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Duas companhias: Um espaço para pesquisar linguagens

Grupo teatral comemora 10 anos de atuação trazendo na bagagem cinco espetáculos, turnê pela Europa, além de workshops e leituras dramatizadas

TEXTO Olivia de Souza

01 de Abril de 2014

A companhia foi criada em torno da peça 'Caetana', de 2003, que volta ao cartaz de tempos em tempos

A companhia foi criada em torno da peça 'Caetana', de 2003, que volta ao cartaz de tempos em tempos

Foto Daniela Nader/Divulgação

Não seria um exagero relacionar a volta do teatro de grupo em Pernambuco, forte durante a década de 1980, ao início da Duas Companhias, em 2004. Depois do estouro do cinema e da música pernambucana nos anos 1990, o grupo teatral encabeçado pelas atrizes Fabiana Pirro e Lívia Falcão foi um dos que reintroduziram a cultura do teatro independente, de pesquisa, concebido, organizado e produzido por um núcleo de atores com um mesmo objetivo e ideal.

Criada a partir da vontade das atrizes em investigar a cultura local e mergulhar em suas raízes, a Duas Companhias comemora 10 anos em 2014, com cinco espetáculos no currículo – Caetana, A árvore de Júlia, Caxuxa, Divinas e a mais recente, A dona da história –, turnê pela Europa (Bélgica, Portugal), além de workshops e leituras dramatizadas. Destaque para a realização da oficina Formação de Mulheres Palhaças, ministrada por Adelvane Néia, em 2012; o lançamento do livro Uma história do teatro pernambucano: daqui pr’ali e de lá pra cá e do documentário Caetana, produzido em parceira com a Ateliê Produções, sobre a concepção do espetáculo de estreia do grupo, feito sob coordenação do encenador e dramaturgo Moncho Rodriguez.

“A companhia foi criada em torno de Caetana. Na verdade, 2003 era um momento em que nos juntamos para produzir um espetáculo, e essa união toda é muito maior que a produção em si, porque é toda uma comunhão de conceber a arte, pensar o que a gente quer fazer, e como fazer. Aos poucos, percebemos a vontade de continuar criando, e disso nasceu a Duas Companhias. Já tínhamos pessoas envolvidas com Caetana, que permaneceram com a gente nos projetos seguintes, e outras chegaram”, afirma Lívia Falcão, frisando a importância de toda a equipe envolvida nos projetos da companhia, hoje cerca de 30 integrantes.

Para Fabiana Pirro, um grupo no qual tantos comungam interesses afins é uma boa forma de se ter autonomia do trabalho. Reflexo disso é a opção por temas complexos, para serem trabalhados no circuito comercial, como vida e morte, e o uso de bonecos e palhaços abordando esses assuntos de forma lúdica, mas, ao mesmo tempo, responsável e aprofundada. Temas inquietantes, porém universais, e considerados pelo grupo essenciais para o teatro. “Tudo partiu da nossa vontade de ter um espaço de pesquisa e de investigação de linguagens. E essa nossa vontade também se devia a uma carência da cidade pelo retorno dos coletivos de teatro. Não é à toa que hoje temos nomes fortes como o Coletivo Angu, o Grupo Magiluth e a Companhia Fiandeiros”, completa Fabiana.

É interessante destacar que, em uma década de atividades, nenhum dos espetáculos da companhia (com exceção de A árvore de Júlia, por questões de direitos autorais) foi encerrado em definitivo. Volta e meia, por exemplo, Caetana entra em cartaz, trazendo grande público a cada temporada. “É uma roda que não para e que faz a gente celebrar esses 10 anos com Caetana viva, com um monte de gente querendo ver, o que para mim é maravilhoso. Um dos objetivos da companhia é a itinerância, seja trazendo as montagens de volta e viajando com elas, como realizando oficinas e leituras dramatizadas”, aponta Lívia.

PALHAÇAS
Uma das características mais marcantes da companhia é a busca pela compreensão da comicidade feminina através do uso da linguagem do clown, que veio a partir de um interesse pessoal de Lívia Falcão em estudar esse universo, depois de uma oficina realizada no Rio de Janeiro com o ator, diretor teatral, e palhaço Márcio Libar. “Nesse momento, percebi um universo muito amplo, que despertou em mim um interesse forte em estudá-lo. Já em Caetana, utilizamos com todo o respeito a máscara, o nariz. Apesar de ainda ali não estarmos inseridas na linguagem do clown, aquela máscara já trazia uma relação com ela.”


No espetáculo mais recente do grupo, A dona da história, Lívia Falcão contracena com a filha, Olga Ferrario. Foto: Renata Pires/Divulgação

Segundo Lívia, a compreensão da delicadeza, da linguagem e da técnica da palhaçaria feminina se deu, definitivamente, durante o aprofundamento de um mês, realizado em 2012, na mencionada oficina Formação de Mulheres Palhaças. “Adelvane é uma mestra da palhaçaria, tem interesse em entender a comicidade feminina, que é de um tempo muito recente. E isso tudo numa imersão, que é o formato ideal para você adentrar em qualquer coisa”, afirma Fabiana, que considera Adelvane a verdadeira “parteira” da sua palhaça Uruba, e também de Zanoia (Lívia Falcão) e Bandeira (Odília Nunes), trio de personagens que compõem a montagem Divinas.

Como se marcasse uma nova etapa dessa carreira de uma década, e fugindo um pouco da linguagem lúdica trabalhada pelo grupo nos últimos anos, surgiu a ideia para adaptar o texto de João Falcão, A dona da história. O espetáculo, que teve montagem original estrelada por Marieta Severo e Andréa Beltrão – e também adaptado para o cinema em 2004, por Daniel Filho –, foi pensado após a boa aceitação do público do Centro Cultural Correios, em 2012, durante a leitura dramatizada do texto de João Falcão. A estreia da “peça-caçula” aconteceu no mês passado, no Teatro Apolo, e nela Lívia contracena com a filha (a atriz Olga Ferrario).

Dirigida por Duda Maia, parceira de João Falcão por 12 anos, a nova montagem utiliza apenas luz, figurino e as duas atrizes em cena, com total ausência de cenário. “Foi uma opção de Duda por tirar tudo, e aí você tem que fortalecer a verdade da sua figura para tudo fazer sentido no palco”, diz Lívia. “Além de ser ótimo para o ator, a ausência dos cenários também é um bom exercício de criação para o público”, comenta Fabiana, que ficou responsável pelo figurino.

Para o segundo semestre de 2014, está programado Obscena, novo projeto da companhia, ainda em estado embrionário, encenado em solo por Fabiana, sobre a obra da escritora e poeta Hilda Hilst. A princípio, um recital poético de um dos textos dela, que acontece este mês durante o VI Festival Literário de Paulo Afonso. “Me aprofundando e me identificando demais com a obra de Hilda, percebi que tinha muito caldo. Conversando com Luciana Lyra (atriz e dramaturga), que convidei para participar comigo desse projeto, surgiu a ideia de fazer Obscena. Optamos por esquecer qualquer texto ou peça de Hilda e vamos criar uma dramaturgia, que será escrita por Luciana.” Com projetos diferentes fazendo parte desse portfólio, a primeira década da Duas Companhias ficará marcada pela experimentação de linguagens e a contínua busca pela ampliação de sua identidade artística e pessoal. 

OLIVIA DE SOUZA, editora da Continente Online.

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