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Relato

Ode à observação do mundo natural

Pernambucana radicada na Nova Zelândia conta a experiência de contemplar os ciclos da natureza

TEXTO E FOTOS CAROLINA ALBUQUERQUE, DA NOVA ZELÂNDIA

03 de Janeiro de 2022

A abelha em sua tarefa de polinizadora

A abelha em sua tarefa de polinizadora

FOTO Carolina Albuquerque

[conteúdo na íntegra ed. 253 | janeiro de 2022]

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Quando o cientista japonês Masanobu Fukuoka tinha 25 anos, um evento que ele descreve como “uma pequena experiência” mudou o curso da sua vida. Ele trabalhava em um laboratório localizado na cidade portuária de Yokohama, no Japão. Munido de um microscópio, mergulhava naquele mundo das coisas minúsculas, identificando patologias em plantas. Até que um dia contraiu uma severa pneumonia. “Eu me encontrei cara a cara com o medo da morte”, conta o jovem cientista. Ele se curou, mas a solitária e profunda experiência de quase morte o deixou em depressão. Um dia, em um passeio pela montanha, após noites de insônia, um colapso de exaustão o fez render-se. Ele caiu ao chão e ali ficou até o nascer do sol.

Os sentidos então o tomaram por inteiro. As luzes da aurora sobre o porto. A brisa suave levando consigo a névoa. Uma garça noturna e seu canto agudo. O som das asas batendo. “Em um instante, todas as minhas dúvidas e confusão desapareceram”, lembra. Então, à sua mente veio uma realização: “Eu senti que nada sabia”. Todas as agonias que o tinham possuído sumiram como sonhos e ilusões e uma tal coisa, que poderia ser chamada de “a verdadeira natureza”, o arrebatou. Logo após tal evento, Fukuoka abandonou a carreira de cientista em laboratório. Retornou a sua vila de origem e dedicou a vida ao que chamou de agricultura “natural” ou “selvagem” ou, ainda, “agricultura do não fazer nada” (do-nothing farming).

A história descrita acima foi extraída do seu livro A revolução de uma palha: uma introdução à agricultura natural, publicado em 1975. Ler Fukuoka é uma necessidade. Em essência, ele foi um agricultor-cientista que misturava poesia e filosofia na lida com a terra. A sua técnica, se é que podemos chamar de técnica, parte de um princípio universal: observar. Assim como a observação o fez acordar naquela manhã, a observação em profundidade da natureza o fez cultivar vegetais, árvores frutíferas e grãos sem degradar o solo e o ecossistema, na contramão do paradigma destruidor da agricultura convencional. No livro, Fukuoka diz que, em vez de perguntar-se “o que posso fazer para melhorar isso ou aquilo?”, ele optava por “e se eu não precisar fazer isso ou aquilo?”. “Ele deixava a natureza mostrá-lo e então seguia. Olhava para fora e para dentro dela. Observação, para ele, era colocar-se no lugar da planta. Ele vivia num mundo da experiência”, disse o tradutor do livro e seu aprendiz, o norte-americano Larry Korn, em entrevista ao podcast Root Simple.


Os permacultores Joanna Pearsall e Bryan Innes mantêm ecovila na comunidade de Karuna Falls, em Coromandel, norte da Nova Zelândia 

Observar. A princípio, um ato tão simples, tão natural, tão universal, no entanto cada vez mais escasso na frenética sociedade capitalista moderna. Quando foi a última vez em que você parou tudo (trabalho, telas de computador, de celular, da televisão, o caos mental) para apenas observar ao redor? No final do ano passado, após quase um ano em quarentena, um amigo, o psicoterapeuta Ivson Menezes, que vive no Recife, me confessou algo. “Eu passei a me conectar mais com as fases da Lua”, disse. Procurei-o de novo para saber mais sobre isso. “Nos espaços vazios do meu dia, eu sempre procurava fazer algo. Algo que, na minha cabeça, fosse produtivo ou me trouxesse uma recompensa”, explicou. “A pandemia impulsionou uma mudança que já vinha acontecendo em mim. Um dia disse: ‘vou apenas deitar e olhar para o céu’. Esse olhar para a Lua era um olhar para mim, um ser integrado, dentro de um planeta, dentro de um universo. A gente costuma se esquecer disso, se desconectar”, complementou.

No aclamado livro A sociedade do cansaço, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han fala que a sociedade do século XXI anda atormentada pela exaustão, rotulando-a de “sociedade do desempenho”.“Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção”, argumenta o coreano. Segundo ele, a produtividade a todo custo é o motor do homem pós-moderno que se movimenta no mundo em prol do capital e do consumo. Em nome dela, políticos defendem o crescimento econômico infinito. Corporações destroem ecossistemas. O mercado garante que o consumo seja o motor da vida humana. E os seres humanos são diagnosticados, cada vez mais, com as doenças da modernidade, sejam elas depressão, ansiedade ou síndrome de burnout.


O percussionista Paul Taylor, o Lucky Paul, tira som de qualquer objeto e sonha fazer música com a natureza, ao vivo

No capítulo 3, O tédio profundo, o Byung-Chul não demora em defender que “o excesso de estímulos, informações e impulsos” modifica radicalmente a estrutura da atenção. “Com isso, se fragmenta e destrói a atenção”, conclui. Como dedicar tempo à contemplação quando nossa capacidade de atenção está fragmentada? Ele fala que essa atenção profunda se deslocou para uma bem distinta, a hiperatenção. “Essa atenção dispersa se caracteriza por uma mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E, visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para o processo criativo.”

***

Somente muito recentemente eu comecei a refletir, racionalmente e intuitivamente, sobre o quanto e como me dedico a observar e interagir com meu entorno. A inquietação partiu da minha experiência como aprendiz de permacultura em comunidades e fazendas na Nova Zelândia. Passei três meses imersa numa remota ecovila, situada em Coromandel, norte do país. A comunidade Karuna Falls, estabelecida nos anos 1970, é totalmente off grid (não conectada à rede elétrica). Como voluntária dos experientes permacultores Joanna Pearsall e Bryan Innes, tinha muito a observar diariamente.

Cheguei no inverno e sai na primavera. Foi a primeira vez em que tive oportunidade de observar as mudanças diárias entre essas estações. As primeiras folhas das árvores frutíferas caducifólias, como a pereira, a macieira e o pessegueiro. Os seus primeiros botões de flores. O desabrochar da magnífica flor-de-íris. O pólen que se amontoava no chão. A atividade dos polinizadores, abelhas e borboletas. Os pássaros cantando, fazendo ninhos. As horas de sol mais longas. O sol mudando de ângulo. Os primeiros frutos da figueira. O clima esquentando. O maravilhamento de contemplar tudo isso.

Não há como pensar em permacultura sem considerar o todo – a natureza opera de forma sistêmica e holística. E, na busca por orientar projetos/desenhos ecológicos que visam um futuro sustentável neste planeta, a permacultura procura imitar a natureza. Sistemas naturais vivos e saudáveis são complexos, diversos, integrados. Portanto, a permacultura estipula como o primeiro dos 12 princípios fundamentais o “observar e interagir”. “Quase tudo na vida é baseado nessa interação/observação, que é simplesmente um ciclo de feedback. Os ciclos de feedback governam tudo na vida. Portanto, esse princípio vai além da permacultura, que é construir sistemas vivos naturais, porque os sistemas cósmicos também são governados pelas mesmas leis”, contou Bryan.

Permacultura fala em treinar os olhos e os demais sentidos. Antes de desenhar um plano para um certo lugar, é preciso dedicar tempo a observar cada detalhe daquele ambiente. Perguntar-se sobre o porquê disso ou daquilo. Especular possibilidades. Fazer conexões, sejam aleatórias ou óbvias. Veja o caso das borboletas monarcas, um importante polinizador para qualquer horta. Para prosperar de larva à crisálida e então borboleta, essa singela espécie depende de uma planta específica popularmente conhecida como a planta cisne (swan plant ou milkweed). Essa é sua principal fonte de alimento, ainda que, para outros bichos, seja considerada uma “erva daninha”, pela sua toxicidade.

  
 
Sequência do ciclo de vida da monarca: lagarta, crisálida, borboleta

“Por que essas plantas crescem aqui, mas não ali? Não é apenas uma imagem bonita, mas, na verdade, uma paisagem viva e dinâmica. Tudo está em constante movimento e evolução. E você precisa estar ciente disso e manter os olhos abertos”, disse Bryan. David Holmgren, no livro A essência da permacultura, escreve que o “design consciente de sistemas vivos” deve emergir “de algo que já existe, em vez de uma imposição”. “O processo de observação influencia a realidade, portanto nós devemos sempre desconfiar das verdades e valores absolutos. Também nos lembra de considerar os problemas num contexto holístico. O aforismo ‘o problema é uma solução’ fala que ter uma postura lúdica em relação a uma questão nos ajuda a ver saídas criativas. Ou mesmo sobre aprender a amar o que anteriormente nos contrariava”, argumentou David.

Na outra ponta da gangorra, está o engajar-se ou interagir, um aspecto fundamental para o pensamento do permacultor. “São principalmente as interconexões. A que mais isso serve? De que outra forma posso me beneficiar com isso? Onde mais eu poderia conseguir isso? Ou o que mais poderia ser fornecido? Porque tudo na natureza está totalmente interligado. E então você precisa pensar como o deus da natureza”, sugeriu Bryan. Nos dias de chuva intensa, Bryan tem o hábito de observar como a chuva se comporta no lugar onde mora. A casa, a horta e os acessos foram construídos em um declive. Para tanto, tudo foi pensado para minimizar os riscos causados pela chuva – a drenagem, as plantas introduzidas e o design. “Para evitar um problema mais adiante, muitas vezes, é necessário checar a drenagem, as canaletas, analisar como a água está fluindo”, contou.

Para muitos povos indígenas, a ciência e o conhecimento foram desenvolvidos através de um profundo e constante exercício da observação. Aqui na Nova Zelândia, sabe-se que é tempo de plantar a batata-doce (Kūmara), quando a planta Kūmarahou floresce em amarelo ou ao sinal do canto do pássaro pipiwharauroa (shining cuckoo). Um conhecimento ancestral descoberto e repassado através das várias gerações pelos indígenas maori – povo que chegou à Nova Zelândia mais de 500 anos antes da invasão britânica. 


As flores amarelas do arbusto Kümarahau, endêmico na Ilha do Norte da Nova Zelândia, brotam na primavera, em setembro

Essa íntima relação entre o ser humano e o meio ambiente foi definida pelo povo maori como Kaitiakitanga, que expressa o dever de cada um de nós como guardiões da terra, preservando-a e protegendo-a. Para definir a ética e os princípios da permacultura, o australiano Bill Mollison, tido como o fundador do conceito, observou as práticas e foi influenciado pela cosmologia de povos aborígenes, principalmente da Tasmânia, na Austrália, onde Mollison nasceu e cresceu. Portanto, a permacultura também pode ser vista como uma possibilidade de retorno à forma natural e ancestral de viver dos indígenas.

Isolado na remota ilha da Grande Barreira, na costa de Auckland, o percussionista neozelandês Paul Taylor, ou Lucky Paul, brinca que tem sonhado em fazer música ao vivo com o canto dos pássaros ou os golfinhos que por vezes visitam a baía onde mora desde o começo da pandemia. A ideia, de ares extravagantes, não parece estranha quando se conhece a forma que ele gosta de fazer música. Quando morava em Los Angeles, nos Estados Unidos, Paul tocou em palcos para grandes públicos e fez tour com artistas como a canadense Feist e o brasileiro Rodrigo Amarante.

Distante de tais holofotes, Paul faz música a partir de literalmente qualquer coisa ao seu redor. Como? De antemão, é preciso dizer que o “aparato” customizado por ele cabe numa mochila ou num carrinho portátil. As peças desse instrumental musical consistem de microfones, cujo som pode ser imediatamente processado por um software num computador, para em seguida serem tocados em um teclado eletrônico. Quando viajava pelos EUA na sua campervan, ele extraiu e capturou sons em florestas, praças públicas e improvisou com pessoas que nunca vira antes em ruas movimentadas. A espontaneidade era o fio condutor do resultado musical.

“Acho que passo muito tempo observando diferentes aspectos do mundo como se fosse música. Qualquer som ao redor, até mesmo ritmo visual ou apenas olhar para as coisas imaginando. Há muitas coisas que você pode ignorar durante o dia, você nem vai notar porque, uh, isso é apenas uma pedra, apenas uma árvore, apenas um pássaro cantando. Mas, se você vivenciar isso ativamente de uma forma musical, então você pode extrair mais beleza apenas de coisas normais”, contou. No final da conversa com Paul, especulamos qual seria o oposto ao ato de observar e interagir. Talvez ignorar e controlar? Resta saber qual dos caminhos escolhemos enquanto indivíduos e sociedade.

CAROLINA ALBUQUERQUE, jornalista recifense radicada na Nova Zelândia há três anos. Tem alma mochileira, que a levou a mais de 15 países, e é aprendiz de permacultura.

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