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Resenha

A utopia do teatro segundo O Galpão

Livro reúne textos críticos, ensaios e imagens da trajetória do coletivo teatral mineiro

TEXTO Márcio Bastos

02 de Dezembro de 2021

Grupo no palco com o espetáculo 'Pequenos milagres' (2007)

Grupo no palco com o espetáculo 'Pequenos milagres' (2007)

Foto Pablo Pinheiro/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 252 | novembro de 2021]

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O Grupo Galpão tem desenvolvido uma das mais longevas e celebradas pesquisas do teatro brasileiro. Fundado em 1982, o coletivo mineiro já montou 24 espetáculos, circulou por 18 países da América Latina, América do Norte e Europa, e continua em ebulição criativa, adaptando-se às necessidades de seu tempo, resistindo, apesar de tudo, com a firmeza e perseverança dos sonhadores. Essa trajetória emblemática ganha um novo registro com o lançamento do livro Grupo Galpão: tempos de viver e contar (Sesc Edições), que reúne textos críticos, ensaísticos e um vasto material imagético.

O Brasil tem uma relação problemática (para não dizer negligente) com a sua história e essa questão tem reverberações fortes na cultura, como mostram os incêndios do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018, e de um galpão da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, em julho deste ano, só para citar alguns exemplos. Na contramão do descaso e do desmonte do setor, o Galpão e vários artistas lutam para registrar suas ações e compartilhar conhecimento e experiências, fortalecendo a democratização do acesso aos processos criativos.

Além de ter quase todos os seus espetáculos registrados em vídeo, o grupo também lançou outros materiais impressos, como diários de montagem e publicação de suas dramaturgias. Eduardo Moreira, um dos fundadores e responsável pela organização desta nova publicação, enfatiza a necessidade de divulgação da memória das artes cênicas no país, que ainda é realizada de forma pouco sistemática, e as dificuldades desse processo, principalmente por questões financeiras.

“Este livro dá sequência a um relato da memória do Galpão, que tem um trabalho extenso, diário, contínuo, sem interrupção, há quase 40 anos. Os registros abarcam da fundação até o nosso último espetáculo presencial. Acho que o Galpão conta a história da cultura e do teatro brasileiro através de sua trajetória, então ter o registro disso me parece muito importante, significativo”, pontua. “Essa nossa preocupação encontra limitações na dificuldade de guardar e preservar material, que é um processo que demanda dinheiro. É um trabalho complexo, mas estamos muito atentos à importância dele. Só não fazemos mais porque falta financiamento.”

Esse compromisso do grupo com sua história se reflete no esmero da produção do livro. O material oferece uma leitura fascinante para os amantes do teatro e explicita a dedicação do Galpão com seu ofício, não só no cuidado com suas criações, mas com a compreensão da cultura como um instrumento fundamental na transformação da sociedade. Como reforça Moreira no artigo que abre a obra, intitulado Grupo Galpão: a utopia da poesia no mundo, o verdadeiro sentido do teatro “é tornar visível aquilo que ainda é invisível (...) Achar outro lugar, novas dimensões. A possibilidade de outros caminhos, outros destinos, outros mundos.”


Os atores Wanda Fernandes e Eduardo Moreira em Romeu e Julieta, Praça do Papa, Belo Horizonte (1992). Imagem: Magda Santiago/Divulgação

A publicação registra as primeiras inquietações que deram origem ao grupo, ocorridas no subsolo da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais), em 1979, ainda durante a ditadura militar, e após um curso com diretores alemães do Freis Theatre München, que vieram ao Brasil a convite do Instituto Goethe, em 1982. Após as aulas, Teuda Bara, Wanda Fernandes, Eduardo Moreira, Fernando Linares e Antônio Edson decidiram montar o grupo, afastando-se da rigidez europeia e abraçando a possibilidade do encontro e da construção de diálogo com o público.

O início da produção, realizada na rua, com montagens como A alma boa de Setsuan, de Bertolt Brecht, e E a noiva não quer casar, toda encenada em pernas de pau, ajudou a estreitar e consolidar a relação do coletivo com o espaço urbano. Os trabalhos continuavam para além da apresentação, com o Galpão sempre aberto a ouvir o público e trocar experiências e sensações, em um processo de resgate da própria ideia do teatro como acontecimento convivial. A regra do grupo era levar o teatro para onde fosse possível, como ressalta Moreira no livro.


O elenco completo da peça Romeu e Julieta (1992). 
Imagem: Guto Muniz/Divulgação

Com um diálogo entre o popular e o considerado erudito, a tradição e a contemporaneidade, o Galpão fez de sua pesquisa um lugar de encontros, nunca de exclusão. A forma de trabalho do coletivo é horizontal e sem rigidez – e a experimentação está no seu cerne. Por isso foi capaz de, ao longo dessas quase quatro décadas, agregar tantos talentos, entre eles vários convidados, como os diretores Paulinho Polika, Eid Ribeiro, Gabriel Villela, Cacá Carvalho, Paulo José, Paulo de Moraes, Yara de Novaes, Jurij Alschitz e Marcio Abreu.

No livro, além do texto de Moraes, há um importante material analítico do crítico Valmir Santos, além da reunião de trechos de matérias e análises de jornalistas e especialistas em artes cênicas publicados ao longo das últimas décadas na imprensa nacional. As imagens capturam a força das montagens do Galpão e também permitem a visão dos bastidores e do processo criativo, como no caso da filmagem de Moscou, documentário do cineasta Eduardo Coutinho, que registra os ensaios da peça As três irmãs, de Tchekhov, em que o grupo foi dirigido por Enrique Diaz.

Estão presentes na obra todas as peças do grupo até Outros (2018), último trabalho apresentado nos palcos. A publicação conta ainda com imagens das duas passagens do grupo pelo Globe Theatre, na Inglaterra, considerado “a casa de Shakespeare”, registros do Galpão Cine Horto, espaço cultural mantido pelos artistas em Belo Horizonte, e textos traduzidos para o inglês, além da ficha técnica de todos os espetáculos.

“Acho que, neste momento vivido pelo Brasil, com a tentativa de desmoralização e desmonte da cultura que está sendo operada no país, é simbólico e importante o lançamento deste livro. Ele reforça a importância de um grupo de teatro que vai fazer 40 anos, viaja o país inteiro e tem um reconhecimento e uma representatividade na cultura brasileira”, enfatiza Moreira.


Ensaios do Galpão de texto de Tchekhov estruturam o filme Moscou, de Eduardo Coutinho (2009). Imagem: Bianca Aun/Divulgação

Prestes a completar 40 anos em 2022, o Grupo Galpão continua se reinventando. É formado por Eduardo Moreira, Teuda Bara, Inês Peixoto, Paulo André, Lydia Del Picchia, Chico Pelúcio, Beto Franco, Antonio Edson, Simone Ordones, Fernanda Vianna, Julio Maciel e Arildo de Barros. O coletivo produziu várias obras durante a pandemia da Covid-19. Apenas neste 2021 foram apresentados três trabalhos: Quer ver, escuta, uma peça radiofônica, Como os ciganos fazem as malas e Sonhos de uma noite com o Galpão, híbrido de teatro e audiovisual construído a partir da coleta de relatos de sonhos que o público teve durante a pandemia.

“A pandemia nos pegou com as calças nas mãos. A gente não sabia o que fazer, achando que isso seria uma coisa passageira, uma visão muito equivocada. Pouco a pouco a gente foi se reestruturando e, já no segundo semestre de 2020, começou a fazer peças virtuais. Este ano a gente desenvolveu um grande projeto com várias dramaturgias virtuais. Bem ou mal, nos adaptamos a esse formato. Estamos criando, movimentando as redes sociais, como uma forma de nos manter em atividade e em contato com o público”, reforça Eduardo Moreira.

MÁRCIO BASTOS, jornalista e mestrando em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.

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