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A criação do mito e da caricatura

TEXTO Conrado Falbo

01 de Junho de 2012

Ilustração Ricardo Melo

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 138 | junho 2012]

Quem hoje tem 30 e poucos anos
não sabe o que é a vida sem Luiz Gonzaga. É o meu caso: cresci escutando sua voz nas canções e reconhecendo imediatamente sua figura sempre que aparecia na televisão, no jornal ou nas lojas de discos. Obviamente, o fato de eu ter nascido no Recife faz com que essa presença tenha um significado todo especial, mas é igualmente óbvio que sua força foi percebida muito além das fronteiras de minha terra natal. Luiz Gonzaga é um símbolo cultural de grande alcance e complexidade. Como não estive lá para ver o fenômeno surgir, meu ponto de vista necessariamente inclui as caricaturas que também aprendi a reconhecer e que já foram incorporadas à persona pública desse artista. Existem pelo menos três delas: o mito, o estereótipo e o ritmo.

O mito e o estereótipo são duas faces de uma mesma moeda e estão profundamente relacionados à dicotomia entre nordestinos e sulistas, uma divisão do mundo que o próprio Gonzaga ensinou em suas canções. Do lado dos nordestinos, o mito evoca uma realidade de exclusão social e sofrimento, mas acaba gerando uma identificação positiva, já que a “voz da seca” pertence a um cantor de enorme sucesso. Conforme essa lógica ambivalente, Luiz Gonzaga representa o retirante bem-sucedido, que venceu as dificuldades e conquistou a terra dos sulistas cantando sua própria terra.

Do outro lado da moeda, a imagem de Gonzaga foi reforçada como estereótipo que respondia a um apetite da indústria cultural pelo que era considerado exótico aos olhos do grande centro da época. Aliás, conta-se que foi um cantor gaúcho, de bombacha, Pedro Raimundo, quem inspirou Luiz Gonzaga a trocar o terno pelo gibão em suas apresentações. Mito e estereótipo são ambivalentes, ao mostrar uma realidade de sofrimento suavizada pela alegria do artista e a esperança da maioria das canções.

Além disso, temos a caricatura do artista como ritmo, ou melhor, ritmos: o baião e o xote. Essa caricatura remete a dois aspectos centrais de vários fenômenos musicais brasileiros: as misturas e o gosto pela dança. A síntese de batidas europeias (como a mazurca e a polca) e africanas (batuques e umbigadas) marca as origens da nossa música popular urbana, e produziu uma linhagem seminal que inclui o lundu, o maxixe, o choro e o samba. O debate sobre a gênese e as ramificações de cada um desses ritmos é complexo, em grande parte devido à enorme facilidade com que eles se contaminam nos espaços urbanos. Discutivelmente, o baião teria surgido do lundu, e o xote de um tipo de polca conhecida como schottisch (escocesa). Em todo caso, ambos fazem parte da movimentada história da música popular no Brasil, também marcada pela dança. Seja nas ruas, quintais ou salões, a dança costuma ter papel importante na consolidação de um sucesso musical junto ao público brasileiro, e não foi diferente com Luiz Gonzaga, hoje considerado a personificação do baião e do xote.


Gonzaga inspirou-se na experiência do gaúcho Pedro Raimundo
(com ele, na foto à dir.) para compor sua imagem. Foto: Reprodução

Gonzaga não é um caso isolado, quando percebemos as tensões identitárias que suas caricaturas revelam. A exacerbação do exotismo de imagens estereotipadas é uma estratégia de promoção historicamente muito utilizada pela indústria cultural: Carmen Miranda é um exemplo notável. Antes de chegar aos EUA, ela já havia começado a construir um personagem que reunia os elementos necessários à identificação com o Brasil, atrativa aos olhos estrangeiros e versátil o suficiente para adequar-se ao rádio e à TV. Sua figura é especialmente complexa por aliar pele branca e origem europeia ao samba, ritmo que ainda era rejeitado por sua matriz negra e relação com a marginalidade. O sucesso da intérprete nos Estados Unidos, se não foi o responsável por alçar o samba à categoria de símbolo nacional, pelo menos despertou o interesse das elites para o poder de fogo dessa manifestação.

Um caso pouco conhecido, mas não menos emblemático, é o da cantora peruana Yma Sumac (o nome vem de uma expressão quéchua de admiração), que se dizia descendente do imperador inca Atahualpa. Essa controversa origem, assim como os trajes incas que usava, tornaram-se marcas registradas em sua longa carreira internacional. Sumac possuía um registro vocal extraordinariamente amplo (ia além de quatro oitavas), um ótimo exemplo de como esses estereótipos costumam ser construídos sobre uma sólida base de excelência técnica e talento artístico – regra que tanto Carmen Miranda quanto Luiz Gonzaga confirmam.

Todos somos de algum modo caricaturas, para os outros e para nós mesmos. Isso é especialmente verdadeiro no caso dos artistas, já que suas personas passam por diversas mediações e deformações na interação com o público, sem falar nas construções que são feitas diante desse compartilhamento. Partir das caricaturas na busca por melhor compreender determinados fenômenos culturais pode nos esclarecer aspectos importantes da recepção social desses fenômenos, mas muitas vezes pode nos levar de volta ao ponto de onde partimos.. 

CONRADO FALBO, músico, pesquisador e professor.

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