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Ficção

Angustura

TEXTO MANOELLA VALADARES
ILUSTRAÇÃO SKA BATISTA

01 de Outubro de 2021

[conteúdo na íntegra | ed. 250 | outubro de 2021]

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Os pequenos comentários de canto de boca cresciam à medida que a tarde virava noite. Na hora do jantar, aquilo escalava para humilhação. Uma orquestra de metal potente, com notas de ira, abafava em mim qualquer possibilidade de existência. Sem força, emudecia. Para eles, eu era Rui. O esquisito, o relapso, o incômodo da família. Bianca era a única com alguma compaixão. Mas era fraca e não tomava lado. O resto da casa, Gildete, Beatriz e Leandra dividiam uma forte conexão e sempre me ignoravam nas conversas mais banais.

O jantar sempre às 19h30. Toda noite a cena desconcertante se repetia. Entre passar o sal e tomar aquela sopa de doente, eles destilavam pequenos ódios diários em mensagens cifradas. Eu sempre entendia, porque ser aniquilado, diariamente, é igual a aprender uma língua, com o tempo você domina. Bianca ficava sem graça. Um ar pesado contrastava com a raleza daquela sopa. A refeição era rápida, mas parecia uma eternidade. Depois de colocados os pratos na pia, Leandra, envergonhada, me chamava para ver um filme juntos. Talvez porque eu sabia como ninguém manipular aqueles controles de TV. Eles sempre se enrolavam para pôr legenda ou optar por um dos três serviços de streaming. Eu dava play e me recolhia no quarto de hóspedes. Afinal já não habitava aquela casa há anos. Era uma hóspede de mim mesma.

Estirada no sofá-cama, tal e qual um cadáver na gaveta, a minha pupila se concentrava todas as noites na única planta da estante. Minutos depois daquele estado hipnótico, me sentia muito viva, e pensava num milagre: quando a noite morrer, essa orquídea me dará três botões. Coragem, asas e dignidade. Claro que isso nunca aconteceu. A orquídea era falsa. Um dia, na volta do trabalho, passei na banquinha de Mirtes e comprei uma de verdade. Mas durou pouco. Gildete jogou no lixo. Planta dá bicho, Rui. O maior disparate ouvido nos meus 45 anos de vida. Como era bruta aquela mulher. Naquela noite, uma força não sei de onde, talvez da brutalidade de Gildete ou da orquídea nunca revelada em milagre, finalmente, fui à procura da minha redenção. Me reconheci legalmente Ruth.

Continuei pagando a faculdade de Bianca e a pensão alimentícia da família. Bianca e os outros dois eram filhos de Gildete, que, pequenos, foram morar comigo quando nos conhecemos na Fundação Joaquim Nabuco, recém-concursados.

Eu sentia um prazer enorme em saber que Gildete dependia de mim. Bem, ela não dependia, ganhava um salário digno e fazia consultorias por fora. Mas o apurado dela não daria para bancar a vida confortável e os pequenos luxos. Bianca me contava que ela torrava a pensão em sapatos, frascos de Paloma Picasso e idas ao bingo. Eu sei que é clichê, mas nunca entendi muito bem como Gildete, uma mulher tão inteligente, poderia ter gostos tão duvidosos. A inteligência dela era pragmática. Excelente com os números e em aprovar projetos com o Banco Mundial. Ela foi apurando as escolhas com o tempo. Em algum momento, eu acho que eu quis ser Gildete e, não podendo ser, resolvi casar com ela. Decerto era uma mulher de conveniência (eu também fui por outros motivos), era tanto, que preferia me aturar, porque juntas, fazíamos mais dinheiro. Assumir o caso com Agnaldo, outro concursado da fundação, não era oportuno. Cheguei a imaginar que ela se sentia uma mulher derrotada. Que nada! Gildete tinha uma autoestima impressionante. Engraçado que, mesmo depois de ter me libertado dela, e ter tocado a minha vida, tinha algo a ser exorcizado.

Numa tarde de domingo, na casa de Gilberto, quando a primeira garrafa de uísque esvaziou e fui até o escritório pegar a segunda, meu olhar mirou um tubo de spray. Minha revanche teria cor. Contei meu plano ao meu namorado e ele disse, calmamente, vou com você. Peguei o tubo, pedi um táxi e atravessamos a cidade até o Bairro dos Aflitos. Quando chegamos à única casa amarela, na Rua da Angustura, abri a porta do carro e com o corpo em êxtase, agitei o tubo e, no muro limpinho, a tinta carmim sangrou.

Aqui morou Ruth, que nunca foi Rui.

Fui até o outro lado da rua para ver o meu passado a limpo quando me dei conta.

Gilberto, espera, faltou o coraçãozinho. 

MANOELLA VALADARES, jornalista, contista e poeta. Nasceu no Recife e reside em Londres desde 2008.

SKA BATISTA 
estudou Fotografia no Instituto Português de Fotografia de Lisboa e atualmente cursa Fotografia na Universidade Lusófona em Lisboa. Seu trabalho envolve características da street photography e um tom experimental, com o uso de recursos como colagem, sobreposição, conurbação de informações e imagens, exploradas através de fotografias, vídeos e intervenções nesses suportes.

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