Essa preocupação com a formação e profissionalização da cena de teatro em Caruaru é um dos pilares que marcam o festival. Por isso, o Teatro Experimental de Arte tem firmado uma importante parceria com a Universidade Federal de Pernambuco em um projeto de extensão para troca de conhecimentos. “Desde o começo, os fundadores do TEA acreditavam que era preciso renovar o olhar para a cena e convidaram os professores do departamento de teatro da UFPE, que na época ainda era Universidade do Recife, para irem ministrar aulas em Caruaru”, recorda Marianne Consentino, Coordenadora do Curso de licenciatura em Teatro da UFPE.
Essa ponte entre o Departamento de Teatro da UFPE, criado em 1958, e o Teatro Experimental de Arte de Caruaru, de 1962, segue firme até hoje. “Tem professores que estão ativos no departamento e ministram cursos no TEA. Essa vocação de formação em teatro que pauta a Universidade é uma preocupação do TEA, também. É uma parceria muito antiga desde que o TEA foi criado, temos esse trânsito com os professores daqui”, diz Marianne.
“Por outro lado, existe também um trânsito dos alunos de lá para a Universidade. Recebemos muitos alunos no curso de teatro que passaram pelo FETEAG”, completa.
O idealizador e curador da mostra Fábio Pascoal aposta na parceria com os cursos de teatro. Foto: Divulgação
A professora explica que, institucionalmente, o vínculo ficou ainda mais forte a partir do ano de 2016, com a formalização de uma parceria de estágio para os alunos da graduação de Teatro e a realização de projetos de extensão. Um deles, focado no festival, desenvolve várias ações de processo formativo, com palestras abertas para o público de artistas que vem se apresentar no FETEAG, oficinas de teatro, inserção dos estudantes que estão na graduação na produção de espetáculos do festival no Recife e também uma série de parcerias com disciplinas do curso.
“Por exemplo, temos uma disciplina de Gestão e Edição Cultural, então fazemos um diálogo com o FETEAG e os alunos têm uma prática com uma vivência que está relacionada ao conteúdo da disciplina”, explica Marianne. Além disso, também há a participação de estudantes graduandos e egressos em montagens profissionais que o FETEAG traz, em que se cria um núcleo de apoio de elenco local.
Isso aconteceu porque um dos interesses da curadoria do festival tem sido, há alguns anos, o de estabelecer o diálogo entre artistas de diferentes localidades, explicitando a universalidade da arte, ao mesmo tempo em que enfatiza as particularidades dos corpos e territórios. Por exemplo, nesta edição de 2023, o evento estabelece mais uma parceria com o francês Jérôme Bel, cuja obra Gala foi encenada no FETEAG em 2021 e que retorna com um espetáculo que leva o seu nome.
Desde 2019, por princípio ecológicos, o coreógrafo e sua companhia não viajam mais de avião, o que o levou a estabelecer parcerias com artistas de diversos países. Esses projetos acabam assumindo uma característica híbrida, participativa e inédita, pois encontram vivências e modos de fazer específicos em cada lugar. Ou seja, Jérôme dirige um núcleo local do espetáculo à distância, o que permite uma rica troca de experiências.
Miró: Estudo nº 2, Grupo Magiluth/PE. Foto: João Maria Silva/Divulgação
“Na curadoria, pensamos sempre naqueles projetos que chamo de transnacionais, como o espetáculo de Jérôme Bel, ou transestaduais, quando os conceitos vêm de outros países ou estados e os espetáculos são executados por atores ou performers locais. Estamos fazendo esse movimento desde 2010, quando trouxemos Kelbilim, o cão da divindade, do Lume (SP), e montamos um coro local para a peça. Também fizemos com Batucada, do Piauí, em 2018, e Gala, de Jérôme, em 2021. Neste ano, além de Jérôme Bel, que contará com Marcelo Sena como performer, também teremos Looping Bahia Overdub, com alguns integrantes baianos e outra parte formada por artistas de Pernambuco, que dão esse jeito local do espetáculo. Acreditamos que esse modelo faz com que quem está participando se sinta mais conectado com o festival, sinta que é, de fato, parte integrante da programação”, explica Fábio Pascoal.
Ao longo dos anos, algumas companhias também foram se tornando parceiras habituais do FETEAG. É o caso do grupo pernambucano Magiluth que compartilha da mesma ideia de teatro que move e fundamenta o festival. “A gente já participa do FETEAG há muito tempo e, praticamente, vamos a todas as edições desde a primeira vez. Sempre que estamos com espetáculo novo, nos apresentamos. É um festival em que nós temos muito carinho pela história familiar que faz parte da construção dele. Fica muito evidente na forma como é tratada toda a produção, sempre com muito respeito e gentileza”, afirma Giordano Castro, ator e membro do grupo. Este ano, o grupo se apresenta com o espetáculo Miró: Estudo nº 2.
Segundo Giordano, o que marca o FETEAG é a sua busca por maneiras diversas de se produzir teatro. “Sempre, na curadoria de Fábio, não é uma busca somente por um teatro contemporâneo, e eu acho que é isso também. Mas, eu vejo que é sempre uma busca por pensar as possibilidades do fazer. Pensar o fazer teatro, para além de uma ideia convencional que se tem ou das ideias primárias de produção”, resume Giordano.
“Tem um olhar para o teatro de rua, para a performance, é um olhar muito amplo. E o que eu acho que é muito legal quando penso na própria história do FETEAG, que surge de um olhar para o estudante, existe essa preocupação de levar para Caruaru um teatro que, muito provavelmente, quem estuda e vê aquilo tem uma explosão de sentimentos”, afirma o ator. Segundo ele, o festival é uma oportunidade do público de Caruaru ter contato com o que está sendo produzido nas artes cênicas de todo o mundo, formando uma trincheira no Agreste para o teatro global.
Bípede sem pelo, Alexandre Américo/RN. Foto: Listo Produções/Divulgação
Foi ainda na época de estudante que a atriz Nanda Mélo teve sua primeira experiência com o FETEAG e, a partir dessa experiência, expandiu seus horizontes como artista. “Como estudante da educação básica pude vivenciar estar ‘num palco de verdade’ sendo uma jovem atriz em formação, apresentando a criação que envolvia toda uma estrutura de encenação. E o fato de o FETEAG existir dava aos grupos locais uma certeza de que o trabalho realizado viveria experiências para além dos muros da escola. Isso me empolgava e fazia sonhar”, lembra.
“Também foi no FETEAG que assisti a alguns espetáculos que marcaram minha vida e me deram uma sensação de ‘quero fazer isso’. Ou seja, o festival fez parte da minha formação de maneira muito especial e hoje, como artista e educadora, percebo a grandeza e importância disso”, completa a atriz que, este ano, estará novamente no festival com o espetáculo Do céu do meu quintal.
EDIÇÃO 2023
Este ano, o FETEAG também apresenta uma reformulação nas suas mostras, homenageando artistas de destaque para o teatro de Pernambuco. Entre as novidades está a Mostra Hilda Felipe, nome da artista e agitadora cultural da cena caruaruense, que é inspirada no Festival Fringe de Edimburgo, na Holanda, e que abarca expressões artísticas diversas. O objetivo é abrir espaços para artistas emergentes e independentes, que poderão compartilhar com o público suas criações. As inscrições foram abertas no site do festival e, ao todo, foram recebidos mais de 60 trabalhos nas linguagens de teatro, dança, literatura, música e audiovisual.
A antiga Mostra Profissional foi renomeada como Mostra Argemiro Pascoal, em homenagem ao ator e teatrólogo fundador do Teatro Experimental de Arte (TEA). A Mostra Erenice Lisboa (anteriormente Mostra Infantil) celebra o legado da dramaturga caruaruense, conhecida por seu trabalho voltado para o público infantil.
Como vem acontecendo há alguns anos, o FETEAG também cria um ambiente prolífico para as diferentes linguagens artísticas. Este ano, o circo ganha destaque com o trabalho dos pernambucanos na Cia Devir, que têm desenvolvido uma pesquisa que coloca a arte circense em diálogo com o teatro e a dança, e será apresentado na rua. Do Rio Grande do Norte, participa o renomado grupo Giradança, que conta com bailarinos de diferentes corpos, incluindo pessoas com deficiências físicas e intelectuais.
Alexandre Américo, diretor do Giradança, destaca a importância de um festival que se relaciona com a academia de maneira prática e objetiva. “Faltam mais experiências nesse sentido, é muito raro. Quando surge um bom projeto universitário, alinhado ao tempo, ele sai da universidade, a tendência é deixá-la. É natureza da academia tardar, eu acho que as artes são muito velozes, orgânicas, aí fica difícil conciliar esse movimento de ruptura com o de conservação dentro do ambiente acadêmico, mas é muito importante isso e eu gostaria de que houvesse mais”.
Graça, Giradança/RN. Foto: Brunno Martins/Divulgação
Este ano, Alexandre se apresenta no festival com o espetáculo Bípede sem pelo, peça que traz a ideia do animal humano, e revela, assim, feito um corpo-que-dança-em-transe-que-dança-corpo, um evento estético que nos põe em continuidade com as coisas mundanas. “É um trabalho que eu venho desenvolvendo desde 2020 e que estreou em 2022. É um segundo movimento de uma corrente do meu pensamento estético que tem a ver com a reflexão do humano e a morte, a contemplação da morte para se pensar. A morte como passagem, espelho para se pensar a vida”, conta. “É um lugar que não é mórbido, mas, sim, o de reinventar o que rodeia esse universo da ideia de morte e me conecta diretamente com a ideia de ancestralidade, e como ela é viva e atemporal.”
O artista e curador Felipe de Assis ressalta o espírito singular do festival em fomentar as artes. “Esse tipo de iniciativa que faz um intercâmbio entre produções de fora do território com artistas locais é uma maneira de estimular não somente novas produções, novos artistas, mas também de criar um público que é capaz de compreender a complexidade das artes que se fazem atualmente”, resumiu. “Todo o mundo conhece, bem ou mal, alguma maneira mais tradicional ou mais comum de produzir trabalhos artísticos e o que o FETEAG faz é, justamente, dizer ‘existem essas maneiras, mas existem outras também’”. Para o diretor do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, quando se apresenta novas possibilidades de fazer e pensar arte e cultura, é oferecida também para o público a possibilidade de criar futuros.
Felipe participará da Oficina Montagem Looping: Bahia Overdub, uma criação colaborativa dele em conjunto com Leonardo França e Rita Aquino. Suas práticas interdisciplinares atravessam a dança, o teatro e a música articulando criação, produção, pesquisa, formação e curadoria em diferentes contextos. “O projeto surge a partir de uma investigação sobre repetição e acumulação, procedimentos que relacionamos com uma discussão sobre a cultura, com suas reiterações e transformações, afirmações e deslocamentos”, define Rita Aquino, artista, professora e pesquisadora de dança.
Já no fim da agradável conversa, regada por um bom café, pergunto para Fábio Pascoal, da onde vem a sua visão e relação com o teatro, ao que ele credita, de maneira leve, à criação dos pais, bem como o que o motiva a continuar nas coxias dos espetáculos e essa resposta revela alguém muito ciente de seu papel. “Fazer teatro para mim é continuar a mobilizar uma cena e as pessoas para pensarem e saírem desse lugar-comum que alguns já estão acostumados”, conclui com a serenidade de quem sabe o valor e a importância do que está fazendo.
YURI EUZÉBIO, jornalista.