Artes Cênicas

Leidson Ferraz faz um balanço do teatro pernambucano da atualidade

Jornalista e historiador do teatro tem uma visão crítica sobre o momento delicado as artes cênicas, com a diminuição de produções, de público e de temporadas

TEXTO Marcelo Pereira

21 de Agosto de 2026

Foto Fábio Anjos

O teatro pernambucano, especialmente no Recife, vive um momento delicado. A avaliação é do pesquisador, ator e diretor Leidson Ferraz, que observa uma mudança profunda na dinâmica de produção, circulação e participação do público. “Infelizmente, a perspectiva que eu tenho do teatro pernambucano não é positiva”, afirma. Para ele, a perda progressiva de espaços e o desaparecimento das temporadas longas comprometeram a vitalidade da cena. “Você ensaia durante muito tempo e acaba tendo pouquíssimas oportunidades de exibição.”

Com pautas curtas, limitadas a poucos dias por temporada, os grupos enfrentam dificuldades para manter espetáculos em cartaz. “A maioria dos teatros é pública e isso cria uma rotatividade constante, porque Estado e Prefeitura entendem que é preciso renovar atrações o tempo todo”, explica Ferraz. A consequência direta é a redução de companhias que antes garantiam presença frequente na programação cultural. “Os grandes produtores pararam de fazer espetáculos. Muita gente deixou o teatro.”

Ao mesmo tempo, uma nova geração de artistas, muitos vindos das universidades, ocupa a cena. Porém, segundo Ferraz, essa chegada não é suficiente para recompor o ecossistema. “São pessoas muito novas, que veem pouco teatro, frequentam pouco as casas de espetáculo, mas querem estar no palco”, observa. Ele destaca que a falta de contato prolongado com o público prejudica o amadurecimento artístico. “Eles montam espetáculos com vida muito curta, apresentações pontuais, sem a experiência de estar em cartaz todo fim de semana. Isso praticamente desapareceu no Recife.”

Para o artista, essa dinâmica acelerada reflete comportamentos contemporâneos. “A relação com as redes sociais se traduz no teatro: tudo nasce e morre muito rápido”, diz. Segundo ele, a efemeridade impacta valores essenciais do ofício. “O amor verdadeiro ao teatro, a dedicação, a entrega total, estão sendo prejudicados. Parece que tudo precisa acontecer agora e logo se passa para a próxima coisa.”

A pandemia intensificou esse enfraquecimento. Ferraz avalia que o setor ainda não se recuperou totalmente. “Aquele momento terrível distanciou ainda mais as pessoas”, afirma. Para ele, isso contribuiu para a desarticulação da classe. “As entidades representativas perderam força. Tudo ficou muito pulverizado.”

O surgimento de políticas emergenciais, como as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, trouxe alívio, mas também reforçou o modelo de produção acelerada. “Essas leis abriram espaço para novos coletivos montarem seus espetáculos, mas são iniciativas efêmeras. Os grupos apresentam poucas vezes e já partem para o próximo edital”, analisa. A ausência de projetos estruturadores, afirma ele, deixa o teatro em uma posição instável. “Não há políticas consistentes de manutenção.”

Mesmo nesse contexto, alguns grupos resistem. “As Cênicas Companhia de Repertório, a Companhia Fiendeiros de Teatro e o Grupo Posto de Soluções Luminosas sobrevivem porque, além de produzir, dão aulas. O investimento em formação ajuda a manter as atividades”, comenta Ferraz. Segundo ele, a proliferação de cursos de teatro reflete o grande interesse do público, embora não necessariamente resulte em continuidade artística. “Todo mundo quer fazer teatro, mas poucos vivem a experiência real da temporada, do dia a dia cênico.”

Apesar do cenário desfavorável na capital, Ferraz identifica movimentos positivos no interior do estado. “O interior de Pernambuco tem uma perspectiva muito melhor”, afirma. Cidades como Petrolina, Arcoverde e Limoeiro acumulam trajetórias consolidadas e desenvolvem pesquisas continuadas. “Esses grupos não fazem teatro de velocidade rápida. Eles constroem projetos profundos, de intercâmbio, circulação e participação em festivais.” Para ele, esse comprometimento resulta em produções mais consistentes do que as realizadas atualmente no Recife. “O interior está em uma posição muito mais bonita de se ver.”

Mesmo assim, Ferraz reforça que a paixão pelo teatro precisa ser cultivada com tempo, convivência e permanência. “Vejo muita gente interessada em ir para as redes sociais, em fazer cinema. Mas o amor intenso pelo teatro não nasce dessa chama fugaz”, afirma.

“Existe público para teatro em Pernambuco, mas, nessa ideia de que os espetáculos acontecem muito pontualmente, as plateias são formadas por amigos e familiares, muito específicas, compostas por pessoas próximas aos artistas. Você não cria um público em geral”, destaca o pesquisador. “Quando a gente tinha a possibilidade de cumprir temporada, havia um público mais diverso — aí você tinha a noção de que estava chegando a outras pessoas para além do seu nicho”.

Os grupos de teatro do Recife disputam a pauta com espetáculos de fora levando, quase sempre, um grande público. “Para esses espetáculos, sempre há público, principalmente em teatros como o Parque Santa Isabel e o Luiz Mendonça, porque têm mídia, são espetáculos que ganham uma divulgação interessante. O público do Recife gosta de teatro, mas as montagens locais ainda estão muito restritas, infelizmente”, conclui.

Leia aqui a matéria sobre o lançamento de Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960, novo livro de Leidson Ferraz.

DEPOIMENTO LEIDSON
Infelizmente, a perspectiva que eu tenho do teatro pernambucano, mais especificamente no Recife, não é muito positiva. Com o passar dos anos, nós perdemos muitos espaços, não só em termos de casas de espetáculos, mas também pela transformação que fez com que não mais existissem temporadas longas. Isso prejudica muito, absurdamente, a constância de espetáculos em cartaz. Por quê? Você gasta muito tempo para ensaiar uma montagem e acaba tendo poucas oportunidades de exibição.

As pautas dos teatros são supercurtas. Então, você cumpre uma semana — quatro dias, quatro noites de apresentação, três noites — no máximo duas semanas. Essa é a realidade da cena teatral aqui em Pernambuco, mas também em outros lugares, porque os teatros que nós temos, em sua maioria, são espaços públicos. Não há muitas iniciativas particulares. Isso inviabiliza, porque o Estado e a Prefeitura entendem que deve haver uma constância grande de atrações renovadas.

Essa é uma prática que já vem acontecendo há alguns anos e que hoje a gente sente claramente. Os grandes produtores pararam de fazer espetáculos. Não temos mais aquelas companhias que sempre estavam em cartaz. Muita gente parou de fazer teatro.

Por outro lado, surgiu uma nova geração, muita gente vinda da própria universidade. Elas não têm a experiência de estar em cartaz todo final de semana. Isso praticamente morreu aqui no Recife. São poucos os espetáculos que conseguem fazer isso. Isso muda bastante o trabalho do ator, porque a relação com o público é fundamental para descobrir como se dá esse encontro. São pessoas muito novas, que veem pouco teatro, que frequentam pouco as casas de espetáculos, mas querem estar no palco.

E aí elas se juntam: surgem grupos, coletivos, experiências que montam peças de teatro que vivem pouquíssimo, têm uma sobrevida muito curta, são apresentações pontuais. Essa geração que substituiu a antiga reflete a vida de hoje. Tudo é muito rápido.

A relação que temos com as redes sociais se traduz no que vemos no dia a dia. As peças nascem e morrem, entram em cartaz e saem, com a mesma velocidade. Eu sinto — é uma preocupação minha — que o amor verdadeiro ao teatro, a dedicação, a paixão, a entrega total ao teatro têm sido muito prejudicadas nessa relação tão efêmera, que reflete o nosso cotidiano, muito influenciado pelas redes sociais. Parece que tudo tem que ser agora e já, e acabou. Pronto, já vamos para a próxima. Como ao passar o dedo no celular: as notícias vêm e vão, vêm e vão, vêm e vão, e pouco fica. Então, acredito que essa situação, infelizmente, acontece hoje no teatro em Pernambuco.

Sobre a questão da pandemia, acho que ainda não nos reerguemos. Aquele momento terrível fez com que as pessoas se distanciassem cada vez mais. O reflexo disso é a desarticulação da classe teatral para reivindicar junto ao poder público. Não temos mais entidades aglutinadoras fortes: elas estão muito pulverizadas, como se cada um estivesse no seu quadrado. Aquele movimento de teatro coletivo, combativo, de muita força, está bem enfraquecido.

Isso repercute na falta de diálogo com o poder público. Por outro lado, desde que surgiram as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, abriu-se espaço para novos coletivos e novos artistas — essa nova geração que eu menciono — conseguirem recursos para montar seus espetáculos, mesmo que tenham vida curta.

Surgiram várias experiências pontuais, muitas pautadas em questões identitárias, um tema latente no país inteiro. É um ganho, mas, assim como as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, são conquistas, mas também efêmeras. Infelizmente, não há projetos estruturadores, não há projetos estruturadores.

Os grupos que têm sede conseguem produzir com um pouco mais de frequência, mas também enfrentam dificuldades, porque o leque se abriu bastante e a competição está cada vez maior. Hoje sabemos que a trajetória histórica de um grupo não pesa tanto; outras questões estão em pauta.

Nesse cenário nebuloso, pensando em Pernambuco, acredito que o interior do estado tem tido uma perspectiva bem melhor. Por conta dos editais abertos, que contemplam o estado inteiro — diferente do Recife —, grupos de trajetória longa têm conquistado recursos para suas manutenções.

E isso repercute na profundidade do trabalho desenvolvido, na relação com outros espaços, festivais, circulação, intercâmbio e eventos mais estruturados. Sinto que a produção do interior de Pernambuco — especialmente Petrolina, Arcoverde e um pouco Limoeiro — tem se destacado nos últimos anos, porque vêm de coletivos consolidados e que não fazem teatro oba-oba de velocidade rápida. Querem projetos de pesquisa continuada. Esses interiores estão em uma posição muito mais bonita de se ver do que a produção da capital.

Mas ainda há aqueles que sobrevivem. Com espaços alternativos, posso citar as Cênicas Companhia de Repertório, a Companhia Fiendeiros de Teatro e o Grupo Poste de Soluções Luminosas. Por quê? Porque se mantêm também dando aula. São coletivos que, além de produzir espetáculos, investem na formação de novos artistas, e essas atividades bancam parte importante das produções.

Hoje, todo mundo quer fazer teatro. Se você prestar atenção, há uma quantidade enorme de cursos abertos, muita gente vinda da universidade, outros artistas que se descobriram educadores, com qualidades as mais diversas. É preciso estar atento a isso. Todo mundo está dando aula de teatro e há um público enorme querendo fazer teatro. Mas ir para a cena, viver a experiência da temporada, vivenciar o dia a dia, isso não acontece.

Acredito que essa profusão de gente querendo fazer teatro é mais para ir às redes sociais, fazer cinema… E o amor intenso ao teatro, acho que não nasce dessa chama tão fugaz.

Existe público para teatro em Pernambuco, mas, nessa ideia de que os espetáculos acontecem muito pontualmente, as plateias são formadas por amigos e familiares, muito específicas, compostas por pessoas próximas aos artistas. Você não cria um público em geral. Quando a gente tinha a possibilidade de cumprir temporada, havia um público mais diverso — aí você tinha a noção de que estava chegando a outras pessoas para além do seu nicho.

Agora, com relação aos espetáculos de fora, sim, eu acho que sempre há público, principalmente em teatros como o Parque Santa Isabel e o Luiz Mendonça, porque têm mídia, são espetáculos que ganham uma divulgação interessante. E eu acho que o público do Recife gosta de teatro, mas as montagens locais ainda estão muito restritas, infelizmente.

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