Artes Cênicas

Leidson Ferraz garimpa a história do teatro pernambucano nos anos 1960

Jornalista e pesquisador lança em edição digital o livro "Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960”, para download gratuito

TEXTO Marcelo Pereira

22 de Agosto de 2026

Foto Fábio Anjos

Leidson Ferraz volta aos anos 1960 para iluminar um capítulo decisivo da história cultural pernambucana. Jornalista, historiador do teatro, doutor em Artes Cênicas pela UniRio e atualmente em pós-doutorado na Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ), o pesquisador lança sua 14ª obra, Do picante à política: o teatro no Recife dos anos 1960.

Para escrever o livro, Leidson debruçou-se sobre milhares de edições de jornais, periódicos, fotografias raras e documentos. Com incentivo do Funcultura, o livro chega ao público apenas em versão digital e com download gratuito, disponível a partir do dia 26 de agosto, após o lançamento no Teatro Arraial Ariano Suassuna, às 19h.

Na nova publicação, Ferraz reconstrói a dinâmica e contraditória cena teatral recifense da década de 1960, marcada pela convivência entre o teatro rebolado — com suas comédias maliciosas e números de striptease que lotavam espaços como o Teatro Marrocos e a Festa da Mocidade — e um teatro mais tradicional, ainda dependente do “ponto”, mas já aberto às experiências modernas, aos musicais e ao mergulho na cultura popular. Ao mesmo tempo, o pesquisador evidencia o abandono das principais casas de espetáculo, como o Parque e o Santa Isabel, que enfrentavam graves problemas estruturais.

O livro também revisita o impacto do Golpe Civil-Militar de 1964 sobre a atividade teatral, da demora na liberação de textos pela Censura Federal às retaliações e ameaças do CCC. Em meio às tensões, novos espaços surgiram, como o Teatro de Arena, o Teatro da AIP, a sede do TPN e o Teatro Novo, ampliando o alcance da produção local.

Com design de Claudio Lira, a obra traz na capa o brilho do teatro de revista, representado pela modelo Daise Alves, e, sob ele, os porões da Ditadura, com sua violência e censura. Em entrevista ao site da Continente, Leidson comenta detalhes de sua pesquisa e antecipa como era a cena teatral na década de 1960.

CONTINENTE O que motivou você a mergulhar especificamente na cena teatral recifense dos anos 1960, um período tão turbulento e contraditório?
LEIDSON FERRAZ Primeiramente, o fato de eu já ter realizado duas outras pesquisas sobre períodos anteriores, a primeira intitulada Um teatro quase esquecido: painel das décadas de 1930 e 1940 no Recife, lançada em 2015, e a segunda O teatro no Recife dos anos 50: tentativas de reafirmação da Modernidade, que concluí em 2019, ambas com incentivo do Funcultura. A década de 1960 seria o meu próximo foco, naturalmente, pois sonho em um dia finalizar um projeto que abarque a dinâmica do teatro em Pernambuco por todo o século XX. Pretendo, inclusive, me voltar mais atentamente às suas duas primeiras décadas (já citadas em outros livros meus, mas não especificamente), só que é preciso maior fôlego e recursos. Quanto aos anos 1960, que também já aparecem em outras publicações minhas – por exemplo, no setor do teatro para as infâncias –, eles têm um charme especial pelo próprio título que dei à obra, “Do Picante à Política”, pois é um momento de ousada liberalidade, por conta da presença do teatro rebolado e das comédias maliciosas, mas também de extrema repressão, devido à instauração da Ditadura Civil-Militar no país e as perseguições e censuras cometidas. Essa dicotomia me interessava abordar.

CONTINENTE Durante sua pesquisa, quais foram as descobertas mais surpreendentes sobre o teatro rebolado e sua relação com o público popular da época? A elite cultural pernambucana frequentava também estes espaços?
LEIDSON FERRAZ O teatro rebolado ganhava espaço, principalmente, na Festa da Mocidade (especialmente quando ocorria no Parque 13 de Maio) e no Teatro Marrocos, casa de espetáculos que era situada ao lado do Teatro de Santa Isabel, colada ao Liceu de Artes e Ofícios, locais frequentados por todas as classes sociais (ainda que eu saiba que a elite se escondia para estar ali presente). O que mais impressiona, independente da qualidade do que era apresentado (e a crítica local ou ignorava por completo o que ali se exibia ou destruía os trabalhos frequentemente, tendo um jornalista até pedido a intervenção do Exército para coibir um dos provocantes espetáculos – não produzidos por Barreto Júnior, vale lembrar, mas por empresários como Ítalo Cúrcio, Divaldo Ribeiro, Dempsey Leite, Hamilton Fernandes ou Ayres Leite), era a quantidade de gente empregada, de atores e atrizes comediantes, às girls, vedetes, “minivedetes”, bailarinos, músicos de orquestra, afora toda a equipe técnica. Um arsenal de gente para levar malícia e provocar o riso, quase sempre atraindo pequenas multidões (na sua maioria formada por homens que queriam ter a oportunidade de ver os nus femininos).

CONTINENTE Qual o papel e importância de Barreto Júnior no contexto de tua pesquisa?
LEIDSON FERRAZ Barreto Júnior é uma presença constante desde final da década de 1920. Fez um teatro que acreditava (repleto de “pecados” aos olhos da maioria dos críticos da época, como a desvirtuação das obras e das personagens, tudo para gerar graça), e não abandonou o seu estilo “chanchadeiro”, improvisado, mesmo diante das inúmeras cobranças. No entanto, nunca usou palavrão ou pornografia, apesar de também ter investido – pouco, é verdade – nos números de striptease. Virou um ícone, amado pelo público, mas no final dos anos 1960 já se percebe que a sua fórmula estava desgastada. Até mesmo amigos da redação jornalística, como Adeth Leite, crítico do Diario de Pernambuco, que quase sempre o defendia, alertou a ele sobre isso. O mundo muda e o teatro acompanha isso. Barreto saiu de cena vivendo esse impasse.

CONTINENTE O texto menciona a coexistência entre tradição e modernidade no teatro recifense. Como essa tensão se manifestava na prática dos grupos e artistas?
LEIDSON FERRAZ Havia muita tensão especialmente nos embates entre os jornalistas que cobriam o setor teatral. Por um lado, há aqueles mais jovens que cobravam uma renovação total – não só em termos dramatúrgicos, mas de concepção do próprio teatro que se fazia, com muitos ainda atrelados a procedimentos totalmente em desuso (a exemplo do profissional do “ponto”, que soprava falas aos intérpretes; dos poucos ensaios e de uma cena marcadamente improvisada) –; e do outro, há os que ainda não atualizaram seu olhar e teimavam em reclamar das ousadias de então, como as “peças-shows-experiência”, primeiros exemplos de um teatro musical mais politizado, ou mesmo as liberdades tomadas pelos encenadores a partir de textos clássicos. E tudo então se resumia a um “comício”, no olhar dos mais tradicionais. Esses debates foram bem frequentes nos anos 1960.

CONTINENTE A falta de casas de espetáculo bem equipadas era um problema recorrente. E ainda persiste até hoje. De que forma essa precariedade impactou a produção teatral da década?
LEIDSON FERRAZ O que mais li nas matérias de jornal foi sobre o descaso do poder público daquela época. Mesmo com o Teatro do Parque voltando a ser teatro em 1959, depois de décadas funcionando apenas como cinema, tanto ele quanto o Teatro de Santa Isabel sofreram desgastes terríveis e quase nenhum reparo estrutural pela Prefeitura do Recife ou mesmo o Governo Federal. Houve muita promessa não cumprida e ambas as casas de espetáculos passaram por toda a década de 1960 como locais de extrema reclamação por parte do público, da imprensa e dos fazedores teatrais, tanto daqui quanto de fora. Para piorar, em 1968, o prefeito Augusto Lucena criou taxas exorbitantes e a cena quase parou. Recife era a única capital do país a cobrar taxas tão elevadas e isso impactou bastante: grupos deixaram de trabalhar, turnês foram canceladas, mas os protestos aconteceram tão veementemente – numa época em que a classe ainda se mantinha unida – que conseguiram reverter a guerra iniciada.

CONTINENTE Espaços como o Teatro de Arena, o Teatro da AIP, o TPN e o Teatro Novo do Recife surgem como polos importantes. Qual deles teve papel mais decisivo na transformação da cena teatral?
LEIDSON FERRAZ Todos foram importantes, mas tenho carinho especial pela pequenina sede do TPN (Teatro Popular do Nordeste), que era na Avenida Conde da Boa Vista, porque ali se viu um Hermilo Borba Filho ou um Benjamim Santos à frente de espetáculos que instituíram uma estética e uma poética bem próprias do Nordeste, pautada nas manifestações populares, mas dialogando com o teatro do mundo. Felizmente temos registros em livro sobre a trajetória ali desenvolvida. As outras casas de espetáculos sofrem desse mal de atenção. Ainda há muitas pesquisas por fazer. Nesse meu trabalho, cito vários outros espaços teatrais, como o Teatro da Basílica da Penha, o Teatro da Exposição Nacional de Municípios, os auditórios do Colégio Estadual de Pernambuco, do Colégio Vera Cruz, do Colégio das Damas Cristãs, da Faculdade de Filosofia de Pernambuco (Fafipe) e da Faculdade de Filosofia do Recife (Fafire), o Teatro da Escola Técnica Federal de Pernambuco e até o Teatro de Bolso do Recife, que estava prestes a ser inaugurado em 1964, mas teve seu projeto abortado de última hora.

CONTINENTE Com o Golpe Militar de 1964, novas dificuldades surgiram. Como você avalia o impacto da censura e das ameaças do CCC sobre os artistas do Recife? E como a classe teatral enfrentou este período? A saída foi pelo desbunde?
LEIDSON FERRAZ O impacto foi brutal para todo o país, mas especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo. No Recife, alguns espetáculos tiveram que ser cancelados, grupos desfeitos (o Teatro de Cultura Popular, ligado ao Movimento de Cultura Popular, foi forçosamente extinto, assim com o Teatro dos Bancários), mas o pior entrave era a espera para saber se os textos seriam ou não liberados pela Censura Federal (agora centrada em Brasília), e se os cortes impostos desvirtuaram ou não por completo as obras. Houve ameaça de bomba em teatro, artistas desapareceram de circulação (prisões e fuga), mas o desbunde não é uma característica desses primeiros anos de Ditadura Civil-Militar. Isso se dará mais na década de 1970, um período ainda bem pior em termos de repressão. Quanto ao enfrentamento, aponto que a classe teatral ainda estava um tanto anestesiada diante do impacto, e houve pouca articulação para protestos, pelo menos no Recife. Isso se deu bem mais pela imprensa teatral da época.

CONTINENTE Comparando com outras capitais, você afirma que a repressão no Recife foi mais branda. O que explica essa diferença e como ela se refletiu na produção local?
LEIDSON FERRAZ Acredito que a produção dramatúrgica não foi tão provocante quanto no Rio e em São Paulo. Na verdade, nesses primeiros anos de Ditadura, poucos textos oriundos do Recife foram de fato censurados (mas há casos absurdos como uma montagem do infantil Maria Minhoca, que não pôde seguir adiante, pois entenderam que havia uma mensagem subliminar contra o Exército devido à personagem Capitão Quartel; ou do dramaturgo Otto Prado, que teve a peça Um santo homem proibida em todo o território nacional; além de vários títulos que precisaram ser modificados). Na década de 1970 é que os casos mais absurdos explodiram e os protestos, aí sim, aumentaram.

CONTINENTE A capa do livro traz a dualidade entre o glamour do teatro de revista e a violência dos porões da Ditadura. Como essa imagem sintetiza o espírito da obra?
LEIDSON FERRAZ Total, porque no correr das páginas vê-se claramente que havia uma dualidade entre o que era liberado e o que passou a ser proibido, sem muitas explicações para ambos os casos. É um momento de intensas contradições.

CONTINENTE Você destaca a importância de dar visibilidade também aos grupos à margem. Quais foram os mais atuantes e importante e que histórias desses grupos menos conhecidos mais te marcaram?
LEIDSON FERRAZ Por conta da ausência de registros anteriores, dei muita atenção àquelas companhias de revistas ou de teatro rebolado que se formavam na tentativa de sobreviver financeiramente. Fiz questão de citar nomes dos envolvidos e acho que as mulheres têm um papel de destaque nessa minha obra. Artistas que, muitas vezes, só tinham o corpo para se exibir em números de striptease. Achei, inclusive, alguns depoimentos bem fortes, de algumas que renegavam o trabalho depois ou sempre sonharam em sair daquela vida. Com o fim do Teatro Marrocos em 1970, elas sumiram do meio artístico.

CONTINENTE O livro reúne festivais, intercâmbios, visitas ilustres e processos censórios. Qual desses elementos melhor revela a efervescência cultural dos anos 1960?
LEIDSON FERRAZ Eu gosto de pensar nessa pluralidade para registrar o quão dinâmico o tempo teatral pode ser. Tudo me interessava registrar e acho que fiz um verdadeiro compêndio sobre os anos 1960 – com muitas imagens raras por toda a publicação – e a relação da cena com os mais diversos acontecimentos daqueles tempos. É um livro que servirá para pesquisas futuras, certamente. Eu torço por isso.

CONTINENTE Após analisar milhares de jornais, fotografias e programas de espetáculo, qual foi o maior desafio na construção dessa historiografia?
LEIDSON FERRAZ Encontrar material. Temos uma carência enorme de acervos (tudo do Teatro Marrocos, por exemplo, foi perdido, e só nos resta o que saiu em jornais). Por isso eu reclamo tanto que as pessoas de teatro e o poder público precisam estar atentos aos acervos da nossa cena. É papel de cada um contribuir para pesquisadores que virão nos tempos futuros.

CONTINENTE Esta é sua 14ª publicação. Como este livro dialoga com sua trajetória como pesquisador teatral e o que ele acrescenta ao entendimento da história das artes cênicas no Brasil?
LEIDSON FERRAZ Acho que sou um incansável na busca por registros da história teatral brasileira. E a de Pernambuco, por ser o meu lugar, ganha um contorno especial. Tomara que minhas publicações despertem outros curiosos a também se debruçaram sobre aspectos que ainda não tratei ou ampliem a discussão por mim apontada. E aí veremos que o Brasil é realmente tão amplo, mas certas histórias se repetem, outras são muito particulares. Mas todas devem interessar. Eu luto por isso.

Leia aqui o depoimento de Leidson Ferraz sobre a cena teatral pernambucana atual

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