Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Resenha

Céu revisita sua memória musical

No disco 'Um gosto de sol', cantora paulistana resgata canções que marcaram sua vida, com sua interpretação cheia de personalidade e a sonoridade acústica do violão de 7 cordas

TEXTO Camila Estephania

01 de Fevereiro de 2022

Repertório escolhido por Céu vai de Alcione a Fiona Apple, revelando seu gosto eclético e talento como intérprete

Repertório escolhido por Céu vai de Alcione a Fiona Apple, revelando seu gosto eclético e talento como intérprete

Foto Cássia Tabatini/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 254 | fevereiro de 2022]

Assine a Continente

Quando criança,
Céu costumava ouvir o pai dedicar longas horas de estudo ao violão erudito de 7 cordas. Filha do habilidoso maestro Edgard Poças, a cantora e compositora paulistana não demorou para se apaixonar pelo instrumento que ocasionalmente cortava o silêncio de casa e se tornou seu equipamento favorito desde então. No entanto, apesar desse amor antigo, demorou algumas décadas até que ela finalmente conseguisse encaixar essa sonoridade acústica na sua própria obra. Somente agora, aos 41 anos, a artista encontrou a oportunidade ideal para explorar o violão de 7 cordas no projeto Um gosto de sol, seu primeiro disco de intérprete.

O álbum traz releituras de músicas de outros artistas que influenciaram Céu ao longo da vida e busca suprir a necessidade da compositora de continuar produzindo, mesmo quando sua inspiração esteve castrada pela brutalidade da pandemia da Covid-19. “Eu não estava procurando escrever algo novo, porque estava tão imersa no nosso coletivo, que não tinha muito espaço para a criação. O que havia era um lugar para me acolher nas coisas que já me são seguras, como escutar a Marrom (Alcione), a Fiona Apple…”, cita ela alguns dos nomes que interpretou em Um gosto de sol, em entrevista para a Continente pela plataforma Zoom.

Mas como ir do samba de Alcione ao jazz-rock de Fiona Apple sem perder a unidade? A resposta veio nos arranjos do violão de 7 cordas, que assume um papel central nas 14 faixas do trabalho e é tão protagonista do projeto quanto a própria Céu. A responsabilidade de comandar a peça-chave do álbum ficou a cargo do músico paulista Andreas Kisser, mais conhecido pelo seu trabalho como guitarrista da banda de metal Sepultura. Com formação em violão clássico, o metaleiro aprendeu a tocar as sete cordas especialmente para este disco, entregando arranjos brasileiríssimos para nenhum fã de samba botar defeito.

O músico foi escolhido estrategicamente por reunir as qualidades que Céu buscava para o trabalho: alguém com propriedade para reverenciar as escolas clássicas dos grandes violonistas que a cantora ouvia na vitrola de casa – como Dilermando Reis, Garoto e Baden Powell – e ao mesmo tempo honrar todo o universo pop que ela conheceu depois. Marido de Céu e produtor de Um gosto de sol, o pernambucano Pupillo foi quem sugeriu o nome de Andreas depois de assistir a um vídeo dele tocando chorinho para o filho. “Achei que ele não toparia, mas poderia ser a brecha que ele queria para mostrar esse lado e foi exatamente isso que aconteceu. Andreas se mostrou uma pessoa muito querida e superafim de fazer o disco. A galera do metal é muito dedicada e foi legal presenciar isso, porque ele fazia arranjos refinados, já chegava com tudo pronto”, lembra Céu.

A cantora montou a banda do projeto com a proposta de produzir um som mais orgânico, indo na contramão dos seus trabalhos autorais mais recentes, como Tropix (2016) e APKÁ (2019), que mergulharam mais fundo no universo musical eletrônico. “Nesse momento em que a gente está vivendo tantos lutos, achei que eu precisava fazer um som mais orgânico e simples, porque queria algo que trouxesse o calor humano”, resume. Por isso, a faixa-título Um gosto de sol, extraída do disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento, traz a síntese de um projeto que se propõe a abraçar e aquecer os fãs desde a escolha do repertório até a forma como ele foi executado.


Capa do disco Um gosto de sol. Foto: Cássia Tabatini/Divulgação

CAMADAS MUSICAIS
Não é à toa que as canções escolhidas foram filtradas por um time íntimo, formado apenas pela própria cantora, seu pai e Pupillo, que contou com a consultoria do jornalista e produtor musical Marcus Preto. Entre as sugestões dadas por Edgard Poças está a música Ao romper da aurora, gravada originalmente pelo amigo Ismael Silva, em 1957, e escolhida para abrir o disco com otimismo, trazendo o sentimento de esperança que Céu pretendia transmitir.

“Meu pai é uma pessoa interessante e muito sensível, de quem eu sempre gosto de ouvir a opinião. Claro que ele é um senhor e trouxe coisas da vivência dele, mas isso também faz sentido para o que eu queria trazer como camada”, comenta Céu, sobre o pai, que já compôs para nomes como Tim Maia, Gal Costa e Erasmo Carlos, além de ter marcado a infância dos brasileiros nos anos de 1980 com seu trabalho para o Balão Mágico. “Foi uma curadoria ampla, porque escuto desde música da década de 1930 até música contemporânea, mas todas são da ordem do sentir, coisas que me tocaram”, continua.

Para dividir o microfone com ela em algumas passagens dessa seleção afetiva, a cantora escolheu amigos com quem já trabalhou antes. Um deles foi Russo Passapusso, vocalista da banda BaianaSystem, cujo disco OxeAxeExu, de 2021, conta com a participação de Céu na faixa O que não me destrói me fortalece. Para retribuir o featuring de pandemia, a cantora convidou o baiano para fazer os backing vocals de Teimosa, de Antonio Carlos & Jocafi. “Ele canta muito lindo e é um grande conhecedor da obra dos dois. Foi uma coisa muito legítima e ele ainda chamou os caras para nos guiar, foi muito especial ter a presença deles ali”, observa ela, que também contou com a participação de Emicida na versão de Deixa acontecer, do grupo Revelação.

Esse pagode na voz de Céu é uma das surpresas que Um gosto de sol traz e revela seu interesse pelo braço popular romântico do samba. A pieguice ainda rouba a cena numa inesperada releitura do sucesso internacional Feelings, do brasileiro Maurice Albert, que já foi gravada por nomes que vão desde The Offspring a Nina Simone. “Já se sabe que eu gosto de música brasileira, de rap, de ir à Jamaica. Fez-se uma colagem disso tudo e veio o meu som, mas, na verdade, eu sou muito mais do que isso. Vai passando o tempo e a gente vai virando um avatar que não confere com a nossa real natureza múltipla. Temos muitas camadas e eu queria trazer o maior número possível delas para este trabalho, queria representar várias idades minhas. As pessoas não imaginavam, mas eu gosto muito de pagode e cantei muito nos meus primeiros anos de cantora, por isso ele entrou”, explica.

Outra fase determinante na formação musical de Céu foi a sua moradia em Nova York entre 1998 e 1999, quando costumava cruzar o caminho do falecido MCA, dos Beastie Boys, trafegando de patinete pelo bairro onde morava. A energia desse período encontra eco na versão da cantora para I don´t know, bossa nova que o trio norte-americano compôs para o disco Hello nasty, lançado naquela época. Aqui, é curioso observar como mesmo quando mergulha em referências ligadas à cultura pop, a interpretação de Céu ao lado do violão de 7 cordas transmite a herança intrínseca da música brasileira. “Eu me surpreendi quando chegou ao final do trabalho e percebi que havia feito quase um disco de samba. Não foi uma coisa pensada, foi uma coisa sentida”, esclarece ela, que ainda imprimiu o DNA tropical em outras faixas, como a psicodélica May this be love, do disco Are you experienced?, de Jimi Hendrix.

DE COMPOSITORA A INTÉRPRETE
Não é de hoje que Céu relê composições alheias e se apropria tão bem delas, que deixa impressa a sua identidade nas músicas. Quem acompanha a carreira da paulistana, já viu isso acontecer na versão abrasileirada de Concrete jungle, de Bob Marley, gravada para o álbum homônimo, de 2005; em Rosa, menina Rosa, de Jorge Ben Jor, que ganhou uma atmosfera dub em Vagarosa; na versão praieira de Mil e uma noites de amor, de Pepeu Gomes, no Ao Vivo do Caravana Sereia Bloom; e na roupagem pop de Chico Buarque Song da banda pós-punk paulistana Fellini, em Tropix. Sem esquecer outros exemplos como Pardo, uma inédita de Caetano Veloso, que foi direto para o APKÁ; a turnê em homenagem ao disco Catch a fire, de Bob Marley & Wailers, e a participação da cantora nas turnês do projeto Nívea Viva, de Jorge Ben Jor, e do Refavela 40, de Gilberto Gil. Com esse histórico, pode-se dizer que Céu é veterana na arte de interpretar outros compositores e somar novos sentidos às suas letras. No entanto, ela não se considera intérprete por excelência.

“Quando entrei na música, eu achava que seria intérprete. Só que eu comecei a escrever umas coisas, a fazer umas melodias, e fui achando meio legal. Foi um caminho natural, eu me encontrei como compositora e pausei o plano de ser intérprete, nunca cheguei a me ver dessa forma. Para mim, intérprete é Elis Regina, Gal Costa, Elza Soares, mas agora eu mergulhei no exercício. Não achei fácil”, assume.

Ainda assim, a cantora abraçou o desafio com coragem e regravou até mesmo Pode esperar, de Alcione, que é uma das vozes mais marcantes da música brasileira. “Eu cheguei a me perguntar por que eu gravaria essa música, mas a questão não é sobre fazer melhor que a Alcione, porque é claro que não vou fazer melhor que ela. Na verdade, é só para fazer com que pessoas dessa geração, que não escutou tanto a Marrom, escutem essa música que tem uma letra linda, meio Marília Mendonça, com empoderamento feminino”, analisa.

Fiona Apple também impactou a paulistana na adolescência pelo discurso feminista e pela rebeldia ao piano. Em uma interpretação mais marrenta, Céu faz uma versão de Criminal, lançada pela norte-americana em 1997, evidenciando uma parte das suas principais inspirações na abordagem narrativa da composição. Paradise, da britânica Sade, e Chega mais, da conterrânea Rita Lee, foram outros títulos que entraram no trabalho para apontar artistas que, particularmente para Céu, transformaram a perspectiva da mulher dentro da música e despertaram seu potencial para compor.

“O Brasil era um país de intérpretes. Hoje, o cenário mudou. Ainda falta muito para as mulheres fazerem tudo o que elas querem, mas já estamos caminhando com passos mais largos do que na época em que lancei meu primeiro disco em 2005, por exemplo”, avalia a paulistana, sobre a abertura do mercado fonográfico para as mulheres. “Chegar em um meio que é predominantemente masculino me lembra que a mídia demorou muito para me considerar compositora. Só com o Caravana Sereia Bloom (2012) que começaram a perceber e eu já vinha falando de questões do feminino de uma maneira poética desde o meu primeiro disco, quando cantava ‘minha beleza não é efêmera, como eu vejo em bancas por aí’. A partir daí caminhei para um disco como o APKÁ, em que eu falo de visceralidade, de parto normal, critico a máquina da cesariana… São muitas questões que trago de maneira poética, porque essa é minha fala. A música é meu melhor jeito de comunicar, então, depois desse tanto de trabalho, acho que hoje posso falar que este também é um disco da ordem do feminino mesmo”, explica ela, sobre Um gosto de sol.

De certa maneira, este álbum tem proposta parecida com Abrigo, lançado por Marina Lima, em 1995, trazendo releituras de uma série de músicas alheias que a própria carioca gostaria de ter escrito. Ou seja, é um disco de intérprete performado por uma grande compositora. Esse detalhe justifica a escolha de um repertório que é muito mais revelador do que técnico. Isso quer dizer que a prioridade de Céu neste trabalho parece ter sido se desconstruir e evidenciar as próprias bases no samba e na cultura pop, cujo cruzamento até hoje sedimenta o seu trabalho.

Ótimo desempenho vocal da paulistana, com seu timbre único, é a cereja do bolo, assim como os arranjos finíssimos executados por Andreas Kisser (violão de 7 cordas), Pupillo (bateria e percussão) e Lucas Martins (baixo); com participações adicionais de Hervé Salters e Rodrigo Tavares (teclados), do veterano maestro Jota Moraes (vibrafones) e do DJ Nyack (beats e programações). Enfim, um papo sincero e generoso com os fãs para mostrar com quantas referências se faz uma artista tão inventiva.

CAMILA ESTEPHANIA, jornalista.

Publicidade

veja também

“Vivo no processo de buscar o meu reflorestamento”

O fantasma de Leonardo Gandolfi e seus amigos

Um museu para a arte negra