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Curtas

Na trilha de uma missão

Gonzaga Leal e o SAGRAMA lançam álbum com releituras do material documentado pelo escritor Mário de Andrade

TEXTO Alessandro Soares

01 de Junho de 2022

Gonzaga Leal (ao centro) e o grupo SAGRAMA

Gonzaga Leal (ao centro) e o grupo SAGRAMA

Foto Hans Manteuffel/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 258 | junho de 2022]

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Por onde passavam, os carregadores de piano arrastavam olhares de curiosos pelas cantorias e gestos. Imagina ver oito homens marchando nas ruas do Recife, alinhados em duas filas paralelas, com toalhas de pano nos ombros e levando o instrumento em suas cabeças, desde o porto até o destino final das casas. Um tirava os versos e os outros respondiam em coro, como recordava o escritor Mário Sette. Pois a música desse grupo foi a que deu início às gravações da Missão de Pesquisas Folclóricas, liderada por outro Mário, o de Andrade.

Era 13 de fevereiro de 1938, quando a equipe de pesquisadores paulistas desembarcou em Pernambuco e foi recebida pelo poeta Ascenso Ferreira e o dramaturgo Waldemar de Oliveira. A turma da Missão era formada por Luís Saia (chefe da expedição, estudante de engenharia e arquitetura), Martin Braunwieser (maestro e regente de coro), Benedicto Pacheco (técnico de som) e Antônio Ladeira (auxiliar geral e assistente técnico de gravação). Eles percorreram terras pernambucanas até 23 de março, segundo a pesquisadora Flavia Camargo Toni, que sabe tudo sobre Mário de Andrade.

Apesar das imensas dificuldades em carregar os pesados e caros equipamentos, a Missão imortalizou em pouco mais de um mês uma quantidade fantástica de cantos de trabalho, de reza e de festa. Também foi recolhida a música folclórica da Paraíba (onde foram feitas mais gravações), Maranhão, Pará e Minas Gerais.

O impacto da empreitada é sem precedentes e divisor de águas para boa parte das pesquisas e produções musicais até hoje. Ainda assim, há muito a ser feito com esse legado. Só nos anos 2000, uma parte desses documentos sonoros virou CD, por meio do Sesc SP. E, como frisa o musicólogo Carlos Sandroni, existem mais áudios da Missão só acessíveis por meio de visitas ao Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Também falta se debruçar mais sobre esse conteúdo musical e dar tratamento mais artístico.

Mas, ao menos do material recolhido em Pernambuco, o cantor Gonzaga Leal e o grupo SaGRAMA assumiram a tarefa pioneira de fazer releituras. O resultado é o riquíssimo álbum Na trilha de uma missão, que traz 15 músicas e será lançado neste mês, com patrocínio do Funcultura. Coragem e delicadeza na medida certa para fazer arranjos de assinatura própria, mas que dialogam bem com a essência das versões originais. É a primeira vez que o repertório pernambucano recolhido pela Missão é revisitado.


Capa do novo álbum de Gonzaga Leal e o SAGRAMA.
Imagem: Divulgação

Foi desafiador para Gonzaga Leal escolher os temas e encontrar sua maneira de interpretar diante das gravações de 1938, cujas letras são bem pouco compreensíveis em alguns trechos, e marcadas pelos cantos em coro. Tampouco foi tarefa fácil para o SaGRAMA harmonizar e arranjar tantas melodias que, na versão original, não têm acompanhamento, exceto poucos registros em que se escuta alguma percussão e discretos ponteados de viola.

Mais conhecido por interpretar o cancioneiro urbano da MPB, Gonzaga trouxe seu olhar próprio, vivenciando cada verso dessa música folclórica pernambucana. “Eu preciso mastigar bem a palavra para dar sentido ao texto. Meu trabalho tem uma lógica dramatúrgica. De maneira que uma canção chama a outra. Não faço mera reunião de músicas”, afirma o cantor, em entrevista à Continente.

Nascido em Serra Talhada, onde presenciou muitos folguedos, Gonzaga Leal desejava fazer esse trabalho há mais tempo, mas outros discos tomaram corpo primeiro, a exemplo do Porcelana (que gravou com Alaíde Costa, em 2016) e do Olhando o céu, viu uma estrela (que fez com Áurea Martins, em tributo a Dalva de Oliveira, em 2019). “Agora, chegou a vez da Missão. Cláudio Moura (integrante e um dos arranjadores do SaGRAMA) é meu diretor musical há 25 anos. Os arranjos foram construídos pensando na minha voz, que ele conhece bem.”

Cláudio (que toca viola nordestina e violão) e os demais arranjadores do disco ficaram livres para criar. “Mas os áudios originais não têm boa qualidade. Então, em certas músicas, tivemos de criar palavras para rimar com outras que conseguíamos entender. Mas fomos fiéis às letras, dentro do possível. Já as melodias preservamos integralmente e ficamos livres para harmonizar”, sintetiza.

Um exemplo na concepção dos arranjos está na faixa Mandei cortá capim, que tem uma puxada para o forró na versão original. “Mas não fiz baião. Trabalhei com compassos alternados, em 3 por 4, depois, 4 por 4 etc. Fomos inventando em cima do material que a gente conseguia decifrar”, descreve Cláudio Moura.

No disco, buscou-se contemplar ao menos uma música de cada gênero recolhido. O mais presente na seleção de Gonzaga e SaGRAMA parece ser o que os pesquisadores paulistas catalogaram como Coco, rojão e roda, da qual há excelentes releituras para Sereno do amor, Oh! Roseira, Mandei fazer uma rede e uma mescla dos temas Tiroteio Lampião da Serra Grande, Meus canários eu vou me lavar e Mandaú. Outra faixa em que Gonzaga reúne vários temas em medley são as toadas de bumba meu boi Toada ora viva, Toada chamada do sapo-cururu e Toada do passo da ema.

Embora tenham letras nas versões originais, Colcheia e A pega do boi foram as duas que mereceram arranjo apenas instrumental. Aqui, todo o universo musical do SaGRAMA, que encantou o Brasil na trilha sonora do filme e da minissérie O Auto da Compadecida, vem com força. E das cantorias dos carregadores de piano, Gonzaga Leal escolheu Meu barco é veleiro e Vamos nessa, Meus amigos, que encerram o álbum.

A única música do projeto que não faz parte da Missão de Pesquisas Folclóricas é Louvação (que abre o disco) e consta no livro Danças dramáticas do Brasil, de Mário de Andrade. Já estão previstos shows de lançamento em 4 de junho, no Teatro Santa Isabel; na segunda quinzena de julho, no Festival de Inverno de Garanhuns; e, em novembro, no Teatro do Parque. O espetáculo terá direção do dramaturgo e bailarino Ciro Barcelos (que fez história como integrante do Dzi Croquettes).

O SaGRAMA é formado por 10 integrantes: Sérgio Campelo (flautas, arranjos e direção artística), Cláudio Moura (viola nordestina, violão, arranjos e codireção), Ingrid Guerra (flautas), Crisóstomo Santos (clarinete, clarone), Aristide Rosa (violão), João Pimenta (contrabaixo acústico), Antônio Barreto (marimba, vibrafone e percussão, Tarcísio Resende, Dannielly Yohanna e Isaac Souza (percussão).

Após o lançamento do CD físico, em junho, Na trilha de uma missão chegará às plataformas digitais em setembro. Em paralelo, o SaGRAMA está criando um aplicativo de celular para abrigar as letras, textos, os arranjos em partituras para todos os instrumentos, além de fotos e as faixas em mp3. É um projeto que já nasce histórico e de forte riqueza artística.

ALESSANDRO SOARES é jornalista, pesquisador musical e produtor.

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