Arquitetura

A praia como "ágora" brasileira

A praça como símbolo do espaço público no Brasil tornou-se um conceito fora do lugar, de acordo com o arquiteto e pesquisador Guilherme Wisnik

TEXTO Álvaro Filho

30 de Janeiro de 2026

Foto Pedro Pina/Divulgação

O incidente no início do verão envolvendo dois turistas e os responsáveis pelo comércio na orla de Porto de Galinhas, no Litoral Sul de Pernambuco, foi o estopim para várias denúncias Brasil afora sobre cobranças abusivas e a falta de regulação no litoral brasileiro, acendendo o sinal vermelho de que um dos espaços públicos mais democráticos do país pode estar em perigo.

O cenário ainda não é dramático ao ponto de se decretar a “privatização” do litoral brasileiro, mas é importante prestar atenção no tema, aconselha o arquiteto e pesquisador Guilherme Wisnik, para quem a praia assumiu no Brasil a função de “ágora”, diferente do que acontece em outros lugares do mundo, onde o debate político se dá nas praças nos centros urbanos.

Segundo Guilherme Wisnik, o Brasil até tentou copiar o modelo de “ágora” criado pelos gregos na Antiguidade, onde a vida orbitava em torno da praça, mas a tentativa encontrou resistência em certas peculiaridades da sociedade brasileira, como a falta de segurança urbana, a opção nacional pelo uso do carro como transporte público e a “cultura” do patrimonialismo.

Ao contrário dos países europeus, onde as praças são ponto de encontro dos moradores, seja no percurso de ida e volta ao trabalho ou nos momentos de lazer com a família, no Brasil a insegurança pública nos centros das cidades, aliado à conversão do pedestre em motorista e a dificuldade em encontrar estacionamento acabou por afastar a população destes espaços.

Esvaziadas, as praças viraram abrigo para sem-tetos ou ponto de negócio para o pequeno tráfico e prostituição. A saída encontrada pelos governantes, continua o arquiteto, foi o modelo de “adoção” do equipamento público por empresas, privatizando o espaço público. “Algumas praças passaram a ser gradeadas e trancadas a cadeado no fim do dia”, afirma.

No Brasil a insegurança a nos centros das cidades, aliado à conversão do pedestre em motorista e a dificuldade em encontrar estacionamento acabou por afastar a população dos espaços públicos


Guilherme Wisnik ressalta ainda que a decadência das praças acompanha a deterioração dos centros urbanos no país, provocada pela adoção brasileira do modelo norte-americano que deslocou os negócios do downtown em direção aos shoppings centers e a habitação para bairros dormitórios ou condomínios fechados.

“Aos poucos, a praça como símbolo do espaço público no Brasil tornou-se um conceito fora do lugar”, afirma Wisnik, para quem a praia como “espaços atravessados pela informalidade e pelo lúdico”, acabou por substituir a função de “ágora” no modelo sociológico brasileiro.

Uma “ágora” que agora parece correr o risco de também sucumbir à nociva cultura patrimonialista brasileira, como na batalha travada entre banhistas e comerciantes em várias partes do litoral do país. “O patrimonialismo é uma característica que segue forte no Brasil, no movimento de contaminar a esfera pública pela lógica da iniciativa privada”, resume Wisnik.

Um movimento que pode levar as praias a seguirem o mesmo destino de “privatização” das praças. O pesquisador, porém, adverte que apesar dos riscos a função de “ágora” ainda se mantém. “Ainda são pontos de convivência entre a miríade de classes sociais, típica do modelo de ágora desenvolvido pelos gregos há mais de dois anos”, ressalta.

Guilherme Wisnik está atento ao fato de a praia emular a lógica da sociedade brasileira, onde a classe média aproveita o sol enquanto o mais pobre trabalha. “É verdade, mas mesmo assim, cada um desempenhando uma função, as camadas populares seguem visíveis, participando de alguma forma deste espaço público”, pontua.

 O colapso de Brasília

 A teoria do fim da praça como “ágora” brasileira foi posta à prova por Guilherme Wisnik na exposição Complexo Brasil, que ocupa dois pisos da renomada Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, ainda sem previsão para ser vista no país. Num dos espaços expositivos, Brasília surge como exemplo do fracasso de um modelo “copiado” dos europeus.

Planejada, simétrica, sem esquinas, com longas avenidas e privilegiando o “vazio”, construída em 1960 para ser a nova capital do país, Brasília surgia como uma tentativa de reorientar o traçado urbano brasileiro, diferente do formato de desenvolvimento orgânico e caótico de cidades como Rio de Janeiro, Salvador ou Recife.

 “O curioso é que, enquanto o mundo abraçava uma irracionalidade artística, no surrealismo de Dalí ou no expressionismo abstrato de Pollock, o Brasil ia no caminho contrário, como bastião do iluminismo cartesiano”, afirma Wisnik, um dos curadores da exposição.

Neste contexto, a Praça dos Três Poderes cristalizava a ideia da “ágora” grega, onde a simetria das torres e das meia-luas de concreto simbolizavam o caráter simétrico da democracia, de tratar igualmente os pensamentos divergentes seja à direita, à esquerda ou ao centro. Uma ambição que, na visão de Guilherme Wisnik, acabou também por fracassar.

Na exposição Complexo Brasil, pode-se ver o muro levantado em frente à Praça dos Três Poderes em 2016, no dia em da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para Wisnik, a data de óbito do modelo da tentativa brasileira de copiar o modelo de ágora clássico.

“Em 2016, a utopia da arquitetura modernista brasileira investida na construção de Brasília chegava ao colapso, pois os dois lados já não podiam mais conviver”, explica Guilherme Wisnik. O muro entre as torres e as meia-luas de pedra simbolizava também um país dividido, que mergulharia no fascismo pouco tempo depois.

Uma longa agonia da pretensão da praça como “ágora brasileira” e que culminou no 8 de janeiro de 2023, quando apoiantes do então ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e vandalizaram o Congresso Nacional, passando do simbólico ao real a intenção de destruição da Praça dos Três Poderes como espaço público e político nacional.

Além de imagens e obras de artes relacionadas a Brasília, a exposição faz menção obviamente à praia, na opinião do curador (ainda) a verdadeira “ágora” brasileira. Entes as imagens expostas em Lisboa, a captada pela pernambucana Bárbara Wagner sintetiza bem esse papel, onde se vê uma criança na companhia de um adulto deitado no dorso de um cavalo, banhando-se no mar do Buraco da Véia, no Pina.

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