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"A margem do rio": embate entre sexualidade e religião

Filme dos realizadores pernambucanos Enock Carvalho e Matheus Farias, que recebeu “Prêmio Especial do Júri”, segundo troféu na hierarquia do Festival de Locarno, está previsto para estrear em 2027

TEXTO Luciana Veras

27 de Agosto de 2026

Os atores Caíque Copque (Ezequiel) e Ítalo Martins (Jeremias) em cena do filme

Os atores Caíque Copque (Ezequiel) e Ítalo Martins (Jeremias) em cena do filme

Foto Victor Jucá/Divulgação

Na manhã de 22 de julho, uma quarta-feira chuvosa no Recife, os realizadores pernambucanos Enock Carvalho e Matheus Farias recebiam amigos para uma sessão-teste no Cinema da Fundação, no Derby. Não era uma ocasião qualquer. Juntos em uma parceria amorosa e criativa há 13 anos, os dois se preparavam para levar o primeiro longa-metragem com sua dupla assinatura à competição internacional do Festival de Locarno, na Suíça. Havia, portanto, ansiedade no ar - para a maioria das pessoas, era o primeiro contato com A margem do rio (Brasil/Alemanha, 2026) após as filmagens. Finda a projeção e a troca de breves comentários técnicos, o entusiasmo era palpável. Sorrisos, abraços, elogios e desejos em profusão sintetizaram o momento: “Boa viagem, boa sessão, bom festival… Arrasem!”.

Três semanas depois, a auspiciosa notícia oriunda da Europa confirmava que eles haviam tomado tudo ao pé da letra. Entre os 17 títulos que concorriam ao Leopardo de Ouro, A margem do rio recebeu o Special Jury Prize, literalmente o “Prêmio Especial do Júri”, segundo troféu na hierarquia do festival. O primeiro prêmio ficou com o romeno Florin Șerban e seu Nu e locul tau aici. Foi a segunda vez que o Brasil recebeu esta láurea; a primeira se deu em 2017, com As boas maneiras, dos realizadores paulistanos Juliana Rojas e Marco Dutra. Três anos antes, o cinema pernambucano já tinha deixado sua marca quando Ventos de agosto, de Gabriel Mascaro, ganhou uma menção honrosa no mesmo Concorso Internazionale. Aliás, com a vitória nesta categoria em 2022 por Regra 34, a cineasta carioca Julia Murat se tornou a única brasileira a agarrar o Pardo d’Oro. Em 1987, o baiano Glauber Rocha ficou com Grand Prix por Terra em transe, mas foi uma temporada sem competição oficial e o prêmio saiu por um júri paralelo.

Nesta 79ª edição, que se estendeu entre 5 e 15 deste mês na cidade à beira do lago Maggiore, coube ao diretor Fabrice Du Welz, às atrizes Lolita Chammah e Paulina García, ao produtor Marco Alessi e ao programador Olivier Père, diretor executivo do canal Arte France, a missão da escolha. O italiano Alessi descortinou os motivos do júri: A margem do rio (The riverbank no festival) se move “com incrível destreza entre os gêneros, com personagens memoráveis procurando e esperando por amor num mundo sombrio e corrupto, em uma jornada cheia de paixão, solidariedade, atração, violência, corpos e sexo”. Em suma, “um horror erótico e mágico enraizado na tradição política do cinema brasileiro, com uma energia motriz que somente um primeiro longa-metragem pode ter”.

Os diretores Matheus Farias e Enock Carvalho. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Talvez não haja uma descrição mais acurada. Uma coprodução entre Gatopardo Filmes, Moçambique Audiovisual e Vitrine Filmes, em parceria a germânica Tama Filmproduktion, A margem do rio de fato percorre os caminhos enunciados na declaração de Locarno. Da mesma forma que o protagonista, o auxiliar de serviços gerais Izaquiel (o baiano Caíque Copque, excelente descoberta), passeia pelo Recife entre idas e vindas do trabalho e a busca por sexo nos manguezais do Capibaribe, a trama circula entre as convenções cinematográficas com a desenvoltura que Enock Carvalho e Matheus Farias demonstraram nos seus curtas-metragens anteriores: Quarto para alugar (2016), Caranguejo rei (2019), Inabitável (2020) e Queimando por dentro (2024). É como se, do mesmo caldeirão onde se gestaram os exercícios na bitola menor, brotasse o longa. Nele há o despudor para filmar com crueza e verossimilhança as cenas de sexo entre iguais, a estranheza para desenhar a fricção entre a realidade e os acontecimentos que dela escapam, o embate pelo direito à dissidência dos corpos e a fortaleza erguida a partir das relações afetivas talhadas para além da família. 

No roteiro escrito por Enock e Matheus ao longo de vários anos, Izaquiel deixou a casa da mãe e pai evangélicos para morar no centro do Recife com Mica (Artia), Sophia (Renna Costa) e Juliana (Isis Broken), três mulheres trans e travestis com quem ele dribla os códigos heteronormativos que a família e os empregos demandam. De unhas pintadas, maquiagem e roupas sensuais, ele percorre as festas com elas, entregando-se ao prazer da pista de dança com a mesma intensidade e coragem que lhe servem de armadura para rastrear outros homens na lama do manguezal. Um dos motores do filme é justamente seu encontro com Jeremias (Ítalo Martins, de O agente secreto), um pescador musculoso e enigmático que sequestra seu olhar e seu tesão, mas que decerto carrega algum mistério a ser decifrado ou, quem sabe, apenas sorvido.

A outra usina dramática de A margem do rio é a relação que se estabelece entre Izaquiel e pastor Eurico (Robério Diógenes, que roubou todas as cenas como o comissário Euclides em O agente secreto) - aliás, entre o protagonista e tudo que representa a igreja liderada pelo pastor e sua família. Não se trata apenas da tensão inicial - o religioso tem aversão aos signos andróginos do faxineiro e pede para que ele tire o esmalte para ali trabalhar; à medida que Izaquiel se reconecta com aqueles signos que o pai lhe impôs durante tanto tempo, também vai percebendo que há uma sombria vinculação entre as atividades subterrâneas da igreja, por assim dizer, e uma ameaça violenta que irrompe ao redor da ambiência selvagem de Jeremias.

“O longa tem muito da nossa vida em comum. São 13 anos juntos, dez deles fazendo filmes e criando uma maneira de pensar e fazer cinema. Acho que os curtas desembocam no longa e nessa história que queríamos contar, mas também posso dizer que o roteiro tem muito da minha própria - eu fui um jovem criado dentro de uma igreja evangélica e trouxe para o filme muitas questões que vivi lá, como esse embate entre sexualidade e religião”, observa Matheus Farias em conversa com a Continente. Quando nos falamos pelo telefone, ele e Enock estavam sentados na ilha de edição que mantêm em casa - a entrevista se deu após o anúncio da seleção para Locarno, mas antes da viagem. “É um filme contaminado pelos curtas, sim, até porque passamos anos preparando o roteiro e nos preparando para filmá-lo. Em 2019, por exemplo, quando estávamos exibindo Caranguejo rei no Olhar de Cinema, em Curitiba, estávamos também em um laboratório de roteiro. Depois participamos de outros laboratórios em São Paulo, no México e na França”, acrescenta Enock Carvalho.

A arquitetura de A margem do rio traduz o amadurecimento dos dois diretores. Em Quarto para alugar, por exemplo, já se percebe o apuro com que eles vão lapidando a atmosfera da trama, algo que extravasa em Caranguejo rei e em Inabitável - o único curta brasileiro a participar do Sundance Film Festival em janeiro de 2021. Apuro esse que se dá a ver nos enquadramentos, mise èn scene e no desenho de som - no longa, esse aspecto crucial, sob a responsabilidade de Daniel Turini e João Victor Coura, é potencializado pelo cruzamento da sonoridade que sustenta as imagens com a trilha sonora original concebida pela DJ e produtora pernambucana IDLIBRA.

E também no modo como as locações sustentam a história: o mangue visitado em Caranguejo rei é reivindicado em A margem do rio como um fértil ecossistema que se abre para as ligações da carne, um lugar de raízes profundas que são refúgio para quem dele vem. Por fim, o conflito entre sexualidade e religião também ancora Queimando por dentro, em que o personagem Samuel (Pedro Lucas) pode ser lido como uma prévia de Izaquiel, inclusive com o mesmo confronto com a figura paterna (Eron Villar no curta e Carlos Francisco, de Marte Um e O agente secreto, no longa).

Ao todo, os curtas amealharam mais de 60 prêmios e exibições em mostras e festivais em Londres, Dublin, Moscou, Huesca, Durban, San Diego, Bangalore, Portugal e ainda no Mix Brasil, Janela de Cinema, Kinoforum, Brasília, Rio de Janeiro e Gramado. Os dois realizadores entendem que foram se cacifando e aperfeiçoando o estilo que Locarno consagrou como “horror erótico e mágico”. “Filmamos no mangue aquelas cenas, em locações que pertencem à paisagem e ao imaginário do Recife. Todas aquelas árvores fazem parte do filme e ajudam a contar a história. A gente sente os atores impregnados dessa atmosfera”, comenta Enock.

Todo elenco parece “grávido” daquela história e prestes a desabrochar/explodir em cena - e não só Caíque e Ítalo, que se desnudam diante da câmera, e o núcleo trans/travesti, que exprime a naturalidade e a liberdade queer na pele e no gestual. Enio Cavalcante, o ator potiguar que interpreta Roberto, colega de Izaquiel na igreja, dá show. Já Robério Diógenes, cada vez mais identificado com o audiovisual pernambucano, segura as rédeas de um personagem que poderia resvalar para a caricatura, colorindo-ocom a tinta cruel da autoridade pentecostal que quer aumentar seu rebanho e o controle sobre as “ovelhas” sem, contudo, tolerar condutas desviantes.

De fato, todos estão muito à vontade na couraça em que foram colocados pelos cineastas. Nas filmagens entre julho e setembro de 2025, a roteirista e realizadora Maria Clara Escobar fez o casting e a atriz Nash Laila foi a preparadora do elenco. Os atores se mesclam aos manguezais, incluindo aí as áreas menos nobres, por assim dizer, associadas à vegetação típica do Recife, forjando uma ambiência coesa e envolvente. A direção de arte de Maíra Mesquita e a fotografia de Luciana Baseggio reiteram essa “energia motriz” que a obra exala. Tal força centrífuga, empurrando as ondas geradas no centro do redemoinho Izaquiel/mangue/Jeremias para as outras camadas da narrativa, dota o longa de um ritmo intenso que a montagem sabe dosar. 

Matheus Farias editou A margem do rio ao lado de Will Domingos. Na conversa telefônica com o site da Continente, revelou que está montando o mais recente projeto do diretor cearense Allan Deberton. Ele é colaborador recorrente de Kleber Mendonça Filho: foi para a ilha de edição com o cineasta para construir Retratos fantasmas e dividiu a montagem de O agente secreto com Eduardo Serrano. Por esse trabalho, foi convidado a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, com direito a voto no Oscar, e recebeu o prêmio Platino, destinado a eleger o melhor do cinema e TV iberoamericanos, entregue em maio, e o prêmio Coral de melhor montagem do Festival de Havana.

Ele montou toda a filmografia do duo e outros projetos recentes do audiovisual pernambucano, entre os quais se destacam Propriedade (2022), de Daniel Bandeira, Seguindo todos os protocolos (2022), de Fábio Leal, e EROS (2024), de Rachel Ellis. Os convites não param de chegar? “Recebo muitos convites, é verdade, mas não aceito todos porque preciso ter tempo de fazer os nossos projetos. Enquanto eu trabalhava em O agente secreto, estávamos preparando o nosso longa, que ia ser filmado na sequência”, responde à Continente. Foram oito meses de pós-produção, aos quais os dois diretores se dedicaram com afinco e sem pressa. “Nosso filme é artesanal. Tudo ali tem a cor, a imagem e as cenas que nós imaginamos. É quase como se fosse feito à mão. Não sentimos a pressão de performar nada: fizemos o filme que queríamos fazer”, ratifica Matheus.

Viabilizado com recursos da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual/FSA e do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura/Funcultura, com apoio do World Cinema Fund (Alemanha), do Hubert Bals Fund (Holanda) e do Projeto Paradiso, A margem do rio terá distribuição da Vitrine. “Depois da estreia, o filme passa a ter a própria trajetória, criando seu percurso independente de nós. Vamos circular por outros festivais neste segundo semestre e ter o lançamento comercial só em 2027. Queremos que seja visto, que as pessoas conheçam o filme e possamos trocar sobre ele depois. Esse momento de troca nos interessa”, explica Enock Carvalho. 

No sábado, 15 de agosto, subindo ao palco do Festival de Locarno sob aplausos, ele e Matheus Farias cumprimentaram o produtor italiano Marco Alessi e discursaram com brevidade e elegância. “Dedicamos esse prêmio à comunidade LGBTQIAPN+”, resumiu Matheus. Quando os dois já estavam com o troféu na mão, arrumando as malas para voltar ao Brasil, perguntei a Enock se eles haviam intuído a possibilidade de premiação. “A gente não desconfiava de prêmio, mas achou um movimento muito significativo do festival quando eles colocaram o filme na competição internacional, sendo um primeiro filme”, respondeu via WhatsApp. “Isso fez a gente entender que havia força e energia no filme. E aí ficamos intrigados”, complementou. Força, energia, mistério, sexo, fantasia: difícil é não mergulhar até A margem do rio.

LUCIANA VERAS, jornalista

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