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Entrevista

“Fui minha própria inspiração”

Bailarina Ingrid Silva fala sobre sua trajetória e os fatos de sua autobiografia na qual narra seus passos até se tornar a primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem

TEXTO Débora Nascimento

02 de Dezembro de 2021

foto Angela Zaremba/Divulgação

[conteúdo na íntegra na edição impressa e digital | ed. 252 | dezembro de 2021]

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Quem visitar o Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana Smithsonian, em Washington (DC), vai encontrar, dentre os documentos e objetos expostos, um artefato singular. A descrição do item, com dois parágrafos, começa informando: “Uma sapatilha de ponta de balé de cor personalizada com cosméticos em um marrom escuro para combinar com o tom de pele da dançarina”. E sobre esta: “Silva, Ingrid, Brazilian, born 1988”.

Quando saiu do Benfica, bairro da zona norte do Rio, em janeiro de 2008, com parcas roupas de frio, poucos dólares e uma quantidade menor ainda de palavras em inglês, Ingrid Silva não suspeitava de que seu nome estaria no acervo de um dos mais conceituados museus dos Estados Unidos, como mais uma prova da vitória profissional que teria na cidade mais competitiva daquele país, Nova York.

Filha de Maureny, então empregada doméstica, e de Claudio, um funcionário da Força Aérea Brasileira, ela precisou de ajuda para realizar a viagem. Uma das pessoas que contribuíram enxergou naquela ida da jovem apenas uma louca aventura e lançou a aposta: “Tenho certeza de que estou gastando o meu dinheiro à toa, tenho certeza de que em breve você volta para o Brasil”. Não poderia estar mais errada.

A trajetória exitosa, ao custo de muito trabalho, força de vontade e disciplina da brasileira Ingrid Silva, lhe garantiu a conquista da vaga de primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem, uma renomada companhia de dança, fundada em 1969, que prioriza a participação de dançarinos negros. Hoje, a garota e adolescente, que não tivera em quem se espelhar quando ainda era estudante de balé, tornou-se referência para diversas meninas negras – e também brancas.

Ingrid foi para Nova York após ter sido descoberta pela então primeira bailarina da companhia, Bethânia Gomes, filha da historiadora e ativista Beatriz Nascimento. A coreógrafa estava, em 2007, em visita ao Brasil e conheceu o projeto Dançando para não dançar, na Vila Olímpica da Mangueira, onde observou a jovem se apresentando ao lado de outras alunas. A estudante carioca também fez cursos na companhia de Deborah Colker, no Rio, e no Grupo Corpo, em Minas Gerais. Mas o interesse maior era mesmo o balé clássico.


Lançada neste segundo semestre, autobiografia também é composta de fotos da vida de Ingrid. Imagens: Divulgação

Ao ser aprovada pelo próprio fundador e diretor do Dance Theatre of Harlem, o coreógrafo Arthur Mitchell (primeiro dançarino negro do New York City Ballet), Ingrid ganhou uma bolsa, mas precisou trabalhar como garçonete para completar o orçamento em uma cidade muito onerosa de se viver. Lá, enfrentou dificuldades como falta de dinheiro, competição e a saudade da família e dos amigos. Mas resistiu. E desde então vem realizando cada um dos sonhos que alimentaram sua carreira e até outros que surgiram pelo caminho, como ser convidada pela cantora Alicia Keys para participar da campanha She’s a king e ter sua trajetória narrada pela voz da tenista Serena Williams em um comercial da Nike.

Dentre os sonhos também estava o lançamento de uma autobiografia, que foi realizado no final do mês de agosto. Na foto da capa de A sapatilha que mudou meu mundo (Globo Livros), a bailarina aparece com o calçado que passou 11 anos pintando para que tivesse uma cor aproximada da sua pele – os bailarinos da companhia faziam isso desde 1970. O processo de cobrir com uma base de rosto levava quase uma hora e era uma demonstração do enfrentamento ao racismo em um mercado que insistia, até então, em apenas fabricar para clientes brancos. Em novembro de 2019, após um ano de negociação com um fabricante, ela conseguiu finalmente as sapatilhas da cor de sua pele. O antigo par virou peça de museu. Como também deveria ocorrer com o racismo.

Nesta entrevista para a Continente, por videochamada, Ingrid Silva destrincha os temas que envolvem a autobiografia, escrita durante a pandemia e enquanto amamentava a filha Laura, que esteve em seu colo em alguns momentos desta conversa e que, em novembro, mês do aniversário de 33 anos de sua mãe, completou um ano de nascimento. A bailarina fala sobre os seus feitos, a competição no balé, a ansiedade que enfrentou, o empoderamento, o enfrentamento do racismo, a relação com as redes sociais, os projetos, próximos sonhos e sobre uma trajetória felizmente não invisibilizada, como as de suas antecessoras negras nessa arte.

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