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Artigo

A violência contra as mulheres jornalistas

O crescimento dos ataques às jornalistas e o que ele diz sobre os abalos da democracia brasileira

TEXTO Nataly Queiroz

03 de Novembro de 2021

Em 2020, 56,76% dos ataques virtuais contra profissionais de imprensa atingiram mulheres

Em 2020, 56,76% dos ataques virtuais contra profissionais de imprensa atingiram mulheres

Ilustração Hallina Beltrão

[conteúdo na íntegra | ed. 251 | novembro de 2021]

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No mês que marca a luta pelo enfrentamento à violência contra a mulher é indispensável abordar o crescimento dos ataques às jornalistas mulheres, em especial na internet, enquanto uma face do abalo democrático concomitante à guinada autoritária neoconservadora. No início deste ano, a Unesco, por meio da pesquisa The Chilling: tendências globais na violência online contra jornalistas mulheres, alertou para a gravidade do fenômeno em todo o mundo. Utilizando uma combinação de métodos, dentre os quais, entrevistas e estudos de caso, a investigação apontou que pouco mais de 70% das profissionais entrevistadas, em 125 países, afirmaram ter sofrido violência no ambiente digital. 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em seu monitoramento das violações à liberdade de imprensa no país, igualmente, identificou que a internet é o espaço privilegiado dos ataques que interseccionam ódio à imprensa e misoginia. Em 2020, mais da metade (56,76%) das investidas na internet contra profissionais da imprensa se direcionaram às mulheres. 

Os sites de redes sociais catalisam a maior parte dos casos de violência contra jornalistas mulheres, evidenciando tentativas de descredibilizar e silenciar as profissionais com discursos sexistas e, muitas vezes, racistas. As estratégias de intimidação vão desde xingamentos, assédio e exposição de dados pessoais até ameaças e campanhas orquestradas de difamação. 

Apesar de ser um fenômeno global, o crescimento das manifestações de violência contra jornalistas mulheres apresenta características específicas de acordo com o território e se agudiza quando os agentes promotores ou estimuladores da violência são autoridades públicas. Ainda de acordo com o monitoramento da Abraji, entre 2019 e 2020, houve um aumento de 73% dos discursos estigmatizantes proferidos por representantes da política institucional contra a imprensa, sendo apontado o presidente da República como o principal promotor desses discursos no ano passado. No que diz respeito a esse tipo de manifestação direcionada aos jornalistas (e não a empresas jornalísticas), 41,67% das investidas são contra profissionais do sexo feminino.

De forma geral, o incremento no número de casos de violência contra jornalistas nos fala sobre os abalos (ou os limites) da solapada democracia brasileira. As diversas tentativas de silenciamento da imprensa fazem parte de uma estratégia autoritária de interferência na construção das subjetividades acerca do mundo no qual vivemos. Considerando a informação livre de interferências como um direito humano e bússola para a tomada de decisões em sociedade, a descredibilização do trabalho jornalístico caminha lado a lado com a criação de um terreno fértil para a desinformação e para a derrocada dos direitos à informação, à liberdade de imprensa e de expressão.

Especificamente, os dispositivos em destaque nos ataques às jornalistas mulheres interseccionam essa tentativa de cerceamento da liberdade de imprensa – um importante termômetro democrático, juntamente com o direito de livre associação e organização da sociedade civil –, e o elogio ao patriarcado enquanto sistema organizador da dinâmica em sociedade. 

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Os ataques às profissionais da imprensa do sexo feminino têm a peculiaridade de articular, recorrentemente, mecanismos de intimidação que envolvem dimensões da vida privada, familiar e/ou sexual das vítimas. Trata-se de uma nítida referência aos papéis de gênero designados às mulheres em um sistema patriarcal. Parte considerável dos ataques nas redes, por exemplo, vem acompanhado de xingamentos de cunho moral e estético, como “vadias”, “vagabundas”, “putas”, “feias”, assim como de ameaças que envolvem direta ou indiretamente familiares das jornalistas. 

O caso do trocadilho empregado pelo presidente Jair Bolsonaro (“Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”) para se referir à denúncia publicada pela jornalista Patrícia Campos Mello sobre os disparos de mensagens em massa durante a campanha presidencial é emblemático, apesar de não ser o único. A conotação sexual, carregada de deboche machista, é utilizada como estratégia discursiva de deslegitimação do trabalho da repórter. 

Tais dispositivos não são novidades, mas é interessante observar como as dinâmicas da comunicação digital são oportunizadas como uma caixa de ressonância para práticas autoritárias e excludentes. Vale ressaltar que essa leitura não visa subtrair o potencial mobilizador e de visibilidade para lutas em prol da justiça social que a internet possui. O objetivo é lançar luzes sobre esse espaço de fluxos como um espaço político disputado por velhos e novos grupos de poder. A arquitetura dos algoritmos das principais redes sociais, aplicativos de conversação, envio de mensagens e buscadores, programada por empresas da economia informacional globalizada, derruba por terra a máxima do uso totalmente autônomo e horizontal dos seus usuários.

As manifestações contra jornalistas têm no seu cerne o ódio às práticas democráticas, à partilha de poder, à equidade, à transparência e aos direitos sociais. No caso feminino, também contempla, como vimos, a repulsa à emergência das mulheres na esfera pública, ainda mais em espaços de formação de opinião, historicamente considerados lugares de poder. 

Na rede mundial de computadores, os ataques parecem acontecer numa dinâmica de jogo, mobilizando diversos jogadores, em enxames com participação de pessoas e de bots, para perseguir um/a suposto/a inimigo/a. Como se trata de um espaço de fluxos, eminentemente simbólico, o silenciamento é uma estratégia de aniquilação. O ódio é combustível. Dados são como corpos a serem contidos, dominados. A velocidade e o alcance das investidas são inéditos, não ficando circunscritas à vida online, tampouco às páginas dos veículos onde trabalham. As vítimas são perseguidas em seus perfis pessoais, e-mails e telefones, sofrendo, igualmente, os impactos pessoais, profissionais e sociais na vida offline.

Os temas das coberturas, nas quais as jornalistas em geral sofrem esses ataques dialogam diretamente com a democracia: segurança, política e/ou checagem de informações. Tratam-se de áreas de inegável interesse público e garantidoras de direitos fundamentais. No Brasil, as informações sobre a relação entre checagem de dados e violência contra jornalistas são incipientes, mas é possível citar as perseguições e intimidações praticadas contra profissionais de agências de fact-checking, como a sofrida pela diretora de redação do Aos Fatos, Tai Nalon, após denunciar o envolvimento do procurador do Ministério Público de Goiás, na disseminação de informações sem comprovação científica sobre o uso de cloroquina para tratamento da Covid-19.

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O relatório global da Unesco trata desse fenômeno, apresentando uma relação direta entre desinformação e ataques misóginos em massa. De acordo com o estudo, reportagens sobre redes de desinformação no ambiente digital e ações articuladas pela extrema direita são gatilhos para iniciar os ataques, na maior parte das vezes estimulados e/ou praticados pelos mesmos agentes denunciados. O foco é minar a confiança na repórter, desacreditar o conteúdo da reportagem e induzir um movimento silencioso e perigoso de autocensura por meio dos constrangimentos públicos imputados. Além disso, naturaliza a prática dos ataques como se fossem “opiniões”, quando na verdade se apresentam em formato de manifestações odiosas, caluniosas e/ou difamatórias.

Os agressores de jornalistas mulheres se valem das brechas existentes no modelo de negócios e na estrutura das plataformas dos sites de redes sociais, as quais ainda não dispõem de mecanismos eficazes de enfrentamento a esse tipo de prática, sendo campo fértil para ataques. O estudo da Unesco também aponta que parte considerável das empresas de comunicação comerciais secundarizam o problema, não consolidando programas de proteção. 

Um informe elaborado no ano passado pela Abraji, a pedido das Nações Unidas, identificou que a própria cultura organizacional dos grupos de mídia conserva traços machistas. Esses se revelam, por exemplo, nos comentários ou piadas de natureza sexual sobre mulheres, presenciados por 73% das entrevistadas dentro das redações. Isso somado ao mercado restrito, a naturalização dos ataques (os quais são diferentes de críticas) pelos próprios empregadores e ao medo dos grupos invisíveis, porém poderosos, que promovem a violência silenciadora on e offline, faz com que parte expressiva das jornalistas não denuncie as violações sofridas. As engrenagens da tradicional violência de gênero se mostram nitidamente. 

Deve ser de interesse, além de ser responsabilidade, de um Estado democrático prover mecanismos de enfrentamento à violência contra as jornalistas em decorrência de gênero e/ou limitadoras da liberdade de imprensa. Mas, no Brasil, o que acontece é exatamente o oposto. Autoridades públicas repudiam a política e inflam a polarização, buscando um ambiente de descrédito da democracia e de legitimação de práticas autoritárias. Atacar as jornalistas faz parte da estética espetacular e bizarra dessas autoridades. Com isso, confundem o debate público e oportunizam a visibilidade das violações, gerada em coberturas meramente declaratórias dos veículos jornalísticos, sem aprofundamento da discussão, para difundir ideais moralmente conservadores de submissão e negação de direitos.

É preciso atentar que o ataque às jornalistas mulheres se insere, portanto, em um contexto neoconservador, de erosão das estruturas democráticas, onde se assentam agendas emancipatórias de equidade de gênero e de garantias de direitos a grupos historicamente excluídos. Faz parte também de uma perversa tentativa de ressemantização do que se entende enquanto liberdade de expressão e discurso de ódio, a qual nubla debates e enfraquece ainda mais os laços sociais. 

A complexidade desse debate não será esgotada nestas linhas, mas a violência contra as profissionais da imprensa nos provoca a pensar sobre o papel da sociedade civil nessa complexa trama uma vez que o elogio ao autoritarismo ou à defesa de valores democráticos se faz em coletivo, ainda mais nas redes sociais. O caminho para o enfrentamento dessa prática deve envolver também os grupos de mídia, a categoria como um todo, além de demandar um marco regulatório democrático para as plataformas. De toda forma, requer o agendamento qualificado desse assunto, por meio de debates robustos e articulação de atores contra todas as práticas autoritárias.

NATALY QUEIROZ, jornalista, doutora em Comunicação e professora universitária.

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