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Portfólio

Alfredo Jaar

Um ataque à indiferença

TEXTO Luciana Veras

01 de Outubro de 2021

Sombras (2014), instalação multimídia, lâmpada, LED, tela, seis caixas de luz, projetor

Sombras (2014), instalação multimídia, lâmpada, LED, tela, seis caixas de luz, projetor

Imagem arcevo Alfredo Jaar

[conteúdo na íntegra | ed.250 | outubro de 2021] 

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Em um trecho da apresentação do catálogo de Lamento das imagens, primeira grande exposição individual de Alfredo Jaar no Brasil, aberta até dezembro no Sesc Pompeia, em São Paulo, o curador Moacir dos Anjos aproxima duas definições para a ideia da “indiferença”, que tanto expandem o olhar para aquelas obras enfeixadas nas suas palavras como apontam para uma das características mais incisivas e autoelucidativas deste artista chileno radicado há muito em Nova York. “Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso, odeio os indiferentes”, anotara o filósofo e historiador italiano Antonio Gramsci em 1917, puxando para si “a tarefa de posicionar-se sem ambiguidades perante os conflitos constitutivos de sociedades desiguais”. E o escritor pernambucano Osman Lins, em seu Avalovara (1973), indagava: “Tem-se o privilégio da indiferença? Preciso ainda saber se na verdade existe a indiferença: se não é – e só isto – um disfarce da cumplicidade”.

É impossível ser ou ficar alheio à obra que Alfredo Jaar vem produzindo e difundindo há mais de quatro décadas, em um lúcido e concreto “ataque à indiferença”, para citar o título do texto de Moacir, que se espraia por vários meios e países.  É acutilante sua noção do que é a arte, em todas as possibilidades de representação política e encadeamento estético; é coerente sua práxis como artista e hábil conceituador de intervenções públicas ou obras em larga escala; e é simbólica sua origem como arquiteto – ele era um estudante ainda em formação na Santiago de 1973, quando as Forças Armadas chilenas lideraram um golpe de Estado e destruíram o palácio de La Moneda, provocando a morte do presidente Salvador Allende e lhe dando o mote para seu primeiro trabalho artístico: o calendário 11.9.73.12.10, representando data e hora da primeira bomba atirada na sede do governo. Naquela peça gráfica composta com Letraset, conjunto de letras técnicas usado pelos designers com recorrência até os anos 1980, todos os dias posteriores ao 11 de setembro viraram 11 também. Como se, a partir dali, a tragédia fosse imposta e revivida a todo instante.

Geografia = Guerra (1991), 10 caixas de luz com diapositivos coloridos, 100 barris de metal, água

“Antes de agir no mundo, preciso entender o mundo”, resume o artista em entrevista por e-mail à Continente. Alfredo Jaar veio ao Brasil para a abertura de Lamento das imagens, acompanhando de perto a transformação do espaço pensado por Lina Bo Bardi (1914-1992) em uma vereda com a sua geografia própria, onde luz e sombra nem sempre são antíteses e materiais e suportes se fundem, com lógica mas sem hierarquia. “Eu sou um arquiteto que faz arte. Para um arquiteto, o contexto é tudo. Para cada projeto, preciso entender o contexto antes de agir. Uma vez que consigo articular uma ideia, é a própria ideia que sugere sua própria materialização. É sempre a ideia que determina o suporte. O meio está a serviço da ideia. Por não ter estudado arte, sinto-me muito livre. Não tenho apego a materiais, mas, sim, a ideias”, situa.

São 12 obras nesta exposição que integra o circuito da 34ª Bienal de São Paulo, cujo título é Faz escuro mas eu canto. Os títulos dos seus trabalhos – Geografia = Guerra (1991), Um milhão de pontos de luz (2005) e Claro-escuro (2016), entre outros – sintonizam-se com a proposta da Bienal de SP, da qual não é estranho. Ele esteve outras três vezes na mostra; aliás, em sua primeira participação, em 1987, montou a instalação Utopia versus realidade, na qual misturava tubos de neon e um tanque de guerra made in Brazil, como ele rascunhou no esboço disponível nos arquivos da instituição. “O Brasil lidera a exportação mundial de tanques. Eu amo o Brasil”, escreveu Jaar. Mais de três décadas depois, em meio à crise institucional, sanitária e política que acossa o país, ele volta para sublinhar o que chama de “política de imagens”, partindo de três obras-chave dessa série – Lamento das imagens (2002), O som do silêncio (2006) e Sombras (2014). “Moacir e eu acrescentamos outros trabalhos fotográficos e textuais que apresentam outras estratégias formais e que se relacionam com a realidade brasileira”, pontua.

Claro-escuro (2016), neon, dimensões variáveis

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Sua arte se erige, amplifica-se e se fortalece na convergência entre a exploração de diversas estratégias formais e em relação direta com a realidade. A partir de Geografia = Guerra, feito para evidenciar “uma nova versão da escravidão”, nas suas palavras, Jaar nos lembra de que a história é cíclica e que os abismos geográficos permanecem a cindir a cartografia humana. “É um trabalho que se refere ao envio de lixo tóxico da Europa para a África. Antes, os escravos eram enviados da África para a Europa, hoje o lixo tóxico é enviado da Europa para a África. Só mudou o rumo da viagem. O que está acontecendo com a vacina da Covid é uma demonstração clara dessa triste realidade. Hoje existe um verdadeiro apartheid, onde os países mais ricos têm entre três a cinco vezes mais vacinas do que precisam e os países em desenvolvimento ainda não têm acesso”, constata.


Lamento das imagens (2002), instalação multimídia, três textos iluminados, lâmpada LED, tela

Dois dos seus trabalhos mais icônicos, Estudos sobre felicidade (1979-1981) e o Projeto Ruanda (1994-2010), atestam tal habilidade em construir uma política das imagens ao mesmo tempo em que questiona o status quo. No primeiro, ao conduzir entrevistas no meio das ruas das metrópoles chilenas, questionar pessoas e estampar anúncios nos jornais ou em outdoors, munido apenas de uma única e simples pergunta – ¿Es Usted feliz? –, ele iluminava, de modo inequívoco, mas sem uma alusão explícita ao governo militar, as sombras que o general Augusto Pinochet impusera sobre o povo do seu país. A referência oblíqua não perde a potência: até hoje, as fotografias, reunidas em algumas das dezenas de livros já lançados, em vários idiomas, sobre sua obra, impactam pelo engenho de atrelar o simples – “você é feliz?” – à complexidade de viver sob uma ditadura.

Em 1994, ao tomar conhecimento da guerra civil que assolava Ruanda, Alfredo Jaar viajou até lá. Em abril daquele ano, um avião que transportava os presidentes de Ruanda, Juvenal Habyarimana, e do Burundi, Cyprien Ntaryamira, ambos da etnia hutu, havia sido derrubado. Quando extremistas hutus culparam a Frente Patriótica Ruandesa (RPF) pelo atentado, responsabilizando diretamente a etnia tútsi pelo assassinato dos chefes de estado, abriu-se uma escotilha para dois meses de terror. Iniciou-se, ali, um genocídio que vitimaria mais de um milhão de pessoas. E, enquanto a mortandade avançava, Jaar circulava, ajudando a criar uma memória para o inominável que estava a presenciar.

 
Untitled (Newsweek) (1994), 17 impressões expostas em caixas luminosas

Um dia, ao deparar com uma agência postal desativada, comprou todos os últimos cartões-postais; eram produtos com o selo do órgão estatal de turismo e sob patrocínio da Sabena, uma companhia aérea belga – a Bélgica havia herdado da Liga das Nações, precursora das Organizações das Nações Unidas, aquele território que a Alemanha invadiu no final do século XIX e colonizou o país até 1962. Jaar comprou todos os postais, estampados com imagens de zebras, leões e águias ou com paisagens das montanhas de Kibuye e Gisenyi, e passou a neles escrever todas as vezes em que conhecia alguém em Kigali que havia sobrevivido. “Canisius Nzayisenga is still alive!”, exclamou para Patti Phillips, de New Paltz. “Jérome Uwanahoro ainda está vivo!”, anunciou para Vicenc Altaio, de Barcelona. Alguns entre as duas centenas de postais, enviados somente depois, de Uganda, estão reunidos em Let there be light The Rwanda Project 1994-1998.

Outras observações seriam, mais tarde, transmutadas em obras que percorreriam o mundo inteiro – o mesmo mundo que demorou a intervir naquele pequeno país da África oriental. Em Untitled (Newsweek), um conjunto de dezessete impressões expostas pela primeira vez ainda em 1994, Jaar inventou uma cronologia própria para os principais marcos do que acontecera em Ruanda. Ao cotejar o avanço da carnificina com as capas de uma das mais populares revistas semanais dos Estados Unidos, enquadrando justamente as edições publicadas naquele período, ele ressaltava o silêncio e a omissão da imprensa ocidental. Em novembro daquele mesmo ano, convidado para participar de uma ação de arte pública em Malmo, na Suécia, ele preencheu os cartazes a ocupar displays espalhados por praças e avenidas com apenas uma palavra, grafada oito vezes: Rwanda. Era como se, mais eficaz do que sinalizar os cadáveres ou realçar a dor dos sobreviventes, fosse apenas repetir o nome daquela nação que sucumbia a uma tragédia ignorada pelo resto do mundo.


Estudos sobre felicidade (1979-1981), painéis, documentação fotográfica, vídeoinstalação e intervenção pública

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Em Os olhos de Gutete Emerita (1996), a fotografia do par de olhos de uma mulher que viu toda sua família ser chacinada é reproduzida em um milhão de slides. Para ele, interessa mais revelar a dor contida naquela mirada, aquela nuance do massacre, do que explorar as camadas de violência que as cenas dos cadáveres empilhados seriam capazes de evocar. Sua obra é, também, de respeito ao estatuto das imagens. “Mais de três bilhões de imagens são produzidas por dia, uma soma totalmente incompreensível. E elas nos atacam sem aviso ou misericórdia, e a maioria nos pede para consumir, consumir, consumir. É muito difícil uma imagem que tenta fazer sentido, ou uma imagem de dor sobreviver neste mar de consumo. O lamento das imagens é um chamado para nos conscientizarmos de que as imagens não são descartáveis, são importantes, são cheias de significado e influenciam nossa maneira de ver o mundo. Como diz um de meus trabalhos, VOCÊ NÃO TIRA UMA FOTOGRAFIA. VOCÊ FAZ UMA FOTOGRAFIA”, sentencia.

E essa fotografia faz parte da significação do mundo e do tempo em que vivemos, como se vê nos trabalhos expostos em Lamento das imagens. Muito antes de ir a Ruanda, por exemplo, Alfredo Jaar esteve nas minas de Serra Pelada, no Pará, Região Norte do Brasil, e lá fotografou homens – rapazes e algumas crianças, até – mergulhados na fúria da busca do ouro. Alguns desses rostos surgem singularizados ante um fundo branco em Fora de equilíbrio (1989). Em Caminhando sobre as águas (1992), registros de um homem tentando atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, cruzando o Rio Grande/Rio Bravo, impõem-se em seis caixas quadradas de luz e de tamanho idêntico. Em O som do silêncio, o artista constrói uma estrutura multimídia para narrar a história por trás da fotografia que o sul-africano Kevin Carter fez no Sudão, em 1993, de uma criança esquálida tocaiada por um abutre. Vencedor do Pulitzer pela imagem, ele se matou pouco mais de um ano depois da premiação.

Os olhos de Gutete Emerita (1996), instalação, mesa de luz, um milhão de slides, lupa

Falar dessa imagem, bem como vaticinar que cultura é um capital, é uma “decisão ética e estética”. “O artista cria modelos de pensamento sobre o mundo. É uma atividade essencialmente política, que se manifesta de diversas formas, desde as artes visuais, passando pela literatura, pelo cinema, teatro, dança e tantas outras expressões artísticas. Cada criação contém uma concepção do mundo. Toda representação vem de uma decisão ética e estética”, condensa Alfredo Jaar.

O neon Cultura = Capital, que chega ao Sesc Pompeia após ter sido mostrado na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, em 2015, corrobora seu teorema. “A cultura é o verdadeiro capital de uma nação. É o que dá identidade a um povo, a cultura é o que temos de mais importante, é como o ar que respiramos. Sem cultura, o oxigênio se esgota e não há vida possível. Um governo que ataca a cultura de seu país é um ato de autodestruição, um verdadeiro ato suicida”, afirma.

Cultura = Capital (2011), neon, dimensões variáveis

Alfredo Jaar, artista premiado, presença recorrente na Bienal de Veneza e na Documenta de Kassel, sujeito responsável por mais de 70 intervenções públicas e nome de destaque no acervo de instituições em todos os continentes, é superlativo. Sua presença no Brasil em 2021, e no mundo, é motivo de celebração. Apesar das incertezas, “O velho mundo está morrendo. O novo demora a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”, como ele nos lembra, em neon, criando em cima das palavras de Antonio Gramsci, que nunca foi indiferente e segue um farol. Como ele. Os monstros hão de surgir, ou decerto já estão aqui, mas é preciso sonhar. “Hoje, ventos de fascismo sopram em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, infelizmente. A política falhou miseravelmente. Só a criatividade pode nos salvar. A cultura cria espaços de esperança”, resume. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente.

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