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Por trás das câmeras da televisão

Leia trecho do livro ‘Mônica Silveira – histórias de uma repórter de TV’, assinado pela jornalista e publicado pela Cepe Editora

TEXTO MÔNICA SILVEIRA

03 de Novembro de 2021

Livro registra os momentos mais marcantes da trajetória da jornalista da TV Globo

Livro registra os momentos mais marcantes da trajetória da jornalista da TV Globo

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 251 | novembro de 2021]

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Como que isso foi acontecer?
Tinha acordado cedo, preparado a mala e seguido para o aeroporto do Recife. Agora, estava na sala de embarque à espera da chamada para o voo que nos levaria a Aracaju, capital de Sergipe, onde gravaríamos um trecho de uma reportagem que seria exibida no programa Globo Repórter. Era agosto de 2014.

Toda a bagagem da nossa equipe — o cinegrafista Robson Batista, o auxiliar Victor Gomes e eu — já estava no avião. Tinha falado pelo telefone há pouco com Arlete Heringer, produtora encarregada de coletar dados, fazer agendamentos, deixar todos os caminhos preparados para que o nosso trabalho fluísse bem. Ela tinha saído do Rio para nos encontrar em Aracaju e já estava na praça de alimentação de um shopping esperando a nossa chegada. O sinal de celular não estava muito bom, mas procurei tranquilizá-la:

— O voo é curto. Daqui a pouco estaremos por aí.

Não temos aquela mania de, quando não estamos fazendo nada (e mesmo quando estamos), dar uma olhadinha no celular? Abri o grupo do WhatsApp da Globo e vi que Luna Markman, na época, repórter do portal G1 Pernambuco, perguntava: “Caiu um avião agora há pouco em Santos?”.

Da pergunta pareceu brotar uma árvore, uma árvore muito feia, que todos gostaríamos de eliminar da face da terra. Luna, com sangue de jornalista atento correndo na veia, levantou o assunto e todo mundo começou a procurar a resposta. E logo achou: “Sim, caiu um avião em Santos”. Talvez fosse um helicóptero. Quem estava dentro? Não se sabia direito ainda. Talvez Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, que tinha deixado o cargo quatro meses antes para concorrer à presidência da República.

O primeiro turno da eleição seria em outubro e, nessa semana, o Jornal Nacional estava entrevistando os candidatos. Eduardo Campos tinha dado a entrevista dele a William Bonner e a Patrícia Poeta na noite anterior e, na manhã seguinte, se deslocado para os compromissos de campanha agendados para Santos.

Abri os portais de notícia e as confirmações foram surgindo. Falei para Robson e Victor o que estava acontecendo e, mal nos levantamos da cadeira para sair de dentro da sala de embarque em direção ao saguão do aeroporto, o telefone tocou. Era Bio Antero, chefe de redação da Globo no Recife, perguntando onde eu estava. Respondi. Ele disse que corrêssemos para o Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo de Pernambuco, porque havia caído um avião e tudo indicava que Eduardo Campos era um dos passageiros.

No salão de embarque, ninguém entendia por que estávamos seguindo tão apressados na direção oposta à da entrada nos aviões. Percorremos todo o caminho na contramão de todo mundo para tentar, no guichê da companhia aérea, resgatar nosso equipamento — microfones, tripés, iluminação, baterias — do bagageiro do avião. Somente a câmera viajaria na cabine, com o cinegrafista, como acontecia habitualmente.

No guichê, meus colegas argumentavam com os funcionários da companhia. O aeroporto começava a se movimentar de uma maneira diferente. Parei na frente da tv de uma loja e me concentrei no Jornal Hoje, que estava no ar. Os apresentadores Sandra Annenberg e Evaristo Costa falavam sobre o desastre aéreo, já tinham imagens ao vivo do local, dos destroços e, de repente, exibiram uma foto de Eduardo Campos na tela, confirmando que uma das vítimas era ele.

As lágrimas começaram a escorrer dos meus olhos loucamente e eu só pensava: que horror, meu Deus! Ele e Renata têm cinco filhos, inclusive um bem pequenininho, Miguel. Pessoas assim não podem morrer!

Senti Robson me arrastando e ouvi o telefone tocando de novo:

— Onde vocês estão?

Eu estava enxugando as lágrimas e tentando sair do aeroporto. Era preciso arranjar um táxi. Robson e eu iríamos primeiro e Victor ficaria tentando reaver nossa bagagem. Lembrei de Arlete, do Globo Repórter, nos esperando lá em Aracaju. Tentei avisar o que estava acontecendo e não consegui. A ligação não completava. Uma agonia.

Pegamos um táxi. Eu mal raciocinava. Do nada, apareceu Victor com as malas e alguns equipamentos. O tripé, ele não tinha conseguido que tirassem do bagageiro do avião. Pedi que botasse minha mala no banco de trás, entre ele e eu, porque me dei conta de que estava com uma blusa que tinha escolhido aleatoriamente só para cumprir o percurso curto da viagem: um modelo pra lá de básico, cor de laranja, que jamais usaria numa reportagem de tv. Catei na mala uma blusa que não estivesse amassada. Pedi que todos fechassem os olhos — menos o motorista, claro. Mas que não olhasse pelo retrovisor. Troquei de blusa ali mesmo. E, em seguida, peguei a bolsa de maquiagem. Estava de cara totalmente lavada. Tentei começar a maquiagem. Havia um equipamento multimídia no táxi e a tv estava ligada. Os apresentadores do Jornal Hoje passaram a ler a lista de ocupantes do avião: Eduardo Campos, Carlos Percol...

Não!

O nome dele era Carlos Augusto, mas, desde a faculdade, todo mundo conhecia como Percol. Era uma daquelas figuras divertidas. Havia sido meu aluno quando eu ensinava sobre televisão na Universidade Católica de Pernambuco. Anos tinham se passado e ele só me chamava de “professora”. Tínhamos nos encontrado cinco dias antes, em um compromisso de campanha de Eduardo Campos em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco. Eu havia ligado um monte de vezes para Percol para saber a que horas o avião da comitiva deles pousaria. Não daria mais tempo de mandar imagens para o Jornal Nacional se demorasse muito. Ele pediu para meu cinegrafista, que, nesse dia, era Roberto Quirino, não fazer aquela imagem de sempre de Eduardo descendo do avião. Haveria mais o que mostrar em Garanhuns.

Quando eles chegaram ao hotel, no centro da cidade, tomaram um banho, Eduardo deu uma entrevista, Percol me deu o beijo e o abraço de sempre e seguimos a carreata deles. Minha equipe de reportagem chegou de volta ao Recife quase de madrugada.

Naquela quarta-feira, 13 de agosto, não havia notícias de sobreviventes. Percol tinha morrido. Estava com 36 anos e havia se casado poucos meses antes com Cecília Ramos, também nossa colega de profissão. Ele havia ocupado diversos postos na assessoria do grupo de Eduardo Campos e andava colado com o candidato na campanha.

Também morreram o fotógrafo Alexandre Severo, que conhecíamos de encontros em reportagens, Marcelo Lyra, cinegrafista, Pedro Valadares Neto, assessor de campanha, Marcos Martins, piloto do avião, e Marcos Magela, copiloto. E Renata Campos? A princípio, suspeitaram de que ela estava no voo, mas não. Tinha se despedido do marido logo cedo e voltado para o Recife.

Eu tentava passar um corretivo nas olheiras, base no rosto, pó. Nada colava na pele. Era só lágrima e lágrima e lágrima. Desisti de me esforçar. Botei um batom e os fones no ouvido. Recebi mais uma ligação na qual ouvi a seguinte explicação: havia três repórteres a caminho do Palácio: Bianka Carvalho, Ronan Tardin e eu. O Jornal Hoje não via a hora de botar algum de nós no ar para dar notícias direto do Recife. A van equipada para viabilizar transmissões ao vivo já estava posicionada. Quem chegasse primeiro entrava de imediato.

Cobertura da morte de Eduardo Campos. Tudo em cima da hora, no Jornal Hoje. Imagem: Acervo TV Globo

Foi assim mesmo. O Jornal Hoje tinha extrapolado o tempo habitual de transmissão e permanecia no ar, estava num plantão infinito dando todos os detalhes possíveis do que havia acontecido. Imaginei que todos os olhos do Brasil estavam voltados para a tv. Entravam notícias de São Paulo, de Santos, de Brasília e, agora, sim, do Recife. Comigo!

Tinha acabado de descer do táxi e um técnico da tv que aguardava o primeiro repórter que aparecesse ali encostou com os equipamentos necessários para as participações ao vivo. Só houve tempo de plugar o fone e botar nos ouvidos.

Não tinha dado para me recompor, ainda menos para falar para o Brasil todo, quando ouvi Evaristo Costa e Sandra Annenberg dizerem que, agora, teríamos notícias direto do Recife. Lembro que eles me perguntaram algo tipo:

— Qual a repercussão da morte de Eduardo Campos por aí? Como está o clima na cidade?

Eu não sabia. Fui sincera: disse que, instantes atrás, estava no aeroporto, pronta para embarcar para Aracaju, contei o que aconteceu lá, que estava chegando ao Palácio naquele momento...

E, de repente, apareceu o assessor de imprensa do governador João Lyra Neto, que tinha assumido no lugar de Eduardo Campos. Manoel... Manoel... minha cabeça atônita não lembrava o sobrenome da pessoa que poderia nos ajudar, naquele momento, com um mínimo de informações que fosse. Junto com vários jornalistas, corri para junto dele. Estávamos no ar, ao vivo. Ele explicou algumas providências que estavam sendo tomadas pelo governo do Estado naquele instante, perguntamos algo mais, comentei sobre o movimento na frente da sede onde Eduardo tinha trabalhado por mais de sete anos e da qual tinha saído para se candidatar, deixando no lugar dele o vice João Lyra Neto, e devolvi para Sandra e Evaristo. E o sobrenome de Manoel só então apareceu na minha mente: Guimarães. Eu já tinha saído do ar.

Havia emoção se esparramando por todo lugar no salão do Palácio do Campo das Princesas, na calçada, nas ruas. Havia comoção. Gente estupefata. Fichas não caíam. Nessa hora, percebi que a pessoa desmantelada de tristeza chamada Mônica tinha aberto espaço para a repórter Mônica. Fui batalhar.

A GloboNews, canal da tv por assinatura, queria boletins. O Jornal Nacional queria uma reportagem — matéria, como a gente costuma dizer, com “intimidade”. E uma participação nossa ao vivo também. O NE2, nosso jornal local à noite, também contava com uma reportagem.

Mobilizei toda a minha concentração. Sondei todos os sinais de notícias diferentes ao redor. Mantive uma comunicação produtiva e efetiva com os colegas que estavam na retaguarda, nas redações. 

Nossos colegas repórteres do Recife, cada um num ponto, brigavam com garra de leão para fazermos aquela cobertura. Bianka Carvalho, por exemplo, estava na frente da casa de Eduardo Campos, no bairro de Dois Irmãos. Outros repórteres assumiram os lugares dos que começaram mais cedo para seguir produzindo reportagens para o Jornal da Globo, a GloboNews, para abastecer o Bom dia Pernambuco e o Bom Dia Brasil do dia seguinte.

Cheguei em casa aos pedaços. Foi impossível conciliar o sono. Aquele pesadelo dominava minha mente. Na manhã seguinte, retomamos a cobertura. Toda a equipe mobilizada. Reportagens, participações ao vivo nos telejornais, inúmeros cafezinhos servidos no hall do Palácio, sanduíches (na falta de uma refeição completa), mais e mais pessoas chegando e se aglomerando na calçada. Gente com cartazes, fotos, poemas, bandeiras de Pernambuco, fotos de Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco e avô de Eduardo Campos, morto também num 13 de agosto, só que nove anos antes.

A repórter Sônia Bridi e o cinegrafista Paulo Zero chegaram do Rio de Janeiro para fazer uma cobertura exclusiva para o Fantástico.

Havia reportagens sendo produzidas — e exibidas — sobre as causas do acidente, sobre a trajetória política de Eduardo Campos, a família, os últimos momentos de vida dele. Muita expectativa para a chegada dos corpos para o velório. O dentista de Eduardo tinha viajado para fazer o reconhecimento do corpo pela arcada dentária. Depois descobrimos que não havia corpo, apenas fragmentos — de todas as sete vítimas do acidente.

Montaram uma estrutura enorme na frente do Campo das Princesas, onde os caixões seriam colocados. Avistei Ângela Mota, chefe do Cerimonial do Palácio, providenciando mil coisas. Já tínhamos nos encontrado muitas vezes antes, porque ela sempre cuidava de todos os eventos ligados ao governador, inclusive das entrevistas coletivas. Nunca tínhamos batido um papo. Nesse dia, Ângela estava completamente abatida. Desabafou: já tinha preparado visitas das mais diversas autoridades a Eduardo Campos, cerimônias de todo tipo, encarado os maiores desafios na função que exercia. Mas jamais considerou que precisasse organizar o ambiente do velório dele, com quem trabalhava há anos.

Criei uma empatia enorme com ela depois dessa conversa. Mais tarde, muitas vezes nos encontramos no almoço, num restaurante perto da sede da Globo, no Recife, e sempre lembro disso, embora nunca mencione para ela.

O enterro seria no domingo, dia 17. Sob a liderança de Jô Mazzarolo, a equipe da Globo Nordeste estava bem preparada e dividida para que a cobertura jornalística fosse completa. Ficamos no ar 8 horas seguidas, mostrando tudo, sem intervalo. Vieram autoridades do Brasil todo, artistas, amigos, desconhecidos.

Os velórios das vítimas não aconteceram todos no mesmo lugar. Explicamos como seria cada enterro. O helicóptero, Globocop, levantou voo. Mostramos a saída do caixão com o corpo de Eduardo para o cemitério, num caminhão dos Bombeiros, o enterro no túmulo vizinho ao do avô Arraes.

Eu não fiquei diretamente envolvida com a cobertura que estava sendo transmitida para Pernambuco porque fui encarregada de fazer flashes que seriam exibidos pela Globo, a partir do Rio, para o Brasil todo. Entrava no ar com as atualizações nos intervalos da programação de domingo. Também preparei reportagens para a manhã seguinte.

Quando a segunda-feira chegou, não parávamos de nos perguntar como algo assim poderia acontecer. Um homem morto aos 49 anos, no auge da vida e da carreira, pai de cinco filhos... Eu não me conformava. Como foi difícil ver lá de longe aqueles filhos em torno do caixão no velório do pai!

Também via, à distância, Cecília, agora viúva de Percol. A voz dele ecoando na minha mente: “Professora!”.

A viúva de Eduardo, Renata Campos, se manteve discreta o tempo todo. Não deu entrevistas.

Mais tarde, o filho mais velho, João Campos, assumiu o protagonismo do pai. Foi eleito deputado federal em 2018, com 23 anos de idade, sendo o mais votado do estado. E, em 2020, prefeito do Recife.

Paulo Câmara, do PSB, candidato de Eduardo para o Governo de Pernambuco, que estava em campanha na época do desastre, se elegeu para o cargo, e, quatro anos mais tarde, se reelegeu.

Quando reencontrei com Arlete Heringer, do Globo Repórter, pedi desculpas por não ter conseguido me comunicar com ela para dizer que não iríamos mais para Aracaju.

— Não se preocupe. O pessoal da redação avisou.

Foi quando contei em detalhes para ela o que tinha acontecido.

Carla Suzane, nossa colega da tv Sergipe, afiliada da Globo, assumiu a gravação daquela reportagem do Globo Repórter sobre endividamento dos brasileiros.

Nenhum dia parecido com o outro
Acho que acontece na vida de todo jornalista: muitas e muitas vezes, o dia parece virar de cabeça para baixo por causa das pautas que surgem do nada.

Dessa outra vez, éramos nós que estávamos voando, mas de helicóptero. Só sei que estava morta de medo, a não sei quantos pés de altitude, numa viagem que parecia sem fim. Eu sabia que helicópteros e eu não tínhamos nascido para ser bons amigos. Mas, enfim, aqui e acolá, lá estávamos nós nos acolhendo. Agora, o caminho aéreo seria o mais curto para transpor a distância de mais de 500 quilômetros que separa o Recife de Cabrobó, no Sertão de Pernambuco.

— Estás fazendo o que aí, mulher?

Virei para trás. Estava na frente do espelho do camarim da tv me organizando para entrar no estúdio e apresentar o netv 1ª edição (na época, o atual ne1 era chamado assim), como fazia há anos. E o meu colega:

— Você vai para Cabrobó cobrir a greve de fome do bispo Dom Cappio para o Jornal Nacional. O helicóptero decola já, já.

Eu, sem acreditar:

— É quase meio-dia! Tô com roupa de estúdio. Maquiagem de estúdio. Tamanco alto (naquele tempo, os apresentadores ainda não apareciam de corpo inteiro no ar e o tamanco — ou o que quer que fosse — ficava escondidinho atrás da bancada).

— Corre, Mônica!

Peguei a bolsa, o caderno, a caneta, o pó compacto, o batom e embarquei, junto com o cinegrafista Marconi Matos — também interceptado às pressas em algum ponto da redação —, e afivelamos os cintos, botamos os fones de ouvido, ficamos sob as ordens dos pilotos do Globocop. Dei um jeito de avisar em casa que demoraria a chegar.

Helicóptero, jangada, barco a motor, para mim é tudo igual. Só faço enjoar. A caminho de Cabrobó, ainda tivemos que fazer uma escala em Paulo Afonso, na Bahia, para abastecer o helicóptero. Ai, meu Deus... outro pouso, outra decolagem. O comandante dizendo coisinhas divertidas para ver se eu me distraía.

Quando chegamos a Cabrobó, deu para ver a concentração de pessoas e de carros em torno da igrejinha que o bispo Dom Luiz Flávio Cappio, de Barra, na Bahia, tinha escolhido para se alojar durante o período da greve de fome. O assunto estava no noticiário nacional e internacional. Ele protestava contra o projeto da transposição do Rio São Francisco, alegando que seria extremamente prejudicial para o rio e para as populações ribeirinhas.

A igrejinha na beira do Rio São Francisco, onde Dom Cappio fez greve de fome. Imagem: Acervo TV Globo 

O pouso do nosso helicóptero foi um estardalhaço só. Aquele barulho todo das hélices, a terra seca revirada pelo vento girando, as pessoas se afastando. Umas, curiosas, outras tapando o nariz e a boca para não se sufocar.

Quando tudo se acalmou um pouco, desci quase morta de vergonha por ter chamado tanto a atenção. Ao pisar no chão de barro todo irregular, percebi o quanto me sentia repentinamente transplantada do piso lustrado da redação para ali, com os meus tamancos altos me mantendo em constante desequilíbrio.

Soube que o cinegrafista Marconi Matos e eu teríamos apoio de um carro da tv Grande Rio, que tem sede em Petrolina, bem mais perto de Cabrobó do que o Recife fica. A equipe da Grande Rio se apresentou cheia de boa vontade em um Fiat Uno, que já carregava três pessoas — o repórter, o cinegrafista e o auxiliar. O repórter Augusto Medeiros me daria enorme ajuda naquela situação. Quando Marconi e eu entramos, com nossa câmera, microfones, iluminação, baterias, parecia que o carrinho ia explodir de mormaço, com aquela lotação esgotada.

Naquela caixinha de fósforos, nos aproximamos da igrejinha e iniciamos as gravações. Havia romeiros, políticos, religiosos, jornalistas do Brasil e do exterior. Fomos nos situando como qualquer recém-chegado, e gravando o possível. Precisei de banheiro e me apontaram a beira do Rio São Francisco. Cheguei cambaleando nos tamancos, tentando ficar anônima em uma fila de gente que passava nos dois sentidos, fosse para ver o rio de perto, fosse para fazer o mesmo que eu.

Os produtores e editores do Jornal Nacional e do nosso jornal local, o netv 2ª edição (que vou chamar de ne2, como passamos a chamar depois), ligavam sem parar. Queriam uma posição, atualização. Precisavam, enfim, saber com o que poderiam contar para planejarem direitinho os telejornais. O celular funcionava precariamente. Eu parava para encontrar uma área melhor e tentar me comunicar e via, de longe, que perdia de estar em algum aglomerado — certamente havia alguma coisa interessante acontecendo ali enquanto eu batalhava por sinal de celular. Rascunhava o texto no caderno enquanto o tempo voava.

Precisava voltar para o Recife a tempo de botar a reportagem no ar. Seriam mais 500 quilômetros de volta. Fui informada que daria mais ou menos uma hora de voo. Estava tensa, tentando não deixar escapar nenhuma possibilidade de entrevista importante, informações, imagens que ilustrassem bem o que acontecia naquele pedacinho de sertão e chamava a atenção no mundo todo. Havia gravado uma passagem (quando o repórter aparece no vídeo dando informações, tipo a assinatura dele na reportagem), Marconi tinha batido o bolão de sempre. No voo do retorno (só me preocupava em ter o saco de enjoo por perto), rolavam ligações e mais ligações pelo celular. Não sei nem como aquilo era possível. Mas, em alguns trechos, era.

O editor no Recife, Charles Tricot, estava tão tenso quanto eu, pedindo para passar o texto para ele. Tinha que ditar pelo telefone mesmo, para que ele, por sua vez, passasse para os editores do jn no Rio. Que agonia! Eu gritava o texto, ele não ouvia. O helicóptero avançava e eu ouvia os pilotos falando aquelas coisas de “yankee”, “alfa”, “tango”... o prefixo... e entreouvia um papo que não me agradava nada: naquele horário, começo da noite, o espaço aéreo estava meio congestionado por causa dos aviões de carreira que se aproximavam do aeroporto do Recife.

Sei que pousamos no heliponto do Centro de Convenções, já perto da sede da Globo, em Olinda, onde um motorista da tv nos resgataria para, finalmente, eu gravar o texto e editarmos a reportagem para ir ao ar. A responsabilidade e o cansaço me martelavam a nuca.

Dom Luiz Cappio anuncia o fim da greve de fome, na beira do Rio São Francisco. Imagem: Hallina Beltrão

Assim que consegui descer, liguei para Charles Tricot, para dar a notícia que eu supunha ser a mais esperada do dia: tinha dado tudo certo, havíamos pousado a tempo. Em instantes, estaríamos na ilha de edição.

— A reportagem caiu (é assim que a gente fala quando uma reportagem, matéria, vt, por algum motivo, sai do espelho do jornal. Ou seja, não seria mais exibida).

— Como assim, Charles?

Eu não acreditava no que estava escutando. 

Fui para casa em um dos momentos de maior frustração da minha vida.

Não tinha acabado
Quando cheguei ao trabalho, na manhã seguinte, tinha um “vida que segue” estampado na minha mente em letras gigantes. E havia pela frente o ne1 inteiro e todas as chamadas, e a maquiagem e o cabelo para fazer. Daqui a pouco, apresentaria o jornal, como sempre.

Dessa vez, a notícia chegou um pouquinho mais cedo. Ainda não era perto do meio-dia e fui avisada de que iríamos de novo a Cabrobó fazer a reportagem sobre a greve de fome, o protesto do bispo. Agora, iríamos, o cinegrafista Augusto César e eu, de helicóptero, e o nosso auxiliar Jorge Coty iria dirigindo o carro da tv para nos encontrar mais tarde por lá. Contar com um carro de apoio nosso me proporcionou a regalia de poder mandar buscar em casa uma muda de roupa para trocar, além de um par de tênis, escova, pasta de dentes, desodorante.

Assim, enfrentamos, pelo segundo dia consecutivo, aquele voo sem fim, com aquela famigerada escala em Paulo Afonso e conversinhas dos pilotos com o intuito de me relaxar outra vez. Agora, o pouso foi menos espalhafatoso, no campinho de futebol de Cabrobó, onde o Fiat Uno da equipe amiga da Grande Rio já nos aguardava. Nosso carro vindo do Recife só chegaria horas depois — teria que enfrentar 7 horas de estrada.

Quando tenho muita responsabilidade pela frente, consigo abstrair uma parte de mim, consigo me concentrar bem. Mas, naquela tarde, enlouqueci com a quantidade de ligações: editores pedindo texto, pessoas testando comunicação ao vivo, equipe local querendo saber o que teríamos ao vivo para os jornais. Haveria entrevistado?

Precisava apurar, escrever, responder, orientar o cinegrafista, procurar perceber o que os concorrentes estavam fazendo e que não aparecia, a princípio, no meu radar. A equipe da Arte do JN queria minha ajuda para ilustrar o ambiente e explicar o projeto de transposição. Tudo era urgente. Não tinha um único banco para me sentar. Nem um lanche, nem um café para me fazer sentir dando pausa. 

Texto passado por telefone, aprovado, hora de gerar tudo para o Recife, que, por sua vez, geraria imagens e áudio para o Rio. Já havíamos sido avisados de que compartilharíamos um esquema de geração — envio do material gravado — com outras emissoras. O dono de um equipamento que fazia geração por satélite sacou a oportunidade de fazer negócios, dirigiu até a fazenda, posicionou o caminhão justo ao lado da igrejinha onde o padre estava e, assim, passou a oferecer o serviço mais disputado da região naquele momento. Ele recebia o pagamento das emissoras por hora de geração. Na porta do caminhão, tinha fila para enviar materiais de todas as equipes de tv. Enquanto uma emissora mandava o que tinha gravado, a outra aguardava bem perto para não perder a vez. Muitas vezes, o repórter de uma escutava o texto do repórter da outra e ali já sabia se tinha deixado de gravar algo relevante.

Na hora da nossa geração, algum problema técnico atrapalhou tudo. O editor no Recife enlouquecia. Eu também. Mas, finalmente, com a intervenção de Augusto César, nossas imagens e o som que captamos chegaram ao Recife. 

Quando tudo isso terminou, já estava perto da hora do jn começar. Consegui ver, não me lembro em que tv, que nossa reportagem foi ao ar naquela edição do jornal. A sensação de vitória em um dia como esse não tem descrição.

Entrei no nosso carro, que, ufa, havia chegado, e respirei. E-xau-ri-da.

Eram quase 9 horas da noite naquele deserto, na zona rural do município de Cabrobó, quando o telefone tocou. Era o editor do Jornal da Globo dizendo que queria uma reportagem diferente, mostrando o que estava acontecendo de noite em torno da igreja. Uma vigília, talvez.

Tinha sido uma gigante, na minha opinião exacerbada sobre mim mesma, naquele momento: dado conta de executar uma tarefa difícil com o mínimo de condições. Tinha sido assim para todos os outros jornalistas ali. Agora, esgotada, eu era como uma criança. Comecei a chorar.

Nosso auxiliar Jorge Coty saiu para ir buscar algo que nos alimentasse. E fizemos a reportagem para o Jornal da Globo resumindo o que tinha acontecido ao longo do dia e atualizando as informações com fatos da noite, como uma vigília feita por romeiros.

Já bem tarde, viajamos quilômetros até encontrar um hotel. E dormimos. Voltamos para o Recife e, no dia seguinte, lá estava eu outra vez, pronta para apresentar o ne1, com um sapato baixinho de reserva guardado no armário.

A greve de fome de Dom Cappio durou 11 dias e terminou com a celebração de uma missa depois de uma negociação entre ele e o então ministro das Relações Institucionais, Jacques Wagner.

Outras muitas vezes tremi nas bases
Antes de contarmos com o Globocop, a tv alugava aviões pequenos para as equipes viajarem em regime de urgência e fazerem reportagens em lugares distantes. Dessa vez, o destino era o interior da Paraíba.

Eu ainda estava tateando nessa história de fazer reportagem para o Jornal Nacional. Sentia-me insegura, como é natural aos marinheiros de primeira viagem. O caminho dos repórteres até chegarem ao jn tinha um funil apertado no meio. Passar por esse funil era o sonho de quase todos os iniciantes. Havia os repórteres consagrados, já da equipe. E havia aqueles que, vez por outra, despontavam por lá com uma ou outra reportagem. Eu estava nessa fase.

Era Dia do Professor e a equipe de produção foi buscar em Boa Ventura, no alto sertão paraibano, a professora que ilustraria a história que faria uma homenagem a todos os professores do Brasil.

Lá fomos nós de avião — um bem pequenininho, do tipo que eu fazia de conta que não tinha consciência de que estava dentro dele, para não querer descer correndo. Éramos eu, o cinegrafista Marcos Spiga e o auxiliar José Rodrigues, que todos chamavam de “Zito Cipó”. Não conhecíamos o piloto.

Sei que, quando passamos pela Serra do Teixeira, entre Pernambuco e Paraíba, o avião sacolejava loucamente. Seguramos firmes tentando disfarçar os estômagos revirados. Chegamos a Boa Ventura e tinha uma caminhonete à nossa espera. Havia 34 escolas no município. E 77 professores. Muitos davam aulas dentro de suas próprias casas. Fomos aos lugares localizados previamente pela produção e a outros que descobrimos por lá. Mostramos que a professora Luciene Rodrigues ganhava, por mês, 12 reais. Naquele ano, 1996, o salário mínimo era 112 reais. Ela vendia bananas para complementar a renda. Voltamos para o avião com tudo devidamente gravado.

Decolamos. Era fim de tarde, e nunca, nunca, tive tanto medo de morrer ali mesmo voando, a caminho da redação. Quando olhei para os colegas, vi que eles estavam tão em pânico quanto eu. O avião parecia uma folha de papel pairando na serra com muita violência. O piloto “ajudou” dizendo que a serra não era mesmo fácil. Orei, tentei mudar o pensamento para um cenário onde tudo estivesse perfeitamente sob controle.

Aquilo parecia sem fim. Mas, sim, chegamos ao Recife e corremos para a sede da tv. O jn contava com a reportagem e mostraria como uma profissional tão relevante como uma professora precisava vender bananas para viver.

A nossa reportagem foi ao ar.

Dormir, em um dia desses, é meio que viver uma vigília de celebração e de relaxamento.

MÔNICA SILVEIRA nasceu no Recife, Pernambuco. É mãe de dois filhos e jornalista formada no início dos anos 1980. Depois de décadas de dedicação ao jeito de escrever para a televisão, aventurou-se neste primeiro livro.

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