Curtas

RRR: Revolta, rebelião, revolução

O novo 'blockbuster' de S. S. Rajamouli tem como palco a Índia pré-independente da década de 1920

TEXTO Danilo Lima

05 de Outubro de 2022

Os autores N.T Rama Rao Jr. e Ram Charan protagonizam o filme

Os autores N.T Rama Rao Jr. e Ram Charan protagonizam o filme

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 262 | outubro de 2022]

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Já não me lembro da última vez em que me empolguei de fato com um blockbuster. Em meio a tantos lançamentos insossos e expectativas artificiais de Hollywood, fui encontrar a solução em um lugar um pouco mais distante, na verdadeira maior indústria cinematográfica do mundo. RRR: Revolta, rebelião, revolução (2022) é o mais novo épico indiano a chamar a atenção da crítica e entrega um espetáculo com tudo o que se pode esperar de um filme pipocão. Por ser uma indústria autossustentável e voltada para o mercado interno, o filme infelizmente não chegou às salas de cinema pelo mundo, mas pode ser conferido no Brasil pela plataforma Netflix.

Ambientado na Índia pré-independência da década de 1920, o longa conta a história do guerreiro Bheem (N.T. Rama Rao Jr.), cujo objetivo é resgatar uma criança que foi tomada dos braços de sua mãe por um governante inglês local (Ray Stevenson). Do outro lado, está Raju (Ram Charan), um soldado indiano que trabalha para o exército britânico e recebe a missão de descobrir e assassinar o forasteiro invasor. Utilizando nomes falsos, os dois acabam se conhecendo e criando uma grande amizade, sem saber que a relação está fadada a uma provável resolução trágica. Os dois protagonistas carregam os nomes das figuras revolucionárias Komaram Bheem e Alluri Sitarama Raju, mas a história pouco ou nada tem a ver com a realidade.

A direção e o roteiro do longa são assinados por S. S. Rajamouli, mais conhecido pela duologia de épicos de guerra Baahubali (2015 e 2017), que foi sucesso estrondoso de bilheteria interna. O domínio de Rajamouli sobre a narrativa está melhor, com subtramas que se amarram organicamente, e mais enérgicas do que nunca. Porém, o seu estilo continua o mesmo, seja na noção visual grandiosa ou na influência de contos da mitologia hindu, especialmente dos poemas épicos Mahabharata e Ramayana.

Apesar da alcunha Bollywood ser usada genericamente para o cinema indiano, RRR não foi filmado em Mumbai, e, sim, no que é conhecido como “Tollywood”, segmento que produz filmes para as regiões que falam a língua telugu. Já rivalizando em quantidade de produções com Bollywood, essas obras apresentam algumas características semelhantes, mas têm se destacado nas últimas duas décadas pela criatividade e por seu maior sucesso financeiro e investimento – este, inclusive, se tornou o filme mais caro já feito na Índia, com orçamento de 5,5 bilhões de rúpias indianas, ou 69 milhões de dólares.

Filmes como RRR atestam como a noção de espetáculo em Hollywood está deteriorada pelo apego ao realismo e rejeição ao melodrama e à fantasia, assim como também pela dependência emocional na intertextualidade de referências e nostalgia. No lado oposto, o cinema indiano, que se consolidou usando os próprios musicais da Era de Ouro do cinema americano como inspiração, continua extrapolando os limites do possível ao investir fortemente em obras de entretenimento popular. O apelo está na história simples, mas extraordinária, nas sequências de ação supercoreografadas, no uso lúdico da computação gráfica, nos números de dança e no impacto visual e sonoro que a experiência cinematográfica pode proporcionar.

Porém, para que todo esse conjunto de forças funcione, é preciso que ele seja carregado nas costas por uma figura arquetípica do cinema indiano: o homem viril. Dotado de uma força divina sem explicação aparente que não seja predestinação ou força de vontade, o homem viril indiano funciona como símbolo máximo de um ideal nacionalista. No mundo ficcional, eles são capazes de derrotar exércitos inteiros, correr mais rápido que tigres ou levantar estátuas monumentais; o que é logo acusado por um espectador ingênuo como falta de verossimilhança. Tal pensamento me parece especialmente contraditório em um tempo no qual o cinema está dominado por super-heróis. Fruto de uma visão ocidentalizada, a suspensão da descrença parece funcionar para alguns somente se os poderes advêm de origens científicas ou objetos mágicos, e não de uma espiritualidade sutil e dispersa na trama. Se você conseguir se abrir aos exageros sobre-humanos desse mundo, certamente encontrará várias cenas memoráveis que são verdadeiras injeções de adrenalina.

O entretenimento escapista, a trama simples e os personagens unilaterais não significam a ausência de questões sociais na obra. Marcado por uma mensagem evidentemente anti-imperialista, o embate acontece tanto no âmbito bélico quanto cultural, representado em uma vibrante disputa de dança que contrapõe um ritmo indiano aos estilos considerados de “alta cultura” pelos britânicos.

O filme também não se importa em demonizar seus vilões – que são completamente detestáveis – revelando uma vívida memória de rancor nacional com seus colonizadores ainda presente no imaginário da Índia, que teve sua independência somente em 1947. Por meio da referência e homenagem a figuras históricas que promoveram a luta armada como meio de resistência à dominação, o longa mostra como esse processo foi marcado também pela violência, oposta ao imaginário da revolução pacífica de Gandhi visto mais frequentemente nos filmes ocidentais.

RRR: Revolta, Rebelião, Revolução é um espetáculo com letra maiúscula. A combinação de ação, musical, romance, comédia e drama histórico dá forma ao gênero tipicamente indiano conhecido como masala, mas o longa é acima de tudo uma história sobre amizade e luta por uma causa. Com uma sucessão de reviravoltas, as três horas de filme parecem não ser suficientes para saciar a própria catarse, mas certamente são para lembrar o potencial do cinema enquanto entretenimento popular. 

DANILO LIMA é jornalista em formação pela UFPE.

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