A terra, seus agentes e induções
Terravulta, exposição que reúne obras de Anti Ribeiro e Cristiano Lenhardt, com curadoria de Rita Vênus, estreia, na Amparo 60, na quinta-feira (13/8)
12 de Agosto de 2026
Cristiano Lenhardt e Anti Ribeiro
Foto Danilo Galvão/Divulgação
A Galeria Amparo 60 inaugura nesta quinta-feira (13/8), às 19h, Terravulta, exposição que reúne trabalhos de Anti Ribeiro e Cristiano Lenhardt. Com curadoria de Rita Vênus, esse será o primeiro encontro entre as pesquisas dos dois artistas, que mantêm processos e assinaturas próprias, mas compartilham, no momento, um mesmo território de investigação: a terra como matriz de gravação, memória e transformação.
Terra, ferrugem, cerâmica, fungos e tecidos aparecem não apenas como suportes ou materiais, mas como agentes de transformação. São elementos que absorvem o tempo, acumulam marcas e registram processos, revelando superfícies onde o gesto artístico convive com a ação da própria matéria. O nome da mostra (Terravulta, que também pode ser conjugada como verbo) foi uma palavra criada especialmente para a ocasião.
“A trama que absorve, retém e projeta em sua malha vegetal fantasmagorias detríticas, desprendidas e decompostas do mundo é o ponto de partida para a mostra que traz, pela primeira vez, um diálogo entre Anti Ribeiro e Cristiano Lenhardt, apresentando um conjunto de trabalhos recentes, produzidos numa espécie de terravultagem conjunta das superfícies, nas quais a terra é a matriz de toda gravação e fonte das matérias ferruginosas, cerâmicas e fúngicas incorporadas. Composições hospedeiras, por induções ou revelias, que, retidas nas telas como pórticos ou rajadas metálicas no espaço, lançam vultos no campo mais fundo da nossa retina e no canal mais abissal dos nossos ouvidos”, escreve a curadora em seu texto, apontando caminhos e encontros entre as investigações e poéticas dos artistas.
Foi a galerista Lúcia Santos quem propôs juntar Anti e Lenhardt, e a escolha da curadoria nasceu de uma conversa coletiva. “Já faz algum tempo que temos realizado aqui, na Amparo, exposições nas quais juntamos artistas e propomos um diálogo, uma reflexão. Juntar Anti e Cris me pareceu bastante interessante e pensamos no nome de Rita para nos ajudar nesse caminho”, detalha a galerista.
Rita Vênus vinha acompanhando as carreiras de Anti Ribeiro e Cristiano Lenhardt há alguns anos. Anti participou da primeira residência artística aberta por Rita na Oficina Francisco Brennand, em 2021, e desde então chamou atenção da curadora "o quão poroso é o seu processo de criação, que vai absorvendo de modo atento aquilo que passa a orbitar o seu dia a dia de trabalho". Em Lenhardt, a curadora reconhece "o desejo pela colaboração", presente em trabalhos anteriores do artista, como a escultura Íris, apresentada na mostra Inferno Cânticos, no ano passado, que precisa da ação do público para se erguer. "Me pareceu muito natural um encontro de artistas abertos a um processo de trocas mais aprofundadas, e que estão num momento de interesses muito próximos em relação aos tecidos e às marcas de muitas matrizes nessas superfícies", diz Rita.
A aproximação entre as pesquisas veio de coincidências de processo. Anti Ribeiro trabalha com esculturas sônicas de ferro oxidado; Cristiano, por sua vez, desenvolve o que chama de Brotocarta — a transcrição de sons em letras que dão origem a desenhos. Além disso, Lenhardt já vinha desenvolvendo um vasto trabalho tingindo tecidos e Anti, no processo de enferrujamento desses aparelhos de som, passou a realizar uma oxidação induzida, com vinagre e outros elementos corrosivos, que revelaram monotipias sobre os tecidos nos quais ela aplicava as substâncias.
A partir daí, Anti fez uma residência no Mundo Bicho, ateliê e sistema agroflorestal de Cristiano Lenhardt em São Lourenço da Mata (PE), onde produziu uma série de peças de algodão cru depositadas sobre estruturas de ferro para enferrujar com o tempo. "Não é uma série, mas uma prática", explica Anti Ribeiro sobre o processo que dá origem a Dobravento 2209, escultura sonora que ocupa o centro da exposição. A partir de expedições a ferros-velhos, a artista coleta objetos e fragmentos industriais abandonados antes de seguirem para a prensa e os transforma em dispositivos sonoros, "imaginando conferir-lhes vida novamente, uma utilidade que aqui está desatada do tempo da produtividade". Na feitura dessas esculturas, Anti toma a ferrugem como textura primordial: "busco oxidar o que não está oxidado". Foi nesse processo que a artista percebeu ser possível extrair formas abstratas de grande beleza, mediadas pela capacidade da ferrugem de estampar superfícies e se fixar. "É dessa etapa que se desdobra parte do trabalho que apresento em Terravulta: a ferrugem como um resíduo desejável, belo, que guarda memórias", diz.
Já Cristiano Lenhardt apresenta trabalhos que vem do seu processo de tingir tecidos com pigmentos naturais. Quando eles acumulam textura e cor suficientes, são recortados, rearranjados e costurados à máquina, até ganharem uma forma que interessa ao artista. Sobre essa base entram peças de cerâmica feitas a partir de argila. "Meu trabalho é todo processual, uma coisa depois da outra, com calma, com atenção, para ver o que aquilo está me sugerindo, que novidade de forma, de textura. É o processo que me interessa", resume Lenhardt.
A escultura sonora Dobravento 2209 ocupa o centro do espaço expositivo. Ao redor dela, as monotipias de ferrugem de Anti Ribeiro ficam suspensas, voltadas para a escultura, enquanto os trabalhos de Cristiano Lenhardt ocupam as paredes. "É um convite para o público também entrar nesse movimento, como se as obras criassem um microcosmo próprio, autônomo. E esse vento, que também é um vulto, é o que atravessa, dobra e balança tudo", explica Rita Vênus.
ARTISTAS
Anti Ribeiro (São Cristóvão, SE, 1995) é artista, produtora sonora, DJ e atua no campo do audiovisual. Formada em Cinema e Audiovisual pela UFPE, desenvolve uma prática transdisciplinar que se alinha às proposições da ficção sônica, explorando o som como território narrativo, especulativo e poético. Sua obra investiga formas expandidas de narrativa e criação sonora, atravessando diferentes linguagens artísticas e propondo experiências sensoriais que desestabilizam convenções estéticas e epistemológicas. Suas composições sonoras já circularam eventos como a Bienal de Veneza de 2022 (ITA), Festival TONO (MEX), Festival AIR (EUA), Serpentine Pavillion (ING), entre outros.
Cristiano Lenhardt (Itaara-RS- Brasil, 1975). Atualmente vive e trabalha em São Lourenço da Mata – PE. Formou-se em Artes Plásticas pela UFSM no ano 2000. Artista multidisciplinar. Atualmente maneja seu sistema de agrofloresta no Território Mundo Bicho localizado em São Lourenço, na Zona da Mata Pernambucana, juntamente com o estudo da espiritualidade como um sistema de informações intuitivas, sagradas e indissociadas da vida/natureza.
SERVIÇO
TERRAVULTA | Anti Ribeiro e Cristiano Lenhardt, com curadoria de Rita Vênus
Onde: Galeria Amparo 60 - No 3º andar da Dona Santa (Rua Professor Eduardo Wanderley)
Quando: Abertura: 13 de agosto, quinta-feira, às 19h. Visitação: De 14 de agosto a 26 de setembro de 2026. Segunda a sexta, das 10h às 19h. Sábados, das 10h às 15h