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Curtas

Veneno bento

Novo disco de Armando Lôbo traz 11 faixas que passeiam entre a música de concerto e a popular

TEXTO Carina Barros

01 de Fevereiro de 2022

Cantor faz leitura simbólica e inovadora do sertão nordestino

Cantor faz leitura simbólica e inovadora do sertão nordestino

FOTO Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 254 | fevereiro de 2022] 

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“Correndo na mata/ Assum preto mudo/ Sem olhos, nem asas/ Novilho corcundo/ Imundo Sidarta/ Vagando no mundo/ No mundo, êêê ôôô. ” Esses são os primeiros versos da música Sertão Sartori, que abre o quinto álbum solo do cantor e compositor Armando Lôbo. Na canção, o pernambucano cria um novo mundo através da arte, sem fazer paralelos espirituais entre o simbolismo religioso hindu e a construção imagética do sertanejo. “É apenas uma invenção pura de uma possibilidade que nunca vai se concretizar”, aponta.

É com essa leitura simbólica e inovadora do sertão nordestino que Armando usa e abusa de referências linguísticas e estilos regionais, como o aboio, xote e baião, para dar o nome à música que gerou o álbum Veneno bento, projeto que pode ser apreciado também em formato audiovisual, com as cenas gravadas na zona rural de Bezerros, no agreste pernambucano. Além desse processo de construção imagética da música, a composição da letra, cuja referência poética é o  phármakon grego (que significa tanto remédio quanto veneno), e o arranjo foram elaborados pelo próprio compositor, em parceria com Rodrigo Zaidan. “A música foi feita por um grande amigo meu, compositor mineiro que não tem nada do sertão nordestino; ele é do sertão mineiro, sertão do Guimarães Rosa, ele pediu a letra para mim. Mandei logo Veneno bento e ele entregou muito rapidamente, uma semana ou duas depois, e foi através dessa música que veio a ideia do álbum inteiro”, comenta.


O novo disco de Armando Lôbo é marcado pela divisão em duas 'playlists', que abarcam a música popular e de concerto

Segundo o artista, o novo disco revela o inóspito e o trágico através da beleza como cura, tendo o sertão como signo da aridez e da riqueza do espírito. Por ser nordestino e ter essa relação de memória afetiva com a região, na época da elaboração do disco, o compositor, que ainda morava na Escócia, viajou pelo sertão pernambucano para visitar a Missa do Vaqueiro, em Serrita, e foi naquele lugar que Armando se encantou com o simbolismo religioso do evento.

Dentro das suas experiências pessoais ouvindo Luiz Gonzaga e pesquisando sobre a arte musical de vaqueiros em todo o mundo, ele decidiu homenagear a região. “Sempre gostei muito de viajar pelo Sertão e decidi fazer uma homenagem que não fosse um turismo cultural artificioso, mas um mergulho pluralista e visceral, extremamente pessoal, no universo rural nordestino”, conta o artista.

A partir dessa pluralidade, o compositor explora a linguagem artística, criando diferentes realidades em contextos que mexem com o ouvinte. A construção poética de Armando já vem de álbuns solos anteriores, como Vulgar e sublime (2008), Técnicas modernas do êxtase (2011), MyopicSerenade (2017) e Alegria dos homens (2020). Em todos os discos, ele se destaca pelo uso da criatividade e da licença poética, com uma mistura do clássico, pop, instrumental, erudito e do contemporâneo. Dando continuidade às suas experimentações musicais, Veneno bento faz uma leitura espiritual do sertão refletindo a relação emocional do artista com o ambiente. “O Sertão é para mim uma entidade aberta, um espaço infinito, sem tempo”, afirma Armando.

O novo disco de Lôbo contém 11 faixas e é marcado pela divisão em duas playlists, que abarcam a música popular e de concerto, fazendo, segundo o artista, uma provocação irônica e pragmática. Além disso, o material pode ser apreciado no formato audiovisual, com videoclipes, lyric vídeos e videopartituras. O trabalho será lançado em uma live no dia 17 de fevereiro, combinando show gravado com seis músicas, entrevistas, vídeos e a participação de repentistas que glosam sobre o phármakon: veneno, remédio e “cosmoética”, trocadilho que, segundo o artista, faz uma  “piadinha” com o cosmético, que também é vendido na farmácia do phármakon.

Por ter um caráter eclético, Lôbo pensou a divisão das músicas no álbum com o intuito de refletir uma canção sobre a outra. “Uma playlist ecoa na outra, a diferença é que uma é mais técnica do que a outra; mas as duas são densas e angulosas, um feixe de espinhos e um mandacaru no Himalaia”, afirma. Essa provocação e diversidade de estilos musicais permeiam o processo criativo de Armando e sua identidade está impressa em todo o novo álbum. O artista explora o seu processo criativo compondo canções que fogem de clichês do cotidiano, provocando reflexões e inquietações acerca da música criando realidades que não existem. “Eu não quero fazer uma crônica e nem repetir caracteres do Nordeste, eu quero mostrar espiritualmente como eu sinto”, diz. 

Fazendo um paralelo, as suas formas de criação, na primeira playlist, a de música popular, o cantor traz canções voltadas para a poética do sertão com tons expressionistas e reflete sobre o aboio progressivo psicodélico, o plano sertanejo do amor cortês medieval, e faz referência ao Rei do Baião, com A morte do vaqueiro, para mostrar um Gonzaga com outra roupagem. “Na verdade, minha intenção não foi revelar o Sertão real, mas o da alma. Agonia e redenção. Transcendência em intensa fisicalidade. Nunca houve seca no Sertão. Seca existe quando uma cultura se rebaixa à política. Gonzaga era uma cachoeira, um doce temporal”, pontua.

Já a segunda parte do álbum é marcada por um diferencial trazendo uma obra eletrovisual – neologismo cunhado pelo artista  –, Alquimia da zabumba, que é uma criação videográfica inspirada em certos procedimentos da música eletroacústica. A faixa é marcada por uma produção que usa apenas sons extraídos de uma zabumba com baquetas, mãos e bolinhas de gude, provocando uma sensação de tensão, mistérios e curiosidade no ouvinte. Com essa intensidade musical, o artista busca provocar um jogo de timbres e texturas, chamando atenção para o novo e diferenciado. “No caso da Alquimia, a aposta na intensidade da escuta é consequência também da performance do grande percussionista Rodrigo Patropi, que é deficiente visual. Procuramos transformar a zabumba num cosmo, num material especulativo. Um instrumento interestelar errático”, relata.

O novo disco também contempla canções que são marcadas pela combinação instrumental com elementos que se relacionam com a música de concerto e a estética micropolifônica. Tendo como exemplo a música Aboio e disparada, que é dividida em duas partes e tem influência de três compositores clássicos do século XX  – o húngaro György Ligeti, o brasileiro Heitor Villa-Lobos e o russo Alfred Schnittke –, envolvendo a textura musical em diferentes ritmos. “Certas estruturas estáticas usadas por Ligeti me inspiraram para criar o Aboio e disparada, que é um apelo à imensidão, ao que nos excede. O ritmo existencial da zona rural do leste europeu influenciou a escrita micropolifônica de Ligeti. No álbum Veneno bento, a peça tem performance de uma orquestra russa. Aboio é uma forma de abismo. Abismo é o grande signo deste álbum. O abismo existe, mas não entre culturas”, explica.

CARINA BARROS, jornalista em formação pela UFPE e repórter estagiária da Continente.

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