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A hora e a vez das coroas no bairro de São José

O Baile das Coroas Perfumadas é uma homenagem à saudosa carnavalesca Badia. No Pátio do Terço também é realizada a Noite do Tambores Silenciosos

TEXTO Cleide Alves

10 de Fevereiro de 2026

A Igreja do Terço é um monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

A Igreja do Terço é um monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe

O Pátio do Terço, herança do período colonial brasileiro, é um ancião no Centro do Recife. Esse velho reduto viu frei Caneca ser despojado de suas vestes sacerdotais antes de ser arcabuzado, em 1825. No século 20, abrigou a primeira casa de culto nagô da cidade e assistiu ao nascimento da cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos, um dos momentos mais simbólicos do Carnaval. Nesta quarta-feira (11/2), o pátio viverá outro ritual, desta vez, para eleger a coroa mais perfumada do bairro de São José.

Se você faz parte do clube, não se acanhe e apareça por lá, a partir das 18h, para esbanjar simpatia, beleza, charme e, claro, perfume! O Baile das Coroas Perfumadas do Pátio do Terço não tem portaria nem cordão de isolamento. Está aberto a todas e a todos que gostam de curtir o bom Carnaval. Também não é necessário fazer inscrição. Qualquer coroa que participar da festa é uma potencial candidata ao troféu e será avaliada pela comissão julgadora. Agora, isso não elimina um desfile para exibir os dotes.

“A comissão julgadora, formada por cinco pessoas que serão escolhidas na hora, entre os convidados, vai observar a roupa mais incrementada, a maquiagem, os acessórios”, avisa Maria Lúcia Soares, organizadora do baile. Ela é filha de criação e prima de Maria de Lourdes da Silva (1915-1991), a famosa Badia, costureira e mãe-de-santo do Pátio do Terço. Era Badia quem mantinha a antiga casa de culto nagô, no imóvel de número 143 do pátio, e ajudou a criar a Noite dos Tambores Silenciosos.

Lúcia de Badia informa que não há limite de idade para entrar na folia. “Basta a pessoa se considerar uma coroa”, explica. O traje fica a critério da freguesa. Pode ser fantasia ou não. “O importante é estar toda produzida.” Para animar a festa, já confirmaram presença o Boneco do Pátio de São Pedro,  uma orquestra de frevo e o cantor Carlinhos Monteverde. “Teremos um palanque, uma tenda na rua e mesas com cadeiras”, diz. Toda coroa vai receber um banho de perfume quando chegar ao pátio.

O Baile das Coroas Perfumadas é um louvor à mãe-de-santo, conhecida como a Primeira Dama do Carnaval do Pátio do Terço. “Badia promovia um desfile pelo Bairro de São José, mas quando amadureceu, ficou sem condições de sair às ruas. Depois, criaram o Baile Perfumado, que terminou se acabando, em homenagem a ela. O Baile das Coroas é minha forma de reverenciar Badia”, declara Maria Lúcia Soares. O troféu Troça Carnavalesca Mista Coroas de São José traz estampada uma foto da carnavalesca.

ANCESTRALIDADE

Palco da cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos, na segunda-feira de Carnaval, o Pátio do Terço é um conjunto formado pela Igreja de Nossa Senhora do Terço, construção do século 18, com o casario. A 62ª edição da Noite dos Tambores, em 16 de fevereiro de 2026, reunirá 40 nações de maracatu para celebrar a ancestralidade africana no território ocupado, no passado, por descendentes de escravizados libertos. O encontro é uma homenagem aos negros escravizados e à resistência da cultura afro-brasileira.

Pai Jorge de Bessén, babalorixá da Roça Jeje Oxum Opara e Oxossi Ibualama (Axé Oxossi e Oxumaré), em Jardim Brasil I, Olinda, conduzirá o ritual pelo segundo ano, desde a morte do Tata Raminho de Oxossi. “O ponto alto da Noite dos Tambores Silenciosos é à 0h, quando eu entro para invocar toda a nossa ancestralidade, principalmente as tias do Pátio do Terço: Sinhá, Badia e Yayá”, afirma Pai Jorge de Bessén.  “Eu convido Iansã para trazê-las para o ritual e Iansã também se encarrega de levá-las para a terra dela.”

Participam da cerimônia, a partir das 19h, nações de maracatus do Recife, Olinda, Igarassu e Jaboatão dos Guararapes. “Quando os tambores silenciam, à meia-noite, apenas os Elus, nossos símbolos sagrados, fazem a louvação a todos aqueles que passaram pelo Pátio do Terço”, informa o babalorixá. Dona Sinhá, de acordo com ele, era mãe-de-santo de Raminho de Oxossi. E Badia era casada com um irmão de Raminho. “As histórias se encontram”, observa. O ritual é realizado na frente da Igreja do Terço.

Foi na calçada da Igreja do Terço que frei Caneca (Joaquim do Amor Divino Rabelo) teve suas vestes carmelitas arrancadas, para deixar de ser reconhecido como frade, por ter sido um dos líderes da Confederação do Equador (1824). O casario do pátio, lugar de moradia, gradativamente acompanhou as unidades familiares serem substituídas pela atividade comercial. Maria Lucia Soares, a persistente moradora, vive na casa de número 143 há mais de 65 anos e tem como missão preservar a memória de Badia.

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