partir das ideias do cliente”, pontua Leo Resende. “Minha proposta é transportar as artes plásticas para a tatuagem. Adoro quando me pedem para tatuar a pintura de um artista, pois isso me permite experimentar novas técnicas ao tentar criar efeitos e texturas de pinceladas ou até riscos de giz.”


A designer Daniela Brilhante tatuou desenhos feitos por amigos, reproduzidos pelo tatuador Leo Resende Foto: Reprodução/Jun Matsui/Lifeunderzen.com

Resende divide um estúdio no bairro das Graças com Leonardo Branco, que escreveu uma monografia sobre tatuagem como trabalho de conclusão do curso de Design na Universidade Federal de Pernambuco. “Já convenci uma mulher a não tatuar o nome do noivo. Ela ficou com raiva na hora, mas me agradeceu um ano depois, quando o namoro acabou”, conta Leo Branco, que muitas vezes se vê no papel de psicólogo. “Converso bastante antes de começar um novo trabalho e acabo criando um laço com a pessoa que precisa dividir sua dor comigo.”

Valdélio, um dos pioneiros da tatuagem profissional no Recife, parou de tatuar justamente por causa dessa necessidade de proximidade psicológica, entre outros motivos. “Você tem que ter toda uma disponibilidade e paciência para se envolver emocionalmente com as pessoas”, pondera ele, que já teve Mousinho como estagiário e observa mais vontade artística nas gerações atuais. Valdélio chegou a dar aulas de tatuagem em bairros da periferia como arte-educador num projeto cultural do governo municipal. Ele usava peles de porco para fazer demonstrações diante dos alunos.

REGULAMENTAÇÃO
Em 2010, a Prefeitura do Recife regularizou a profissão de tatuador, uma tendência que se verifica em outras cidades diante da popularização da atividade. A Vigilância Sanitária faz a fiscalização nos estúdios, que oficialmente têm a obrigação de ser tão higiênicos quanto um consultório médico. Um dos motivos que tornam cara uma tatuagem feita por Renattoo Mousinho, por exemplo, é a estrutura de seu local de trabalho, o único que adota um sistema (não obrigatório) de teste biológico para garantir a assepsia dos equipamentos. Todos também têm que ter um sistema de coleta de lixo hospitalar feito por empresas especializadas.


As tatuagens de Jun Matsui são todas na cor preta e acompanham a anatomia do corpo. Foto: 2naFoto

“Tenho amigos tatuadores, mas só confio em Mousinho, apesar de ser tão caro. Conheço o trabalho dele”, afirma a designer Cecília Torres, que tem no corpo reproduções de obras dos artistas Escher, Miró e Shag, além de uma imagem dos Beatles (capa de Help!), uma figura do cartaz do filme Bom dia, tristeza (desenhada por Saul Bass) e um grafismo representativo do padrão de cores CMYK (cyan, magenta, yellow, black). “Simplesmente achei que são desenhos bonitos e tatuáveis, mas gosto de tantos outros e não os tenho porque são mais complicados, pode sair algo errado... Vejo, gosto e tatuo”, explica.

Apesar de seguir todas as regras, Renattoo não é contra os estúdios irregulares e acha “importante que continuem a existir artistas independentes, que façam seu trabalho na clandestinidade, contanto que não tenham uma proposta comercial”. Para Valdélio, “é uma subcultura urbana. Ninguém precisa ter um endereço fixo. A gente carregava o equipamento para viver onde quisesse. Tenho certeza de que alguns dos melhores tatuadores do mundo são pouco conhecidos e trabalham na informalidade”. 

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