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Lançamento

Memória e esquecimento

Leia alguns contos de 'O livro das personagens esquecidas', de Cícero Belmar, lançado pela Cepe Editora

TEXTO Cícero Belmar

03 de Janeiro de 2022

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 253 | janeiro de 2022]

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APRESENTAÇÃO
Eu já tinha uma seleção de contos pronta quando os submeti à leitura crítica do grupo de estudos e oficina permanente Autoajuda Literária. Faço parte desse coletivo ao lado dos escritores Raimundo de Moraes, Gerusa Leal, Lúcia Moura e Cleyton Cabral. As avaliações sinceras desse conjunto foram uma experiência enriquecedora, que me permitiram repensar as narrativas que apresentei e abrir novas perspectivas para elas. Apresento aqui, neste livro, o resultado, com a certeza de que o texto exato é um mito: muitas coisas foram dispensadas, deixadas pelo caminho, enquanto outras, agregadas. Nesse processo, fui descobrindo, através dos nossos olhares, que este é um livro de personagens. E que a questão da memória, no sentido do lembrar e do esquecer, assim como o tempo, enquanto passado, formatam as alegorias e metáforas das histórias e da vida. Enfim, toda história nasce do inconsciente. Meus amigos, a quem sou grato e dedico esta publicação, não só me ajudaram na leitura dos contos como também comentam a seguir o que representou a contribuição que deram.

“O afeto e o respeito são necessários na leitura crítica, em que os leitores vão tentar, junto com o autor, buscar melhores opções para o desenvolvimento da sua narrativa. Este livro de Cícero Belmar, que você agora folheia, recebeu especial atenção do grupo Autoajuda Literária. Durante os nossos encontros, à medida que os contos eram apresentados, compartilhamos com Belmar nossas emoções, dúvidas, sugestões. Dessa forma, a publicação de O livro das personagens esquecidas tornou-se um momento especial na história do Autoajuda — que em 2020 comemorou 10 anos de existência. Belmar é um dos escritores pernambucanos mais talentosos que eu conheço.”
Raimundo de Moraes, escritor e poeta

***

“Quando Belmar foi me apresentando suas personagens, eu quis conviver com elas, dar colo, levá-las para tomar sol. Uma cerveja. Um café. Elas tinham algo para esquecer ou lembrar. Se perder, se achar. A vida continua sendo imprecisa, mas esquecer — nem que seja por alguns segundos — é mais necessário do que guardar algumas memórias. Eu enxerguei nos textos o tema para um livro e até sugeri um nome: O livro das personagens esquecidas.”

Cleyton Cabral, escritor e dramaturgo

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“O que é o tempo? Ele é mensurável? Tem forma? Em O livro das personagens esquecidas, o tempo é o tempo. Não se mede. Não tem forma nem cor. Há tempo de se fazer, de perder, de rever, de encontrar. Cícero Belmar conduz suas personagens numa linha tênue entre tempo e esquecimento. Ao leitor, cabe o direito da escolha entre um e outro.”

Lúcia Moura, escritora e biblioteconomista

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“Literatura é lugar de memória. E também de esquecimento. A questão da memória evoca, necessariamente, a do esquecimento. Toda vida humana é estruturada em conformidade com a memória e a necessidade de lembrar. Embora nossa saúde mental e emocional dependa também, e muito, de nossa capacidade de esquecer. Pequenos esquecimentos nos permitem focar no que é importante lembrar. Pois ao longo da vida nos é exigido com rigor esse foco, essa necessidade de não esquecer as coisas importantes. Mas com o passar do tempo vamos, mais e mais, nos focando em lembranças, e cada lembrança tem sua particularidade. Os esquecimentos vão se tornando mais e maiores, e o importante às vezes não importa mais. De esquecimento em esquecimento, vamos desaparecendo da memória dos que ainda lembram. É dessas personagens que tratam, com maestria, todos os contos de O livro das personagens esquecidas, de Cícero Belmar.”

Gerusa Leal, escritora e poeta.


Capa do livro. Imagem: Divulgação

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A ilha
Quando pressentiu que algo muito grave silenciosamente a consumia, ela pediu à filha o último presente. O último presente, disse, como imploram os condenados que desejam dizer as últimas palavras.

Por que último? Não esperava o questionamento; e sim que a filha lhe perguntasse sobre o presente. Mas esqueceu os seus motivos e já não soube responder. Diga algo que faça sentido, mamãe, último presente é dramático demais.

Baixou os olhos.

Queria viajar para rever a irmã. Precisava dizer-lhe o quanto ela fora importante, que havia negligenciado por ter passado tanto tempo sem vê-la. Queria viajar para rever a irmã, fazia tempo que não a via. Queria viajar para rever. Queria.

— Já disse que lhe darei o presente, mamãe, mas pare de repetir essa frase irritante!

Atente para o tempo, quis dizer e não soube. No dia em que ela se perdeu nos zigue-zagues de dois quartos, sala, cozinha e banheiro a filha finalmente entendeu que os afetos têm urgência.

A viagem foi marcada, e aconteceu. Não seria duradoura, a filha conseguiu apenas uma semana de folga. Tempo suficiente para a consciência do reencontro. Está ótimo, minha filha.

As duas irmãs passavam longas horas sentadas uma ao lado da outra. As palavras não se encontravam. Não havia perguntas ou constatações. A respiração pulsava como o coração.

— Eu vim porque ando, sei lá, meio estranha. Muito esquecida. Esquecida demais.

— Liga para isso não, às vezes todo mundo é meio estranho.

— Às vezes eu me esqueço até o nome de minha filha. Esqueço onde estou.

— Liga para isso não, às vezes é bom a gente esquecer.

Os olhos azuis eram os mesmos de antes, mansos e belos. Mas às vezes boiavam, num vácuo.

A alma é que parecia ir a uma ilha e voltar.

— Quem é a senhora?

Foi chocante ouvir. A irmã pegou-lhe as mãos e sorriu com tristeza: em que ilha a alma dela foi parar naquele instante?

Na hora da viagem de volta, as duas se abraçaram. Despedir-se, ainda em vida, é o mesmo que abraçar a morte. Uma chorava, comovida. A outra, náufraga, parecia já ter seguido antes mesmo de o navio partir.

Miserere mei, Deus
O cheiro de velas queimando é o perfume dos fantasmas que vagam na Hora Morta. Eles sussurram em nossos ouvidos enquanto rezamos ajoelhadas, ofício divino, às seis da tarde. As chamas pequenas e avermelhadas tremem, espíritos querendo falar.

— A vós suspiramos, gemendo e chorando neste Vale de Lágrimas.

Hora indefinida, final da tarde, início da noite, nós nos retiramos no coro monástico, escondidas do mundo. Temos apenas o tempo presente de meditações e orações; e um passado de memórias feridas. Ouvimos as almas, todas têm obsessão pelo passado.

As velas ardem e as recordações são feitas com a matéria das orações. O cheiro de parafina derretendo é de causar embrulho: quando menina, em casa, com a família, eu ouvia os conselhos do papa João XXIII que nos chegavam pelas ondas do rádio:

— Seis horas, Ave Maria. Vamos rezar aos anjos. Eles podem nos trazer grandes benefícios.

Aquela voz rouca ainda ressoa. Minha mãe, Filha de Maria, dizia vamos fazer silêncio, ouvir a mensagem deste homem santo. A família inteira parava, momento de contrição. Quem nos dá a alma também nos mostra o medo.

— Guardai-me e defendei-me como filha e propriedade vossa...

Ao final, a emissora tocava Schubert. Minha mãe, o olhar sereno, convincente:

— Eu seria a mãe mais feliz do mundo se a minha filha seguisse a vida religiosa...

Consagrei-me à religião, assumi compromisso de castidade e obediência. Eu me ofereci em sacrifício ao peso do santuário, aos tesouros inestimáveis da fé, evitando as divagações do coração e dos sentidos. Sei do exato instante que minha vida parou e fui enclausurada.

A vela se consome, aroma de remorso dos espíritos. Minha vida enclausurada, mãe, você me deu à luz e escondeu a minha lâmpada. Sei, sim, do exato instante. Mas rezo na esperança de que encontre a sua paz:

— Perdoai os nossos pecados e nos conduza à vida
eterna...

De joelhos, escuto o canto gregoriano. Hoje é como viver num deserto.

A mulher que viu a história
Parte de minha história terminou ali, naquele dia, naquela hora. A campainha tocou. Tudo o que eu queria, até então, era ser uma boa dona de casa, garantir a saúde, a felicidade e o bem-estar do meu marido e dos meus dois filhos. Estava satisfeita com a vida que levava.

Preparava o almoço quando alguém tocou a campainha. Pensei: ai, meu deus, logo agora, que hora mais inconveniente para se fazer uma visita. Mas eu não estava esperando ninguém, e minhas vizinhas eram iguais a mim, todas entendíamos que as atividades sociais não deviam interferir no trabalho principal de dona de casa. Sendo assim, reuniões, visitas, nada disso podia ser desculpa para atrasar o almoço, que precisaria estar pronto quando o marido e os filhos chegassem.

Terminei de temperar a carne, coloquei a tampa da pressão. Desliguei o rádio. Ouvira, há pouco, a notícia da morte de um padre. Um tal de padre Henrique. O corpo fora encontrado num terreno baldio, na Cidade Universitária. Ele tinha uma corda enrolada no pescoço e três tiros na cabeça.

Não fiz nenhuma associação, nem raciocinei, tudo o que eu queria era apressar o almoço. Afobada, fui atender a pessoa, que tocava a campainha com insistência. Nem deu tempo de tirar o avental.

— Bom dia, senhor.

Era um homem de meia-idade, baixinho, obeso, paletó amarrotado. Tinha uma maleta do tipo 007. Ele me olhou de cima a baixo, depois voltou a me encarar.

— Deolinda Marques Guedes?

— Pois não.

Falou baixo, sem tirar os olhos de mim:

— Ontem à noite a senhora estava ali...

Apontou pra o canto do jardim, que ficava na frente da casa. Um muro pequeno separava o jardim da calçada.

— Ficou por muito tempo, recostada naquela mureta, olhando para a rua...

Ele falava muito baixo, como se não quisesse ser ouvido por mais ninguém. Eu realmente tinha estado ali, onde ele dizia. Gelei, fiquei em silêncio. Como sabia?

— A senhora viu tudo.

Fez um breve silêncio, pigarreou. Ele exalava um cheiro forte, suor e cigarro. O olhar me intimidava.

— A senhora viu absolutamente tudo.

Não sabia o que responder.

— Quem é o senhor?

Estava visivelmente nervosa, tanto pela surpresa, quanto pelo tom. E pela aparência dele. Calmo, ou calculista, mas acusador. Eu já estava assustada, sem entender direito a situação:

— Mas o que foi que eu vi? Do que o senhor está falando?

Sem tirar os olhos de mim, ele avançou um pouco, o que me forçou a sair da frente. Estávamos na soleira da porta e ele entrou na minha casa sem ser convidado.

— Não é assunto para a gente falar na porta de entrada da casa.

Só me restava entrar também, aflita. Havia uma expectativa, algo meio violento na sua postura, que eu não saberia dizer ao certo o que era. Mas havia.

— A senhora não precisa ter receio de mim. Por enquanto.

— Senhor, estou sozinha em casa. Sou casada...

Eu gaguejava, tremia. A voz, quase de choro.

— Eu sei. Já sei o horário de todos da casa.

— Sabe? O que o senhor quer?

— Vamos deixar de conversa. Direto ao assunto. Vou lhe dizer o que a senhora viu. Já que parece ter esquecido, de ontem à noite para agora. A senhora viu uma Rural Willys verde e branca estacionada na calçada, do outro lado de sua casa.

Era para dizer que sim ou que não?

— A senhora viu mais. Tinha quatro homens dentro.

— Moço, o que o senhor quer de mim? Estou ocupada na cozinha, tenho comida no fogo.

— Viu também quando o padre saiu da casa de sua vizinha. Viu ou não viu?

Claro que sim. Tinha o hábito de, após colocar as crianças para dormir e o marido ficar lendo as revistas no quarto, sair para não ficar incomodando. Às vezes eu o irritava com perguntas, com reclamações ou com assuntos que não eram de seu interesse.

Aquele momento de ler as revistas era sagrado para meu esposo, e eu ia para o jardim. Passava horas me distraindo, recostada na mureta, pensando na vida, olhando o movimento da rua. Que era quase zero.

Na noite anterior, aconteceu algo muito estranho. O carro estacionou e ficou parado ali, com aqueles homens dentro, como se esperassem alguém. Não dei muita importância. Lá pelas nove horas, o padre saiu da casa dos meus vizinhos e se dirigiu ao ponto do ônibus, que ficava um pouco mais adiante, na mesma calçada. A rua estava deserta, a iluminação também nunca fora boa. Meio na penumbra.

Certa vez a minha vizinha falou que o padre tinha um trabalho de evangelização e visitava, sempre que podia, as famílias dos alunos. Mas falava-se à boca miúda que ele era desses padres modernos, com ideias avançadas, metido a comunista. Não sei, não posso dizer.

Enquanto ele se dirigia para o ponto do ônibus, dois homens desceram da Rural Willys. Foi então que deu para perceber, era um homem feito e um garoto. Logo, na Rural Willys estariam três homens e um garoto. Os que desceram alcançaram o padre, falaram qualquer coisa que eu não pude ouvir. E vieram andando de volta para o carro, rapidamente.

Primeiro, o padre entrou na Rural Willys. Depois, os dois. O carro partiu.

— A senhora viu tudo isso. Mas vou lhe dar um conselho, esqueça o que viu.

Eu mal conseguia respirar. Ele apertou com força o meu braço, me olhando com raiva.

— Entendeu? Não viu nada. Fui claro?

Soltou-me. Olhou um pouco mais para a sala, como se estivesse procurando alguma coisa.

Lembrei-me da notícia que acabara de ouvir no rádio.

— Antes que eu me esqueça. Seu marido, Rinaldo Guedes Gondra, é um homem de negócios. Você deseja o sucesso dele. Quer ser esposa de um homem de alta potência.

— O que tem o meu esposo?

— Ele tanto pode continuar crescendo profissionalmente quanto ser demitido da repartição. Pior, poderá sofrer um acidente também.

— Deixe Rinaldo em paz.

— Os seus dois filhos, Leonardo e Helaine, também podem ser levados da Escola Dom Vital para dar um passeiozinho...

Ele riu, sarcástico. Coloquei a mão na boca. Comecei a chorar, as lágrimas escorrendo, eu não conseguia me controlar. Ele sabia de tudo da minha família.

— Depende da senhora, da sua capacidade de ficar calada...

Deu meia volta, iria embora. Quando alcançou a porta, eu continuava paralisada na sala. Ele girou a maçaneta, para sair.

— Nenhum pio! Com ninguém!

Antes de a porta se fechar e ele pegar o caminho da rua:

— Não diga sequer ao seu esposo que eu estive aqui. Por que, se eu voltar, não será para uma visita de cortesia.

Foi embora, com seu cabelo horrível, os dentes amarelados, o hálito podre. Um verme, de aparência doentia, barriga enorme. Tive forças para ir até a janela, olhar pelo basculante. Ele seguia apressado, na calçada, com sua maleta.

Voltei para dentro de casa. Não conseguia mais raciocinar. A panela de pressão parecia que iria explodir. Minha cabeça também.

Tive uma crise nervosa, perdi a fala, fui internada, passei a viver com remédios controlados. Só voltei a falar meses depois, mas o medo de minhas lembranças levara anos para eu superar. Eu tinha medo de lembrar.

Tudo o que se referia ao passado me causava pânico. Fiquei com fobia a memória. Era como se o homem da maleta estivesse dentro de minha cabeça: eu não vi nada, não sei nada. E não devo falar nada. Nada.

Conversando água
Pai era um homem sem religião. Quantas vezes ele lhe levou numa igreja, Marcionila, quantas? Por aí você tira que ele não deixou coisa boa para nós. E o que foi que ele deixou para nós? Deixou essa ciência de descobrir água debaixo da terra, como se isso fosse uma coisa boa para se... É melhor você ir parando por aí, Aglailson. Se tem uma pessoa de quem eu me orgulho é do nosso pai. Foi um homem muito honesto e trabalhador. Quando falo sobre ele é o mesmo que estar vendo o velho dando passos segurando a forquilha tirada de um galho de goiabeira. Caminhava até a ponta da forquilha envergar para baixo, como se quisesse dizer: aqui tem um poço. E tinha mesmo.

É o que estou lhe dizendo, minha irmã, ser caçador de água é manobra mediúnica, é trabalho de magia. Como é que pode um homem caminhar em cima da terra esturricada do sertão, debaixo de um sol que só falta secar o juízo, e esse homem caminha caminha caminha, até passar por um ponto onde ele sente que tem água embaixo. E diz com toda segurança aqui tem água, pode cavar o poço. Como é que pode, Marcionila? O pastor me disse que a maior macumba é a nossa força mental e eu acho... Aglailson, você já está dizendo besteira de novo, você conheceu pai tanto quanto eu e sabe que ele era um homem simples, que não andava metido com coisa errada. Ele entendia a linguagem dos mistérios porque quem vive de sofrimento recorre à adivinhação. E nós fomos no mesmo caminho, somos do mesmo mundo. Começamos ainda meninos na missão de achar água, herdamos o dom de pai. Foi ou não foi?

Se eu herdei, Marcionila, renego. Se fomos no mesmo caminho, seguimos pelo mau caminho. Faço questão de esquecer o que pai me ensinou. O que ele me ensinou é heresia, coisa de espírito inferior. E se era isso que tinha para me deixar como herança, até mesmo ele eu procuro esquecer desde que aceitei minha fé. Fique certa, minha irmã, nada é mais importante do que a nossa fé. Mais importante para você, Aglailson, porque para mim a coisa mais importante é a gratidão. E eu nunca esqueci nosso pai; isso seria ingratidão. Esquecer é a mesma coisa que ingratidão; e não existe pecado maior do que a ingratidão.

Como era mesmo que ele dizia, Aglailson, quando a gente era pequeno? Dizia que essa ciência veio do avô, que por sua vez passou para o pai, e ele mantinha a tradição revelando para os filhos. É verdade, ele dizia isso, mas você acha isso bonito, Marcionila? Para mim, tradição e nada é a mesma coisa. De que serve a tradição quando ela é campo fértil para o inimigo semear a sua obra? De que inimigo você está falando, Aglailson? Você está ficando maluco, ainda bem que eu estou aqui para manter vivo um desejo do velho. Eu achava lindo quando ele falava da tradição, por que vou quebrar essa aliança? Já eu vejo diferente, Marcionila; agindo assim você está se entregando à escravidão das coisas ocultas. De que escravidão você está falando, Aglailson? Você não está bem do juízo; alguma vez nosso pai falou que caçar água é coisa do oculto? Pois eu lhe digo, Marcionila, o inimigo é astucioso e sedutor, sabe usar as palavras enganadoras para nos manter escravos, e o inimigo falava pela boca de nosso pai.

Não diga isso, Aglailson, nosso pai era homem temente a Deus, e adivinhar onde tem água era um dom. Você não sabe nem o que é um dom, Marcionila, e fica falando com tanta certeza na voz que até parece... Se não sabe é melhor ficar calada para não falar bobagem. Sei demais, Aglailson, dom é um enigma divino.

Enigma divino! Enigma divino! Não me faça rir, você não sabe o que diz, portanto não me venha com essa conversa de enigma divino. Eu falo o que quero, Aglailson, é enigma divino, sim; a proteção divina só cobre aqueles que a mereçam, pai era caçador de água, assim como nós, porque Deus só permite acontecer uma coisa que seja possível.

Sabe o que está acontecendo, Marcionila? Você está sob influência do inimigo e, por mais que eu lhe explique, nunca vai me entender e nem concordar comigo; então eu lhe peço, por favor, nunca mais diga que eu também sou caçador de água como o nosso pai. Estou lhe entendendo, Aglailson, você quer esquecer o passado, você quer renegar as lembranças de nosso pai por causa de sua igreja. É ou não é?

Marcionila, preste atenção, quando a gente é ungido e batizado, deixa o passado no lugar do passado. É lá que ele deve ficar, pois eu nasci outra vez, sou um homem novo; quem eu fui ficou na escuridão do passado desde que entrei para a Lei. Então, fique com sua lei, Aglailson, eu fico com a fidelidade ao que passou. Eu acho que o passado de uma pessoa nunca finda e se nós estamos hoje aqui é porque algum dia estivemos lá. E quer saber mais, Aglailson? Já dissemos besteira demais e é bom pararmos com esta conversa por aqui.

Ideias perigosas
Para Luiz Façanha

Todo pobre é sem vergonha, seu Dante gritava na rua. Como se ele mesmo não fizesse parte daquilo. E os vizinhos, à meia boca: lá vai ele conversando merda outra vez, seria melhor guardar a língua! Seu Dante, trôpego, só tinha coragem de dizer os impropérios quando estava daquele jeito. Todo pobre é covarde! O tom da voz não era muito alto, coitado, a força dos pulmões se enfraquecia com os anos. E cachaça tem o poder de embolar a língua, às vezes parecia outro idioma: se pobre não fosse safado não aceitaria essa vidinha de miséria!

Aos domingos, descia a rua sóbrio, logo cedo, arrumado, banho tomado. Lá pelas tantas, depois de umas e outras, voltava do mercado. Todo pobre é safado! Certa vez, tropeçou nas próprias pernas e eu o levantei do chão. A vizinhança o tratou como um pacote de lixo. Eu disse para ele se apoiar em meu ombro e ele falou camarada me leve para a casa de seu Ramiro. Para minha casa não, para a do camarada Ramiro. E no percurso, o pacote que eu praticamente arrastava contou que a mulher ficava aos nervos quando o via naquele estado. Igual a um cachorro!

Seu Ramiro é o único que tem a minha consideração nessa rua, não é sem vergonha igual a vocês, mas um homem de bem. Eu poderia ter largado aquele pacote ali. Mas ele parecia mais exausto do que propriamente bêbado. Seu Ramiro abriu a porta. Sóbrio, taciturno, de poucas palavras. Viúvo, morava sozinho. A única lâmpada, que mal iluminava a sala, era pendurada por um fio que descia do teto. Os dois se sentaram em cadeiras da sala de estar para ouvir um rádio de ondas curtas.  A frequência não está muito boa, é uma pena, o anfitrião disse. Mas vale a pena esperar um pouco, sabe quem vai falar? Camilo Cienfuegos e Raúl Castro. O diabo é que esse rádio, hoje, está ruim. Pegou bem o dia todo, mas agora está assim...

Ficou mexendo nos botões até que a sintonia melhorou um pouco. Usteds están con la Radio Nacional de Cuba. Abaixou o volume.

— Cienfuegos e Castro... Quando esses dois falam parece que jogam areia nos olhos da gente...

Seu Dante, apesar de bêbado, pareceu interessado. Seu Ramiro o olhou, como se estivesse conferindo o nível de consciência, depois acrescentou:

— Dante, você já ouviu Cienfuegos? Já ouviu Raúl? Esses dois são bons de conversa e de dedo...

Seu Dante objetou:

— Olha o que se conversa na frente de um menino como esse...

Deu-me ordem:

— Já estou bem... Pode ir embora, menino! Muito agradecido, viu? Muito agradecido!

Naquele fim dos anos sessenta eu era pouco mais que um menino, morava em João Pessoa, uma cidade com ares interioranos. Meu pai, aflito, me esperava em casa. Soube que você foi à casa de Ramiro, levando Dante. É verdade? Você por acaso sabe o que se fala por aí desses dois comunistinhas safados? Não chegue nem perto! Nem perto! Você ouviu alguma conversa dos dois? O que eles disseram? O que você ouviu? Nada, pai, não ouvi nada. Apenas deixei os dois lá, falando que todo pobre é pobre porque quer. Filho, não faça amizade com esses dois, está me ouvindo? Não chegue nem perto desses homens. Esqueça Dante e Ramiro. Esqueça, pelo amor de Deus. Mas o que os vizinhos falam e que é tão grave sobre aqueles dois, pai? Qual é o problema? O problema, meu filho, é que estamos vivendo uns tempos em que o esquecimento é a regra número um para quem quer continuar vivo.

Buracos na lataria
Todo mundo desta cidade sabe quem é Lorena. A dona do bar. Mas nem todo mundo sabe ao certo quem é Lorena. E todo mundo sabe que o bar não é exatamente um bar. Essa é apenas uma forma de dizer: o bar. É um treiler. Na verdade, nem isso. É a carcaça de um treiler abandonada na rua. Quando ainda não era rua, mas um terreno baldio. Ainda hoje não é uma rua decente, há tanto lixo em volta, ratazanas.

Encardido, enferrujado, há uns buracos na lataria. Mas o que são uns buracos na lataria? Os buracos da lataria não têm utilidade nenhuma quando as ratazanas são impedidas de entrar. Há um gato bastante nutrido, que dorme sobre o balcão do treiler. Uma espécie de balcão, que nem isso chega a ser.

É uma superfície plana exposta na grande janela que, quando aberta, se transforma em balcão. E quando aberta essa janela fica encimada por uma parte que faz sombra, a marquise, embora não chegue exatamente a ser uma marquise. É o bar onde os operários da construção civil ao lado vêm beber umas e outras. Às vezes.

Lorena é esta que pega as garrafas de cachaça que guarda debaixo do balcão e serve as doses, perguntando se o freguês quer tira-gostos de amendoim ou pedaços de galinha fritos no óleo. Que ninguém sabe se é galeto mesmo. Lorena serve e, depois, volta a ficar recostada na cadeira. Que nem é cadeira. Uma poltrona velha, muito velha, e suja, rasgada.

Lorena fica grande parte do dia sentada, e quando alguém passa em frente ao treiler o que vê é apenas parte do que ela é. Uma mulher sem idade definida, de cabelos grisalhos, repartidos ao meio, caindo pelos lados. Senta-se e quase não se move. Apenas alisa o pelo do gato gordo, que num minuto pula do seu colo e vai dormir sobre o balcão do bar.

Lorena mora ali mesmo. Quando abaixa a janela, o treiler vira sua casa, onde mal cabe uma televisão deste tamanho, que a sintoniza com o mundo; um fogão de duas bocas e também uma geladeira ligada numa instalação clandestina. É tudo que uma casa precisa.

O gato volta para o colo da dona e fica atento às ratazanas. A vida de Lorena é o treiler. Vida boa é a sua, Elvis.

Flor
Para Fernando Batista

A flor do baobá é branca. De um branco que chega a brilhar, rasgando a penumbra do anoitecer. A flor do baobá sabe que os morcegos são o seu lobo da noite, mas, ainda assim, é fulgurante.

A enfermeira me disse vá para casa, nós cuidaremos dela. Qualquer coisa, eu lhe telefono. De nada adiantaria eu ficar pelos corredores.

A flor do baobá brota num silêncio profundo, no início da noite, e o silêncio é a voz do espírito. Anoitecia, estava frio. Fiquei ali na praça, sentado num banco, junto da enorme raiz da árvore da vida. É assim que falam dos baobás, árvore da vida, pela sua longevidade. O baobá zomba da morte.

Meses antes, você me disse vou ficar boa, vou sair dessa. Eu tinha a mesma esperança, respondi sim, meu amor, você vai ficar boa, embora ambos tivéssemos mais incertezas do que respostas.

A flor do baobá está consciente do legado de sua beleza e do perigo dos morcegos. Por isso exala um cheio desagradável, na esperança de afugentá-los. Contraditoriamente, atrai a volúpia dos morcegos exatamente por aspergir esse odor.

Um filme passando na minha cabeça: há menos de um ano, você pegou o resultado do exame e quem ficou arrasado fui eu. Você me disse tenha fé, não deixe que a tristeza murche sua vida. Eu respondi como ter fé se deu positivo, não está vendo isso aqui? Você, tranquilamente:

— Quando a gente faz um exame, já sabe. Ele só poderia dar positivo ou negativo. Deu positivo, o que podemos fazer? Encarar o tratamento.

Simples assim, otimista e pra cima. Falou imperturbável, naturalmente, e eu nunca a admirei tanto como daquela vez. Fiquei olhando para o nada, refletindo sobre seu autocontrole, sua maturidade, sua aceitação das coisas inesperadas. Vamos homem, reaja, a vida continua, afirmou. Eu me senti obrigado a reagir, a vida continuava.

— A gente renasce quando enfrenta esses momentos difíceis, você me disse, passando a mão em meus cabelos.

Hoje, no início da tarde, quando ainda estava indo visitá-la no hospital, vi os pêndulos das flores do baobá. Pensei: acompanhei os casulos crescendo. Assim foram os dias, vi todo o processo. De pequenos, transformaram-se em grandes bolas verdes fechadas.

Abelhas picavam a parte de baixo dos pêndulos. O que as abelhas significam?

— Será que as flores brotam hoje?

As abelhas picavam o casulo que guardava a flor. Agora tenho a resposta, as picadas é que forçam o casulo a se abrir. A flor precisa das abelhas para sair de um mundo para o outro.

Ao anoitecer, os casulos finalmente não resistiram ao ataque das abelhas. As cascas verdes retorciam-se para cima, expulsando a flor que havia dentro de cada de um deles.

Flor de cabeça para baixo, de pétalas misteriosas. Beleza extraordinária, branca, branca, branca.

Cada crise, cada obstáculo, representava um peso. Como se o peso fosse mais para mim do que para você, que estava doente. Eu sempre fui meio covarde. Você, não, doce e forte.

Há dias você, muito fraca, debilitada, deitada na cama do hospital, tomava drogas fortes. Dormia, e eu velava o seu sono, incerto de sua cura. Os médicos iriam fazer a cirurgia como última tentativa. Ainda havia uma possibilidade. E nessa possibilidade eu me agarrava.

Chegaram os morcegos. Às centenas. Para receber a seiva da flor recém-nascida, beijar o branco incandescente. Os morcegos fazendo festa em torno da flor; a beleza das pétalas projetava-se na felicidade deles.

Saí do hospital, não quis ir para casa. Preferi ficar vendo a flor e os morcegos. Fazer o quê, em casa, sozinho? Bater a cabeça nas quatro paredes, chorando, desesperado? Pelo menos ali, na praça, ao ar livre, o mundo me parecia menos sufocante. O forte odor das flores não é muito diferente do que sinto.

De exausto, cochilo no banco. Sou despertado pelo telefonema. A voz da moça dizia venha com urgência para o hospital que sua mulher piorou. Entendi.

Minha esperança era de que você voltaria a sorrir, a ser aquela pessoa que sempre foi, leve e feliz. Restava-me a trágica constatação de que não havia mais nada a fazer.

Minhas mãos tremendo, meus olhos eram incredulidade, não conseguiam derramar lágrima. Ai, meu Deus, por que isso está acontecendo? Uma pergunta tão boba e desnecessária, mas que a revolta exigia fazer: por quê? Uma vontade de gritar, mas para quem ouvir?

Faltava-me o chão, nunca imaginei o mundo sem você, Flor.

O corpo na laje, envolto num lençol verde. Diante do corpo, minhas fragilidades e impotências davam tapas no meu rosto. O gelo do ar-condicionado da sala me amortalhava.

É humilhante ver o corpo de uma pessoa sem vida — uma pessoa tão forte e tão doce — sobre a laje de um necrotério de hospital. O que é a vida? Tanto cuidado, tantas ponderações, tantas normas, tantas vaidades. E tanta história. Tudo ali, sobre a laje. Tanta inteligência, tanta ideia, tanto sentimento. A morte luta contra a memória do afeto.

Eu não acreditava no que via: seu corpo coberto da cabeça aos pés, inerte. Mas eu não via os pés, cabeça, nada. E alisava aquele pacote envolto sobre o lençol verde. Seu corpo todo coberto, enfaixado.

Ai, minha amada, minha querida. Minha grande amada, minha querida, meu amor. E o silêncio. E o engasgo. E as mãos trêmulas.

O pacote verde na laje, acho que estes são seus braços dobrados sobre o corpo. Aqui, suas mãos. Rasgo o lençol, encontro seus dedos cor de cera. Toco neles, seus dedos longos e frouxos, que foram morenos. Eu ergui um pouco mais o pano verde, encontrei sua mão. Descoordenada, flácida, quieta. Estava fria, calor nenhum.

Fiz o que era de se esperar. Chorei. Pela miséria humana, pelas nossas fraquezas, pelo ridículo de nossa natureza. Até que o meu coração ouviu o que certamente você me diria, otimista e alegre, numa situação como aquela.

De manhã, muito cedo, aviso a alguém do necrotério que preciso sair para resolver algumas burocracias próprias dessa situação. Necessariamente atravesso a praça onde está o baobá.

Dizem que a flor do baobá dura vinte e quatro horas. O certo é que, durante a madrugada, as pétalas perderam a brancura incandescente. Elas agora estão amareladas, com pintas de ferrugem.

A flor do baobá dura apenas o tempo de sua própria eternidade. Enquanto há incandescência. Em poucas horas, vive todas as estações. O resto é resquício de sua vida.

Somente os poucos que tiveram a graça de assistir ao espetáculo do seu desabrochar podem falar de sua beleza.

CÍCERO BELMAR é escritor e jornalista. É autor de contos, romances, biografias, crônicas e de peças de teatro. Também escreve para crianças e jovens. Entre os romances que publicou estão Rossellini amou a Pensão de Dona Bombom e Umbilina e sua grande rival. Natural de Bodocó (PE), mora no Recife e é membro da Academia Pernambucana de Letras.

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